20/01/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «ERAM TEMPOS DIVERTIDOS»

«... E por falar em plantas, uma palavra, antes de continuar, para a usual clarividência da nossa ministra Maria do Céu que, já tendo profetizado a venda milionária de hortaliças para a China no início da pandemia de Covid-19, veio há dias pôr os espanhóis na ordem, explicando-lhes que a eliminação do IVA nos produtos básicos decidida pelo governo do lado foi um disparate. “Nós entendemos que não é forma de acontecer”, declarou quando confrontada com a medida. Mas lembrando-se talvez do fiasco que constituiu a venda de couves para o Império do Meio, acrescentou em português mais terra-a-terra: “De qualquer modo, estamos a avaliar”.

Éramos portanto, jovens, felizes e maioritariamente divertidos. A obsessão com a fidelidade ao marxismo-leninismo e a política pura, dura e partidária atenuara-se e até o PCP, fruto das circunstâncias, moderara a irritante mania de manipular as assembleias, avançando com pontos de ordem à mesa que exigiam votações quando os opositores às suas propostas se inscreviam para falar. O MRPP, por seu turno, deixara de bater nas pessoas que, fazendo prova de grande imprudência, colavam cartazes por cima dos seus cartazes com data de validade há muito caducada. (...)»

06/01/23

FRASES PARA EMOLDURAR

O governo pretende «estabelecer um circuito que permita evitar desconhecer factos que não estamos em condições de conhecer», António Costa.

ENTRE SER BURRO E FAZER DOS OUTROS BURROS VENHA O DIABO E ESCOLHA

Há uma nova polémica a envolver mais um secretário de Estado. Sem currículo, a não ser nas lides partidárias, aos 43 anos, Hugo Pires é chamado ao ministério do Ambiente, arrastando consigo, no mínimo, um lastro ambíguo no que respeita ao tratamento de lixos tóxicos.

Ora bem e por hipótese. Se eu em 2021 tivesse perdido a cabeça e dado um enxerto de criar bicho ao filho do meu vizinho, como poderia prever que em 2023 seria chamada para exercer um cargo na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens?

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «1, 2, 3 EXPERIÊNCIA»

«A primeira aparição em carne e osso, digamos assim, de HAL 9000, uma personagem/computador criada pelo escritor britânico Arthur C. Clarke, aconteceu no clássico de Stanley Kubrick, 2001, Odisseia no Espaço, chegado ao grande ecrã em Abril de 1968 estava a França a um mês de ensaiar uma revolução que exigia o impossível.

(...) Mais de meio século depois de HAL 9000, a mais badalada coqueluche da Inteligência Artificial é um chatbot que dá pelo nome de ChatGPT. Desenvolvido e aperfeiçoado pela OpenAI, surgiu em Novembro de 2022 e poucos dias após ter sido lançado já alimentara a conversa de mais de um milhão de utilizadores.

Confesso que no que toca à utilização de chats, a minha curtíssima experiência recua aos seus tempos primordiais, quando a troca de mensagens escritas tinha por trás seres humanos (sabendo-se embora que em muitos casos, se não a maioria, os seus perfis haviam sido aprimorados, para não dizer aldrabados), e terminaria abruptamente mal começara quando um moço que se dizia na Suíça me perguntou: Donde teclas? A minha sensibilidade à língua não aguentou o embate da nova forma verbal e deixei o interlocutor sem resposta entregue à maçadoria helvética.

Leio agora que o ChatGPT leva a cabo uma revolução nunca vista, inimaginável sequer pelos franceses que em Maio de 68 exigiam o impossível. (...)»

05/01/23

NÂO SE PODE IR JANTAR ARROZ DE LINGUEIRÃO QUE CAI LOGO UM MEMBRO DO GOVERNO

Leio que a segunda titular de um calote ao Fisco se demitiu passadas 25 horas de ter sido nomeada para secretária de Estado do ministério a que preside a ministra das Couves.

Dois comentários.
1. A senhora diz que não tem «condições políticas e pessoais para iniciar funções no cargo». E agora repare-se que só passou a não ter condições para o cargo que aceitou depois do calote vir a público. Antes disso, nem se lembraria do nome do marido!
2. A ministra das Couves fez saber que a demissão foi «prontamente aceite». Leio «prontamente aceite», lembro-me d' «As Farpas» de Eça e Ramalho e escangalho-me a rir.
A propósito: o arroz de lingueirão fui eu que o fiz e estava de estalo!

ISTO, ALÉM DE ESTAR TUDO LIGADO, TAMBÉM BATE TUDO CERTO

Quando o nosso Lawrence da Arábia dá pelo nome de Ronaldo, queriam caviar na política?



02/01/23

REMODELAÇÃO GOVERNAMENTAL: A HISTÓRIA DA CAROCHINHA ACTUALIZADA A 2/01/2023

Horas esteve à janela de S. Bento António Costa.

Demandava, como no conto popular infantil:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?

Ninguém o levava a sério.

Já noite, passou o Galamba.

— Quero eu, quero eu!

E foi assim. Casaram. E Galamba foi a ministro.

30/12/22

PARA MEMÓRIA FUTURA


 

MEDITAÇÂO DE SEXTA: «DA CIDADE E DO CAMPO»

«Se a vida lhe der limões, faça uma limonada, recomendam os aficionados do doutor Pangloss. E agora numa versão pessoalíssima, que me absolvam os vegans irredutíveis: se um vizinho lhe der um galo descabeçado, depene-o!

