14/12/10

Diálogos sob o nevoeiro

— Vamos?
— Vamos.
— Hoje foi rápido.
— Pois foi. Vamos a pé?
— Quer ir a pé? Não prefere que vá buscar um táxi?
— Não, podemos ir a pé. Mas, antes disso, arranja-me aí um cigarrinho.
— Qualquer dia recusam-lhe os tratamentos...
— Ora, porquê? Por causa de um cigarrinho? Os cigarros ligam bem com este tempo...
— Com este tempo...
— Sim, não vês que está um bom dia para passear à beira do Tamisa?
— Tamisa?! Queria dizer Tejo, não?
— Eu disse Tejo?
— Não, disse Tamisa.
— E era exactamente o que era queria dizer. Shall we go? (risos)

A malta do portal SAPO também deve ter tirado um curso de inglês técnico por correspondência

Texto em destaque no portal SAPO dando conta da decisão do juiz inglês que ordenou a libertação de Julian Assange sob fiança

Julian Assange, criador da Wikileaks, foi libertado sob fiança após ter sido ouvido por um juíz no processo em que estava acusado de violação e abuso sexual.

Deixemos de lado o facto de o "foi libertado" não ser um facto (Assange terá de aguardar na prisão um eventual apelo dos advogados de acusação que têm 48 horas para contestar a sentença) e passemos ao que importa.

Julian Assange não estava acusado!!!??? de "violação" porra nenhuma. Toda a gente já está farta de saber que a acusação é de "sex by surprise", na sequência da queixa feita por duas louras suecas que foram voluntariamente com ele para a cama.
E isto sempre faz alguma diferença, pelo menos para mim que não sou sueca.

12/12/10

Zé Manel Fernandes: toma, embrulha e esforça-te mais um bocadinho


Os convertidos são sempre os piores. Por isso, ao contrário do Zé Manel Fernandes, o congressista republicano Ron Paul faz as perguntas certas.

E fá-las no pressuposto — não negociável — de que in a free society, we are supposed to know the truth. In a society where truth becomes treason, we are in big trouble (e esta também podia ser para o Pacheco Pereira).

DAQUI.

Não vem no Wikileaks nem ninguém lhe perguntou nada mas José Manuel Fernandes garante que não esteva na cama com Assange*

"(...) Refere-se à prisão de Assange? Não estive nas camas em que ele se meteu na Suécia (...)"
AQUI, a partir DAQUI.
*Dadas as óbvias conotações sexuais que este caso vem assumindo, talvez estivesse na altura de alguém desenterrar o Reich.

10/12/10

Enquanto não mando imprimir a T-shirt com os dizeres surprise me! [if you know what I mean] deixo-vos com a Morgada de V. que ficam muito bem

ESTE POST, PARECENDO QUE NÃO, É POLÍTICO

“But the Almighty Lord hath struck him,
and hath delivered him into the hands of
a woman.” — The Vulgate, Judith, xvi. 7

Nietzsche dizia que a prova da inferioridade das mulheres se via no facto de terem passado milénios na cozinha sem terem desenvolvido uma teoria geral da nutrição, mas isso foi porque levou tampa da Lou Salomé e da Cosima e por causa de umas sanchas que lhe caíram mal.
Ceci dit, há que reconhecer que nem sempre usámos os ingredientes ao nosso dispor para cozinhar a revolução. Exemplos históricos da união feminina em prol da mudança social? Lísistrata & as Mães de Bragança.
Dir-me-ão que o primeiro caso é de ordem ficcional, e o segundo é mau demais para ser verdade, mas é não ter em conta o poder dos arquétipos na conformação da realidade. Em ambos os casos, as mulheres usam o sexo com a mesma extensão dos poderes do Presidente da República: vetam. Dar o corpo ao manifesto, que é bom, népias.
O que faz o mulherio, nomeadamente de esquerda, perante o cerco à liberdade de expressão que nos preocupa a todas? Googla fotos do Assange e suspira (...). Ora os tempos que atravessamos exigem novas formas de luta, formas criativas de luta. Quando alguém é vítima de uma acusação caluniosa, não falta quem venha dizer “somos todos vítimas-de-manobras-caluniosas”, numa espécie de “je m’accuse” solidário; como não podemos ser o Assange, resta-nos o “queremos todas ser surpreendidas pelo Assange”.
Enfim, para quando um movimento “Surprise me”? Seria uma espécie de let’s call the girls bluff of, porque ninguém ignora que a acusação de violação – mesmo a violação between consenting adults, como parece ter sido o caso – tem o poder de uma mancha de crude a alastrar pelo oceano, indeferindo liminarmente o contraditório e levando ao arquivamento do sentido crítico da opinião pública internacional.
Mulheres de todo o mundo, uni-vos! Não é só a liberdade das sociedades ocidentais ou a reputação do Assange que justifica o apelo às armas, é também a reputação feminina que está em causa: aquela loira gira que acusa o Assange e a outra que não aparece nas fotos mas também não deve ser má são as últimas de uma longa lista de castradoras sexy encabeçadas por Salomé, Judite e Dalila, o mito da mulher que faz perder a cabeça ao desprotegido sexo forte.
Urge demarcarmo-nos destes baixos agissements. Acredito que nem todas achem o Assange simpático, que haja quem prefira homens mais baixos ou mais gordos, ou que agora não lhes apeteça; mas a causa da liberdade exige sacrifícios e abnegação, e as refractárias podem sempre seguir os conselhos das Braganza mothers’ mums: lie back and think of Sweden.

