Ponto Ómega não é um haiku, apesar de a sua contenção estar mais próxima do despojamento da forma japonesa do que da torrente épica de outros títulos, como, por exemplo,
Submundo. No seu último romance, DeLillo oferece-nos apenas um trio de personagens e uma trama que se organiza, também ela, em três momentos breves. No primeiro, chamemos-lhe prólogo, assistimos a
24 Hour Psycho, vídeo-instalação criada por Douglas Gordon (um artista de carne e osso que esteve recentemente em Portugal a convite do Estoril Film Festival) e que, resumidamente, consiste na projecção do clássico de Hitchcock a um ritmo de dois fotogramas por segundo, estendendo-se, assim, por 24 horas. No segundo, somos transportados para o deserto do Arizona, retiro de Richard Elster, velho intelectual que serviu o Pentágono durante a guerra do Iraque e que acaba de receber em casa o jovem realizador Jim Findley, cujo sonho é fazer com ele um filme com um único plano-sequência. Aos dois juntar-se-á Jessie, filha de Elster, personagem que empurrará
Ponto Ómega para um registo – chamemos-lhe thriller metafísico – próximo das atmosferas de Cormac. Por fim, o terceiro momento, em que regressamos de novo a
24 Hour Psycho e, assim, ao misterioso anónimo (quarta e obscura personagem, talvez Dennis, talvez o próprio autor, DeLillo...) que assistia já à sua projecção no prólogo:
Havia um homem de pé, encostado à parede norte, quase invisível. Resumida a coisa de forma a não estragar o suspense (que o há), diga-se que
Ponto Ómega é um livro estranho, a transbordar de referências políticas, filosóficas, cinematográficas, feito, apesar do seu reduzido número de páginas, para se degustar e não para se engolir de um trago (primeiro estranha-se, depois entranha-se).
Um governo é uma iniciativa de carácter criminoso, escrevera Elster num ensaio antigo sobre o qual conversa agora com Findley. Eis uma frase que podíamos facilmente atribuir ao próprio DeLillo, crítico assumido da política norte-americana, mas que nos chega antes pela mão de um neoconservador (os neocon americanos assumem sem peias o seu cinismo e sabem que a guerra não é uma partida de canasta):
O Estado tem de mentir. Não há nenhuma mentira na guerra ou na preparação para a guerra que não seja defensável. Nós fomos ainda mais além, resume. Inventariam, pois, uma nova forma de ver o mundo, assente em palavras e significados que, à maneira de um haiku, pretendia dar a ver o essencial:
Eu queria uma guerra em haiku. (...) Queria uma guerra em três versos, diz Elster a dada altura. O tema do haiku remete-nos para a dimensão filosófica de
Ponto Ómega, traduzida aqui nos fotogramas de
Psycho. Cada um deles como que evidencia a natureza vital da experiência, à semelhança da forma japonesa onde se ensaia a Iluminação a partir da visão dos contrários, de acordo com o Zen, embora DeLillo prefira seguir pelos caminhos desbravados por Teilhard de Chardin, jesuíta vigiado pela Igreja que desconfiava dele e do seu darwinismo teológico – do seu “ponto ómega”: epifania da Consciência para onde converge inevitavelmente o mundo. Elster, cansado dos
exércitos portadores do gene para a autodestruição, interpretará o conceito livremente (e DeLlilo com ele):
Teremos de ser humanos para sempre? A consciência está exaurida. Regressemos à matéria inorgânica. É isso que nós queremos. Queremos ser pedras no meio do campo. E será, de certa forma, a essa condição que regressa Jessie, a filha, mas porque
Ponto Ómega é um romance e não um ensaio, a epifania dela arrasta infortúnio e angústia. Chegados aqui, talvez possamos, contudo, ensaiar outra leitura e optar, como em
Vertigo, por reencontrá-la no epílogo a assistir a
24 Hour Psycho, alheios às incongruências do tempo que, como sabia Henri Bergson (filósofo lido por Chardin),
ou é invenção ou não é nada.
Ponto Ómega, Don DeLillo, Sextante Editora, trad. de Paulo Faria, 128 págs.