O autor do texto do livro "A Crise explicada às crianças (de direita e de esquerda)" disse que "queria experimentar esta coisa de escrever para os mais novos, tenho ideias para vários livros, mas esta foi a primeira a surgir, e calha bem com o tempo que estamos a viver".
Ele pode experimentar "as coisas" que quiser, mas só num país transformado numa latrina é que coisas destas são levadas a sério. Hoje estou Indignada e não é com os 15% de desemprego.
Mas, afinal, isto anda mesmo tudo ligado. Vómito.
13/05/12
12/05/12
Vou tentar fazer uma também em grego mas não prometo
Honi soit qui mal y pense (só para francófonos)
Listen very carefully, I shall say this only once.
Papagaio de Flaubert. Bouvard e Pécuchet. Bouvard e Pécuchet, canal Saint Martin. Canal Saint Martin, Jean Gabin. Gabin, Yves Montand. Yves Saint Laurent.
Ostras. Magret de pato. Georges Perec. Pont-l’évêque.
Paul Verlaine. Maurice Blanchot. Jean Giraud. Henry de Montherlant. Arthur Rimbaud. Jean-Marie Gustave Le Clézio.
Croissant. Boris Vian. Roger Vailland. Guy de Maupassant.
Claude Simon. Jacques Vaché. Cassoulet. Georges Méliès.
Jean Renoir. Renoir. Jean-Luc Godard.
Jacques Prévert. Guillaume Apollinaire.
Place des Voges. Ile d’Aix. La Rochelle. Fernandel. Céline.
Je m'appelle Ferdinand.
Cognac. Honoré de Balzac. Julien Gracq. Crepes de chocolate.
Auvergne (bleu). Raymond Queneau.
Notre Dame de Paris.
Cyrano. Panache. Pastis. Chablis. René Goscinny. Madame Bovary.
Mademoiselle Chanel.
Une femme est une femme.
Proust. Madalenas. Petits fours. Framboesas. Caracoletas. Cuscuz.
Bordeaux grand cru. Bordéus. Bretanha. Bourvil.
Il pleut sur Nantes : Barbara.
Brassens : Quand on est con, on est con.
Albert Camus. Albert Cohen. Belmondo [até aos 35].
Roquefort. Allez, français, encore un petit effort!
Camembert moulé à la louche. Coluche.
François Truffaut. Alain Resnais. Claude Monet. André Dussolier.
Sena. Pontes do Sena. Sous le pont Mirabeau coule la Seine/ Et nos amours.
Sous le pavé, la plage.
Charles Baudelaire. Charles Trenet. Léo Ferré.
Charles de Montesquieu. Gérard Depardieu.
Michel de Montaigne. Michel Piccoli. Pierre Arditi. Jacques Tati. Claude Chabrol. Sabine Azéma. Serge Gainsbourg. Ratatouille.
Aunac. Armagnac.
Bayers. Angoulême.
Astérix. Obélix. Assurancetourix: Non, tu ne chanteras [plus]! Non, tu ne chanteras [plus]!
Listen very carefully, I shall say this only once.
Papagaio de Flaubert. Bouvard e Pécuchet. Bouvard e Pécuchet, canal Saint Martin. Canal Saint Martin, Jean Gabin. Gabin, Yves Montand. Yves Saint Laurent.
Ostras. Magret de pato. Georges Perec. Pont-l’évêque.
Paul Verlaine. Maurice Blanchot. Jean Giraud. Henry de Montherlant. Arthur Rimbaud. Jean-Marie Gustave Le Clézio.
Croissant. Boris Vian. Roger Vailland. Guy de Maupassant.
Claude Simon. Jacques Vaché. Cassoulet. Georges Méliès.
Jean Renoir. Renoir. Jean-Luc Godard.
Jacques Prévert. Guillaume Apollinaire.
Place des Voges. Ile d’Aix. La Rochelle. Fernandel. Céline.
Je m'appelle Ferdinand.
Cognac. Honoré de Balzac. Julien Gracq. Crepes de chocolate.
Auvergne (bleu). Raymond Queneau.
Notre Dame de Paris.
Cyrano. Panache. Pastis. Chablis. René Goscinny. Madame Bovary.