Hoje é dia de Nobel

Na ausência do próprio, preso na China, o prémio Nobel da Paz foi entregue a Liu Xiaobo.

07/12/10

A maior ironia disto é que num filme americano Assange seria o herói


O cinema americano gosta de heróis solitários. É por isso que assistir ao vivo à perseguição do australiano Julian Assange tem um certo sabor a sétima-arte. Com todos os ingredientes. O "fugitivo" tem atrás de si os bancos, os governos, as polícias, as grandes empresas e mais duas duas louras loucas que o acusam de "sex by surprise" (o que prova desde logo que a ginástica sueca foi claramente destronada pelo Pilates).
E qualquer semelhança com uma história de Phillip K. Dick não será mera coincidência.

05/12/10

Estar com ou contra Julian Assange [porque há coisas que são mesmo assim: ou preto ou branco]


Uns querem vê-lo morto. Outros querem vê-lo preso. Há quem lhe chame anarquista e há quem lhe chame embusteiro. Para mim, Julian Assange é um herói.
Eu sei que a palavra não faz as delícias de uma certa esquerda (a luta de classes como motor da história e tal…), e que a direita, tradicionalmente, embora aprecie o termo neste caso não o adopta.
Dito isto: as últimas revelações da WikiLeaks não são sobre o botox do Muammar al-Gaddafi, como alguns pensam ou pensaram. A prova está na escala da perseguição a que se viu sujeito Assange desde que os telegramas diplomáticos começaram a vir a público.
A coisa foi em crescendo. Com os pretos do Quénia, claro, ninguém se importou muito. A guerra no Afeganistão e no Iraque fez mossa, mas quem no seu juízo perfeito ainda acredita na treta do War on Terror?
Quando se chegou à diplomacia, o que aconteceu foi que os EUA foram expostos ao ridículo (e também, precisamente, por causa do botox do outro). A ameaça pende agora sobre um Banco e sobre a Indústria Farmacêutica e com esses não se brinca. Mesmo.
Aos que duvidam da idoneidade da WikiLeaks ou defendem o secretismo estatal (muito ou só um bocadinho…) apenas queria dizer isto: tivesse existido a WikiLeaks há mais tempo e coisas como as sanguinárias ditaduras latino-americanas (diplomaticamente preparadas pelos EUA) não teriam existido. Resta-nos o consolo de que, no futuro, talvez os militares dos Apache comecem a ter mais cuidado quando brincam ao tiro ao alvo.
*O vídeo acima não é para Pessoas Sensíveis.

