21/06/24
14/06/24
MEDITAÇÃO DE SEXTA «Os EMPATAS: Nos dias bons, aplaude-se a resistência ladina dos portugueses ao poder; nos dias maus, critica-se a falta de frontalidade dos mesmos.»
«(...) Considerando o avanço da extrema-direita na Europa – embora não falte quem, fazendo umas contas de merceeiro continue a achar, desentendendo a ironia do aforismo de Ennio Flaiano, companheiro de estrada e de argumentos de Fellini: “La situazione politica (…) è grave ma non è seria” – (veja-se o exemplo de Ursula von Der Leyen, gritando em êxtase sem desarrumar o cabelo: “Vencemos as eleições europeias!”), os resultados em Portugal só nos podem alegrar.
Em resumo: o voto de protesto no Chega, sendo grave, não foi sério. Os deuses nos ouçam!
«De resto, basicamente o costume. Os portugueses, mais uma vez comedidos, optaram pelo empate. A calcutaense Temido lá vai para a Europa, assim como o pernóstico Bugalho e mais uns quantos, um pacote onde se incluem betos e betinhos. Aproveitemos que daqui a nada metem-se as férias de Verão e muito pior estão os franceses.
«Ainda assim, impossível esquecer que os tambores da guerra continuam a rufar pela Europa. Mas como diz o mais macabro provérbio nacional: “enquanto o pau vai e vem folgam as costas!” E termino por aqui que não quero estragar um dia bom.»
24/05/24
MEDITAÇÃO DE SEXTA: "Silêncio que se vai cantar o fado!"
«(...) Como se sabe, a liberdade de expressão é terreno escorregadio onde nem tudo é a preto e branco.«(...) Como se sabe, a liberdade de expressão é terreno escorregadio onde nem tudo é a preto e branco.
Há uns dias saiu neste jornal um texto assinado por Ana Sá Lopes de título “Pode um deputado dizer que os judeus são uma etnia ‘mais burra’?”.
Segundo a autora seria pouco provável que, fosse esse o caso, o presidente da Assembleia da República se mostrasse tão permissivo à livre oratória: “É evidente que, se a etnia visada fossem os judeus, a reacção não seria essa. Não estou a ver José Pedro Aguiar-Branco a permitir na Assembleia insultos aos judeus (mas confesso que já estou por tudo). Sinceramente, acho que não o fará, porque carrega a culpa que todos nós, europeus, carregamos por termos permitido, no século XX, o Holocausto”.
Deixando, por ora, de lado a questão da “culpa abstracta”, passemos de imediato ao concreto.
Primeiro, preguiçoso (em rigor: “pouco trabalhador”) não tem o mesmo peso de “burro”. Segundo, entre negar o Holocausto enquanto facto histórico ou afirmar que os judeus foram bem mortos (discurso de ódio) e chamar burro a um povo continua a haver significativas diferenças. O mesmo se diga, por exemplo, de dizer “os imigrantes não querem trabalhar” ou “os imigrantes deviam afogar-se todos”.
Finalmente, e para entrar no problema abstracto da “culpa colectiva”, atendendo a que se trata da contestação a generalizações, faço notar que tão generalista é falar da culpa de “todos nós, europeus” como de “turcos” e do seu pouco amor ao trabalho.
Vivem-se tempos paradoxais. Enquanto uns clamam por discursos impolutos, os discursos brejeiros vão galgando terreno. Enquanto uns reagem ruidosamente denunciando qualquer expressão na qual vislumbrem o menor indício de “linguagem menos própria”, os falantes da chamada “linguagem menos própria” batem palmas, agradecem a deferência, a difusão, e engrossam o discurso, acabando também por engrossar, como previu Umberto Eco (no caso, referindo-se às redes sociais), a “legião de imbecis” que dantes se ficava pela taberna e que hoje chegou aos parlamentos.»
22/03/24
MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Galinhas, robots e tacos de basebol»
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15/03/24
16/02/24
MEDITAÇÃO DE SEXTA: «À maneira de inventário»
02/02/24
MEDITAÇÃO DE SEXTA: «O Ar dos Tempos»
12/01/24
08/12/23
MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Isto não vai acabar bem»
«Antes de prosseguir, quero apresentar aos leitores desta crónica, na qual, aviso de antemão, não será referido o tema de mui agrado das azeitonas
“Não, não falarás de azeitonas!”, decretou-me à noite uma voz, decerto resultado de alguma mixórdia onírica entre o vigoroso “Não, não cantarás!” dirigido ao bardo Assurancetourix e o eco d’ A Portuguesa interpretada por estrídula soprano durante as comemorações do Dia da Restauração em Lisboa, encarnação viva de Natália de Andrade e, porque não, de Florence Foster Jenkins ou mesmo da actriz do cinema mudo Leona Anderson que em 1957 lançaria o disco "Music to Suffer By", embora esta não hesitasse em apresentar-se como “the world’s most horrible singer”,
as minhas sinceras desculpas.
E porque o faço? Faço-o pelo cometimento do pecado da apropriação cultural! E se, pedindo clemência, invoco a meu favor o facto de só recentemente a apropriação cultural ter sido incluída na lista dos crimes contra a Humanidade, nem por isso deixo de registar a merecida admoestação.
“Pelo menos poderia ter começado por dizer que é judia…”, deixou em comentário à crónica da semana passada leitor atentíssimo. A crónica, da qual o tema das azeitonas estava, hélas!, ausente embora mencionasse figueiras e moscas (elementos de natureza outrossim campestre), referia-se à guerra na Faixa de Gaza e ao sucesso da propaganda do grupo islamista Hamas em fazer equivaler o ataque de 7 de Outubro à resposta do exército israelita, equivalência que me parece espúria mesmo considerando que o conflito não nasce do vácuo, como é próprio, aliás, de todos os assuntos humanos e mesmo das leis da física. (...)»
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