Mademoiselle Chanel.
Une femme est une femme.
Proust. Madalenas. Petits fours. Framboesas. Caracoletas. Cuscuz.
Bordeaux grand cru. Bordéus. Bretanha. Bourvil.
Il pleut sur Nantes : Barbara.
Brassens : Quand on est con, on est con.
Albert Camus. Albert Cohen. Belmondo [até aos 35].
Roquefort. Allez, français, encore un petit effort!
Camembert moulé à la louche. Coluche.
François Truffaut. Alain Resnais. Claude Monet. André Dussolier.
Sena. Pontes do Sena. Sous le pont Mirabeau coule la Seine/ Et nos amours.
Sous le pavé, la plage.
Charles Baudelaire. Charles Trenet. Léo Ferré.
Charles de Montesquieu. Gérard Depardieu.
Michel de Montaigne. Michel Piccoli. Pierre Arditi. Jacques Tati. Claude Chabrol. Sabine Azéma. Serge Gainsbourg. Ratatouille.
Aunac. Armagnac.
Bayers. Angoulême.
Astérix. Obélix. Assurancetourix: Non, tu ne chanteras [plus]! Non, tu ne chanteras [plus]!
09/05/12
Capitalistas de todo o mundo, uni-vos!
Imagem, roubada à Ana Vidal, que me fez lembrar estas declarações: Política é política; futebol é futebol.
08/05/12
É preciso saber reconhecer um grande texto quando tropeçamos nele
O nosso mais sagaz comentador observou que a morte de Miguel Portas instaurou um período de tréguas na sociedade portuguesa ou, pelo menos, na que tem algum reflexo nos meios de comunicação. Apesar de fazer um esforço para me afastar do ruído comum, acho que percebo a anotação. Durante alguns dias ouviram-se algumas vozes raras e calaram-se outras. Além do mais, entrava-se no período que vai de 25 de Abril ao 1.º de Maio e que o ritual democrático ainda em vigor respeita como uma páscoa da esquerda. Interventores menos habituais ou o registo emocional que a perda de Miguel Portas teve o condão de libertar nos habituais representantes da esquerda mediática revelaram um aspecto interessante: como disse Marisa Matias, não podemos viver sem esperança. Não podemos viver sem pão, sem grupos sociais, sem esperança e sem pessoas de referência que exprimem o que há de melhor em nós, o que em nós ainda acredita. Muitos dos que escreveram ou falaram mal tinham conhecido o Miguel Portas. Tinham-se cruzado ou estado juntos numa iniciativa, lido uma entrevista ou um livro, assistido a um debate, ouvido um comentário.
Há um período na vida das crianças em que estas parecem ter um amigo imaginário. Brincam com ele, reservam-lhe um espaço no carro da família, dão-lhe um nome, adormecem com ele. Geralmente, não querem partilhá-lo com a família ou com os pares, e calam-se quando alguém tenta imiscuir-se no seu mundo reservado. Aos três anos, Simone tinha dois amigos. Um era Anonas, talvez um rapazinho. O outro era Febo. Como Simone tinha também uma irmã mais velha, as deslocações de carro tornaram-se penosas. Anonas e Febo não cabiam no banco de trás, tinham de usar cadeirinha e cinto. Os pais e a irmã eram pacientes. Perceberam que se tinham transformado numa família numerosa. Conseguiram uma carrinha familiar em segunda mão, uma cadeirinha e um banco elevatório emprestados. Havia sempre um momento de pânico ao entrar na carrinha. Faltava alguém? O cinto de Anonas estava demasiado apertado? Simone era discreta. Mas quando, numa ocasião, admoestou o pai por este fechar a porta sem cuidado e quase magoar Febo, este começou a preocupar-se. Um dia, os amigos partiram. Primeiro Febo, mas Febo nunca fora verdadeiramente importante. Depois Anonas, e Simone adoeceu de tristeza. O carro de sete lugares já não fazia sentido. Uma tarde de domingo, quando rolavam numa estrada na direcção do mar, Simone alegrou-se. Do lado de fora, correndo ao lado do carro, vinha Anonas. Devia correr bem perto da janela, porque Simone colou o nariz ao vidro e durante algum tempo disse frases incompreensíveis onde se distinguia bem o nome do amigo. Depois Simone deixou de falar de Anonas. Depois deixou de falar. E um dia estava curada, tinha crescido e estava disponível para os meninos e meninas reais da escolinha.