02/12/10

Gabinete de Sócrates na vanguarda da diplomacia internacional mostra ao mundo como se lida com criminosos tipo Assange

Hillary Clinton deve estar muito arrependida por não ter telefonado aos assessores de Sócrates para lhes pedir conselho sobre o que fazer face às revelações da Wikileaks. Afinal, enquanto a americana se desfaz freneticamente em telefonemas, cartas, conferências de imprensa, pedidos de desculpa e ameaças, o gabinete do primeiro-ministro limitou-se a uma declaração lacónica muito mais eficaz: Não comento! Não comento! Não comento!
Perante o sincretismo do governo português, a embaixada dos EUA em Lisboa já terá enviado um telegrama confidencial para Washington (que será relevado pela Wikileaks a seguir ao dia dos Reis), onde se sugere que as autoridades norte-americanas adoptem, embora tardiamente, a mesma atitude.
O porteiro da embaixada ter-se-á mostrado, todavia, reticente quanto à eficácia do no comments fora das nossas fronteiras.
Segundo o referido funcionário, que preferiu manter o anonimato e vive há cerca de 40 anos entre nós, só num país de poetas a negação da realidade é uma estratégia viável.

Post dedicado a Luís Amado [com música a condizer]


Agora, seria nossa vantagem acariciá-lo (???!!!) muito, frase final de um telegrama enviado pela embaixada norte-americana em Lisboa, a 18 de Outubro de 2006, a propósito dos voos da CIA de Guantánamo e referindo-se expressamente ao iluminado Luís Amado.

30/11/10

A queda em directo e ao vivo


Apesar do tom “telenovelesco” da maior parte dos documentos diplomáticos norte-americanos que têm chegado a público, cedidos pela Wikileaks, um assalto desta dimensão não é para brincadeiras.
Anda tudo a assobiar para o lado, com poucas excepções (uma foi Chávez que já veio dizer as coisas do costume), mas que os EUA se expuseram ao ridículo expuseram.
Podem os próprios — e os visados nos telegramas — fazer diplomaticamente de conta que continua tudo bem. No fundo, no fundo, estamos a assistir ao vivo e em directo à queda de um Império.
The times they are a-changin. Ou como bem disse o Tom Waits, "estamos no meio de uma revolução [só que desta vez] ninguém sabe de que lado vêm as pedras".

26/11/10

Diálogos ao final do dia

— Que dia é hoje?
— Quinta.
— Já?!
— Já. Como tem estado a dormir o tempo passou mais depressa…
— Se calhar injectaram-me com pentatol…
— Pentatol?!
— Sim. O que usava o KGB e a CIA…
— Que disparate! Eles aqui já não usam disso.
— Tens a certeza?
— Quase que apostava. Mas quer que pergunte?
— E achas que eles iam dizer? (risos)
— Pentatol! Vai lembrar-se de cada coisa!
— Pentatol, sim senhor. O soro da verdade.
— E para que é que o Figueiredo ia querer saber os seus segredos?
— Também tens razão. E trouxeste algum pastelinho de nata? Dieta líquida, dieta líquida e fica para aqui um homem cheio de fome.

22/11/10

Keept it simples: da relatividade de Einstein ao valor do dinheiro

Aqui há uns anos lia-se muito Piaget. Eu, pelo menos, lia. De um dos seus livros, ou de algum livro sobre ele, recordo uma história em que se contava que as crianças não tinham qualquer dificuldade em compreender a relação entre tempo e velocidade proposta por Einstein.
Até uma determinada idade, os putos achavam absolutamente natural — e mesmo uma evidência sem necessidade de demonstração — que quando se anda mais depressa o tempo passa mais devagar.
A mesma clarividência parece desenhar-se a propósito de finanças.
Tentem explicar a um miúdo as guerras cambiais entre a China e os EUA com a Europa pelo meio. Façam-no recorrendo a exemplos domésticos e deixem os esoterismos de lado.
A resposta, verão, será invariavelmente a mesma: Tens falta de dinheiro? Bom, mas nesse porque é que o governo não fabrica mais notas e pronto?, dirá ele, borrifando-se completamente para as valorizações e desvalorizações da moeda.
Ou seja, as crianças não só percebem com facilidade Einstein como, ao que parece, também concordam com Occam: entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem. E tudo isto sem saberem nada de física, de latim, ou de finanças. Abençoadas!

21/11/10

Será que a malta ficou surda de tanto português técnico?

Que mania será esta de trocar sistematicamente porque por por que, escrever acerca de em vez de sobre, a fim de em vez de para, cindir em vez de separar, abordagem em vez de aproximação, interrogação em vez de pergunta, alega em vez de defende, sendo que em vez de e, inclinamo-nos a supor em vez de supomos, concebida como consistindo em vez de consistir….?!