(...) Mas não seria sequer tema – o tema do galo descabeçado com penas – se não aproveitasse a ocasião para invocar os versos iniciais do conhecido e certeiro poema As Pessoas Sensíveis de Sophia de Mello Breyner: “As pessoas sensíveis não são capazes / De matar galinhas /Porém são capazes / De comer galinhas”.

Há coisas que, parecendo que não, batem sempre certo. Por exemplo. Quando perguntada há dias sobre qual o livro que gostaria de receber de presente no Natal, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, referiu a este jornal Misericórdia de Lídia Jorge, acrescentando: “Presumo que seja emocionalmente duro, mas também por isso mesmo”. E como assim se prova, a distância entre literatura, leitores sensíveis e galinhas sem cabeça não é tão grande quanto imaginar se possa. (...)»

23/12/22

«ATRÁS DOS LIVROS, VÊM LIVROS»

«... Tenho para mim que se a actual ditadura do relativismo gnosiológico teve início há décadas, quando a frase “isso é a tua opinião” começou a ganhar foro de cidadania nos jantares de família ainda os adeptos da teoria da Terra Plana cabiam todos numa garagem aos Olivais em Lisboa, a decadência da crítica acentuou-se visivelmente com a atribuição de “estrelas” aos livros, uma ideia roubada ao star system que, por volta dos anos 20 do século passado, se apercebeu que a promoção da imagem das estrelas de cinema fazia bilheteira. Além de ser uma ideia provecta, permito-me duvidar da sua eficácia no que respeita a literatura. Afinal, que escritor se poderá reclamar do glamour de James Dean ou Grace Kelly, ou mostrar-se capaz de impingir cápsulas de café com a competência de um Clooney? (...)»

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «UF! 2022 CHEGA AO FIM»

 «... Por falar em camelos, se há notícia recente capaz de nos dar a dimensão real do estado a que isto chegou é a do anúncio feito por Donald Trump de que iam ser postas à venda cartas digitais coleccionáveis em que ele próprio, ex-presidente dos Estados Unidos (sublinho, dos Estados Unidos) aparece vestido, entre outras figuras, à John Wayne, Super-Homem, astronauta ou com um modesto fato e gravata. O anúncio foi antecedido de grande expectativa.

Havia quem apostasse que Trump ia finalmente anunciar a sua recandidatura à Casa Branca, cogitou-se que anunciaria o fim da guerra na Ucrânia para o Natal, alguns ufólogos trumpistas garantiam que iria reconhecer em público ter sido raptado em pequenino por extraterrestres e daí os seus superpoderes. (...)»

16/12/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «É A VIDA»

 «... Um parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (sublinho: do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e não do Episcopado Católico Português…) levanta pertinentes e fundamentadas questões [no que respeita aos projectos-lei sobre a morte medicamente assistida]. (...)

 Terminada a leitura do parecer (parecer 116, [respeitante aos projectos-lei sobre a morte medicamente assistida] disponível online no site do CNECV), ressurge a atanazar-me, qual mãe de Woody Allen no céu de Nova Iorque, o debate sobre o famigerado Acordo Ortográfico que resultou na sua aprovação pelos deputados da República — apesar de todos os sinais de alarme e críticas devidamente sustentadas e especializadas —, teimosia cingida por um clima insuflado de fanatismo em que os críticos da decapitação a eito das consoantes mudas eram acusados de conservadorismo serôdio e mimoseados com a invectiva de “Cambada de Velhos do Restelo!”, enquanto os seus defensores brandiam o antigo PH de farmácia (desprezando o facto do antigo PH, lendo-se F, em nada alterar a fonética…) com a mesma exaltação com que se imagina os antigos Cruzados branderiam a cruz de Cristo. Tristezas! (...)»

02/12/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E A MELANCOLIA TOMOU CONTA DA CRONISTA»

«... Embora não existam livrarias seja qual for o ponto cardeal para onde me vire, vou mantendo contacto com os livros. Confesso que a maioria me deixa indiferente. E sim, não são poucas as vezes que sinto pena das árvores.

O sentimentalismo, dissimulado por uma carreira literária – seja isso o que for –, ou visivelmente primário – ambos abertamente mercantis – convoca Baudelaire que, a propósito do processo movido a Les Fleurs du mal, corria o ano de 1857 – há quanto tempo! – concluía que só se devem escrever livros virtuosos e com finais felizes.

E perdoar-me-á o leitor desta crónica a falta de actualidade da mesma. Quem diz actualidade, diz foco, palavra ainda assim mais aceitável do que “focalização”.

Claro que temas não faltam. O Qatar continua na ordem do dia. Têm sucedido revoltas na China, com os chineses a fartarem-se – apesar da sua renomada e milenar paciência – da política de Covid Zero, fora o resto. António Lobo Antunes publicou recentemente um novo romance (ainda não li). Evidentemente, há o tema intemporal do Acordo Ortográfico que veio esfrangalhar de tal maneira a língua que o português de Portugal corre o sério risco de se vir a transformar numa versão abastardada – e sem graça – do português do Brasil.

Se eu tivesse um décimo do talento de Eça de Queirós, já teria inventado, ou reinventado, um bei de Tunes. Afinal, não há cronista que um dia, pela manhã, não sonhe em ouvir bater-lhe à porta o bei de Tunes. (...)» 

01/12/22

EDIÇÃO & TAL.

Aquela cena de calarem a Ursula no vídeo e lhe colarem o discurso com nova edição lembra um bocado a história dos tipos que o Staline mandava tirar das fotografias.

Calma! Não se enervem já. Eu sei que há diferenças. Normalmente os tipos que o Staline mandava apagar das fotografias já tinham morrido e a Ursula continua viva e nos nossos corações.