Tenho uma amiga que não me proibiu de contar a sua história. É uma mulher alegre e extrovertida, e na infância deve ter sido hiperactiva sem défice de atenção. É primatóloga e veste-se com um estilo indefinível que remete para os locais exóticos da sua investigação. Tem um namorado imaginário há dez anos. Com nome, Bill, e residência ao Príncipe Real. Profissão, gostos cinematográficos, família, embora distante. Os amigos não o conhecem, porque Bill não gosta deles, só de ouvi-la falar. Passam férias e fins-de-semana em destinos maravilhosos de onde ela envia SMS de contentamento infantil. “Estou a sobrevoar o delta do Mekong com o Bill.” “ Estou a conduzir um Ferrari com o Bill.” “ Fui raptada no mercado de Pu Teh. Pelo Bill.” Às vezes, raramente, ele parece cometer um erro de escolha. Mas, mesmo nessas ocasiões, percebemos que é guiado pela imaginação dela: sexo desenfreado em hotéis de sete estrelas, sexo demais, estrela a mais.
Há uns tempos, o Bill zangou-se. Desapareceu, depois de uma cena de ciúmes com um rival imaginário, um primata por quem ela tinha apenas uma paixão científica e com quem dormira por cansaço e amizade. Acabaram-se os fins-de-semana românticos e as inumeráveis citações: o Bill acha isto, o Bill gosta daquilo, o Bill disse não-sei-o-quê. Já não havia Bill. Podia escrever calmamente os seus trabalhos, fazer conferências ao sábado, acompanhar os alunos em ausências intermináveis, ter reuniões com os comités e as task forces. O Bill já não se queixava. O Bill já não dizia nada.
Não se pode viver sem esperança. A tristeza pela perda do Bill foi tão verdadeira e desoladora, tão deprimente e difícil de suportar como a de outro companheiro mais real. O fim do socialismo real custou tanto aos que nele tinham depositado a esperança de uma vida como o fim da utopia do socialismo aos que deixaram de acreditar. Como diz António Barahona, aliás Muhammad Ashraf, novo guru dos nossos jovens poetas: este Ocidente sem deus nem fé não é feliz.
AQUI
Há um período na vida das crianças em que estas parecem ter um amigo imaginário. Brincam com ele, reservam-lhe um espaço no carro da família, dão-lhe um nome, adormecem com ele. Geralmente, não querem partilhá-lo com a família ou com os pares, e calam-se quando alguém tenta imiscuir-se no seu mundo reservado. Aos três anos, Simone tinha dois amigos. Um era Anonas, talvez um rapazinho. O outro era Febo. Como Simone tinha também uma irmã mais velha, as deslocações de carro tornaram-se penosas. Anonas e Febo não cabiam no banco de trás, tinham de usar cadeirinha e cinto. Os pais e a irmã eram pacientes. Perceberam que se tinham transformado numa família numerosa. Conseguiram uma carrinha familiar em segunda mão, uma cadeirinha e um banco elevatório emprestados. Havia sempre um momento de pânico ao entrar na carrinha. Faltava alguém? O cinto de Anonas estava demasiado apertado? Simone era discreta. Mas quando, numa ocasião, admoestou o pai por este fechar a porta sem cuidado e quase magoar Febo, este começou a preocupar-se. Um dia, os amigos partiram. Primeiro Febo, mas Febo nunca fora verdadeiramente importante. Depois Anonas, e Simone adoeceu de tristeza. O carro de sete lugares já não fazia sentido. Uma tarde de domingo, quando rolavam numa estrada na direcção do mar, Simone alegrou-se. Do lado de fora, correndo ao lado do carro, vinha Anonas. Devia correr bem perto da janela, porque Simone colou o nariz ao vidro e durante algum tempo disse frases incompreensíveis onde se distinguia bem o nome do amigo. Depois Simone deixou de falar de Anonas. Depois deixou de falar. E um dia estava curada, tinha crescido e estava disponível para os meninos e meninas reais da escolinha.
Tenho uma amiga que não me proibiu de contar a sua história. É uma mulher alegre e extrovertida, e na infância deve ter sido hiperactiva sem défice de atenção. É primatóloga e veste-se com um estilo indefinível que remete para os locais exóticos da sua investigação. Tem um namorado imaginário há dez anos. Com nome, Bill, e residência ao Príncipe Real. Profissão, gostos cinematográficos, família, embora distante. Os amigos não o conhecem, porque Bill não gosta deles, só de ouvi-la falar. Passam férias e fins-de-semana em destinos maravilhosos de onde ela envia SMS de contentamento infantil. “Estou a sobrevoar o delta do Mekong com o Bill.” “ Estou a conduzir um Ferrari com o Bill.” “ Fui raptada no mercado de Pu Teh. Pelo Bill.” Às vezes, raramente, ele parece cometer um erro de escolha. Mas, mesmo nessas ocasiões, percebemos que é guiado pela imaginação dela: sexo desenfreado em hotéis de sete estrelas, sexo demais, estrela a mais.
Há uns tempos, o Bill zangou-se. Desapareceu, depois de uma cena de ciúmes com um rival imaginário, um primata por quem ela tinha apenas uma paixão científica e com quem dormira por cansaço e amizade. Acabaram-se os fins-de-semana românticos e as inumeráveis citações: o Bill acha isto, o Bill gosta daquilo, o Bill disse não-sei-o-quê. Já não havia Bill. Podia escrever calmamente os seus trabalhos, fazer conferências ao sábado, acompanhar os alunos em ausências intermináveis, ter reuniões com os comités e as task forces. O Bill já não se queixava. O Bill já não dizia nada.
Não se pode viver sem esperança. A tristeza pela perda do Bill foi tão verdadeira e desoladora, tão deprimente e difícil de suportar como a de outro companheiro mais real. O fim do socialismo real custou tanto aos que nele tinham depositado a esperança de uma vida como o fim da utopia do socialismo aos que deixaram de acreditar. Como diz António Barahona, aliás Muhammad Ashraf, novo guru dos nossos jovens poetas: este Ocidente sem deus nem fé não é feliz.
AQUI
A book a day keeps the doctor away: "O Legado de Humboldt", Saul Bellow
Quando Humboldt Gift (romance onde as ideias se confundem com as personagens mas as personagens são de carne e osso) foi impresso, em 1975, Saul Bellow era já um peso-pesado das letras.
No ano seguinte, o livro ganha o Pulitzer e o seu autor nem mais nem menos do que o Nobel da Literatura, três décadas eram passadas sobre Na Corda Bamba, a sua estreita literária.
Apesar do reconhecimento – que Herzog, de 1964, apenas ajudara a consolidar – o talento de Bellow não gera unanimidade. Nabokov, por exemplo, não hesitou em classificá-lo medíocre, embora, neste caso, a apreciação trouxesse um bónus: o autor de Lolita pensava o mesmo de Dostoievsky, Faulkner ou T.S.Eliot. Outros houve que preferiram condená-lo pelo rumo conservador das suas convicções, não deixando sequer de fora a acusação de racismo (reforçada pela célebre boutade “Onde está o Tolstoi dos zulus? O Proust dos papuas?”) e, claro, de misoginia.
Detractores à parte, razão teria Philip Roth quando disse que a espinha-dorsal da literatura norte-americana do século XX assenta em William Faulkner e Saul Bellow. Martin Amis chamou-lhe “uma força da natureza” e o ensaísta Roger Shattuck afirmou: “Bellow é incapaz de escrever uma página desinteressante”. Lemos as 527 páginas de “O Legado de Humboldt” e confirmamos: não nos enfastiámos uma única vez.
Saul Bellow, com razão, chamou a O Legado de Humboldt um “livro cómico sobre a morte”. E num escritor que não teve problemas em afirmar, contracorrente, que a ficção é a forma mais elevada de autobiografia, é sem espanto que descobrirmos que Humboldt é uma versão ficcionada do poeta Delmore Schwartz, embora, na realidade, o romance seja sobretudo sobre Charles Citrine, personagem que se deixa colar, sem grande dificuldade, ao próprio Bellow.
Se acrescentarmos agora que O Legado de Humboldt é uma mistura arrebatadora de Marx Brothers, Kafka e "Eclesiastes", antroposofia, capitalismo e poesia, não estaremos a enganar demasiado o leitor. Domina-o um ambiente burlesco e caótico, e é neste que se projecta o desejo de imortalidade e a busca do sagrado. O início antecipa uma morte anunciada e o fim decorre num cemitério (a última cena é das coisas mais comoventes e simultaneamente mais hilariantes que Bellow escreveu).
Charles Citrine é um intelectual de meia-idade, judeu de Chicago de origem modesta, colector de prémios literários e autor de um tremendo êxito da Broadway que lhe rendeu bom dinheiro. De tipo melancólico e contemplativo, encontra-se em crise de inspiração, às voltas com um divórcio do qual se arrisca a sair arruinado (a reunião no tribunal com o juiz e os advogados é de antologia), e uma amante cara e exigente. A morte do seu antigo amigo e mentor Humboldt, poeta genial arrastado para a miséria pela loucura e pelo materialismo galopante de uma América cada vez mais hostil à poesia, fá-lo reflectir, conjugando-se aquela com o aparecimento de Rinaldo Cantabile, mafioso de segunda linha que insiste em safar Citrine da previsível penúria, recorrendo para isso a todo o tipo de expedientes, inclusive ao legado de Humboldt, à primeira vista sem valor.
À medida que a existência de Citrine se vai tornando mais errática, mais ele próprio se afunda em desconcertantes reflexões sobre a vida do Espírito pós mortem, tentando, sem grande êxito, entender e aplicar os ensinamentos esotéricos de Rudolf Steiner, numa tentativa de vencer o terror da morte e mergulhar numa “esfera superior”, na qual êxito e fracasso mundanos deixariam de ser preocupação.
A vida, contudo, no seu tumulto, encarregar-se-á de reconduzir Citrine à sua condição mais simples e primordial, a de “um rapaz da cidade” a quem restam as memórias de um mundo que já não existe, capaz, ainda assim, de fazer o Bem. Maravilhoso!
O Legado de Humboldt, Saul Bellow, 2012, Quetzal, trad. de Salvato Telles de Menezes
No ano seguinte, o livro ganha o Pulitzer e o seu autor nem mais nem menos do que o Nobel da Literatura, três décadas eram passadas sobre Na Corda Bamba, a sua estreita literária.
Apesar do reconhecimento – que Herzog, de 1964, apenas ajudara a consolidar – o talento de Bellow não gera unanimidade. Nabokov, por exemplo, não hesitou em classificá-lo medíocre, embora, neste caso, a apreciação trouxesse um bónus: o autor de Lolita pensava o mesmo de Dostoievsky, Faulkner ou T.S.Eliot. Outros houve que preferiram condená-lo pelo rumo conservador das suas convicções, não deixando sequer de fora a acusação de racismo (reforçada pela célebre boutade “Onde está o Tolstoi dos zulus? O Proust dos papuas?”) e, claro, de misoginia.
Detractores à parte, razão teria Philip Roth quando disse que a espinha-dorsal da literatura norte-americana do século XX assenta em William Faulkner e Saul Bellow. Martin Amis chamou-lhe “uma força da natureza” e o ensaísta Roger Shattuck afirmou: “Bellow é incapaz de escrever uma página desinteressante”. Lemos as 527 páginas de “O Legado de Humboldt” e confirmamos: não nos enfastiámos uma única vez.
Saul Bellow, com razão, chamou a O Legado de Humboldt um “livro cómico sobre a morte”. E num escritor que não teve problemas em afirmar, contracorrente, que a ficção é a forma mais elevada de autobiografia, é sem espanto que descobrirmos que Humboldt é uma versão ficcionada do poeta Delmore Schwartz, embora, na realidade, o romance seja sobretudo sobre Charles Citrine, personagem que se deixa colar, sem grande dificuldade, ao próprio Bellow.
Se acrescentarmos agora que O Legado de Humboldt é uma mistura arrebatadora de Marx Brothers, Kafka e "Eclesiastes", antroposofia, capitalismo e poesia, não estaremos a enganar demasiado o leitor. Domina-o um ambiente burlesco e caótico, e é neste que se projecta o desejo de imortalidade e a busca do sagrado. O início antecipa uma morte anunciada e o fim decorre num cemitério (a última cena é das coisas mais comoventes e simultaneamente mais hilariantes que Bellow escreveu).
Charles Citrine é um intelectual de meia-idade, judeu de Chicago de origem modesta, colector de prémios literários e autor de um tremendo êxito da Broadway que lhe rendeu bom dinheiro. De tipo melancólico e contemplativo, encontra-se em crise de inspiração, às voltas com um divórcio do qual se arrisca a sair arruinado (a reunião no tribunal com o juiz e os advogados é de antologia), e uma amante cara e exigente. A morte do seu antigo amigo e mentor Humboldt, poeta genial arrastado para a miséria pela loucura e pelo materialismo galopante de uma América cada vez mais hostil à poesia, fá-lo reflectir, conjugando-se aquela com o aparecimento de Rinaldo Cantabile, mafioso de segunda linha que insiste em safar Citrine da previsível penúria, recorrendo para isso a todo o tipo de expedientes, inclusive ao legado de Humboldt, à primeira vista sem valor.
À medida que a existência de Citrine se vai tornando mais errática, mais ele próprio se afunda em desconcertantes reflexões sobre a vida do Espírito pós mortem, tentando, sem grande êxito, entender e aplicar os ensinamentos esotéricos de Rudolf Steiner, numa tentativa de vencer o terror da morte e mergulhar numa “esfera superior”, na qual êxito e fracasso mundanos deixariam de ser preocupação.
A vida, contudo, no seu tumulto, encarregar-se-á de reconduzir Citrine à sua condição mais simples e primordial, a de “um rapaz da cidade” a quem restam as memórias de um mundo que já não existe, capaz, ainda assim, de fazer o Bem. Maravilhoso!
O Legado de Humboldt, Saul Bellow, 2012, Quetzal, trad. de Salvato Telles de Menezes
06/05/12
Imaginem o Cavaco Silva a dizer isto sem se rirem*
Nous ne sommes pas n’importe quel pays de la planète, n’importe quelle nation du monde. Nous sommes la France.
François Hollande
*e já agora imaginem a Merkel...
François Hollande
*e já agora imaginem a Merkel...
Das vitualhas e dos ajuntamentos ou a prova provada de que isto anda mesmo tudo ligado
“Quantas pessoas terá de envolver o ajuntamento para que possa merecer o qualificativo de manifestação? Eis um problema cuja resolução tem atormentado os espíritos e esvaziado as penas de alguns dos mais prestigiados constitucionalistas alemães: sete, dizem uns; três, afirmam outros; duas bastam, replicam ainda alguns. Perante a transcendência de tal imbróglio, a nossa opinião, certamente de pouco préstimo, vai no sentido de considerar que, sendo duas pessoas já uma pluralidade, esse número deverá ser suficiente”.
Campanha Alegre? Não, não é Eça de Queirós.
É um excerto do parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República. No caso, o tal parecer referido por Carla Duarte (a mesma que aconselhara os jornalistas a usar coletes identificadores nas manifestações porque, afinal, “qualquer manifestante que acabou de arremessar uma chávena ou uma cadeira contra a PSP pode dizer que é jornalista”) para justificar o seguinte: “Duas pessoas já fazem uma manifestação”.
A PGR é a PGR mas Carla foi mais longe: citou o Decreto-Lei nº 406/74.
Li-o com apropriada reverência, e se o refiro é porque logo no Ponto 2 do Artigo 2º (onde se declara que a vontade de alguém se manifestar deve ser comunicada às autoridades competentes, porventura também ao médico de família embora isso não fique claro) se diz que tal comunicação deve ser assinada “por três dos promotores”.
Para que são precisos três se dois bastam, é um imbróglio cuja transcendência trinitária me atormenta.
Espero vir a ser esclarecida por Carla Duarte, apesar de a porta-voz da PSP estar persuadida que “a PSP não tem que justificar a sua actuação”. Olhe que tem, Carla, olhe que tem. Pelo menos enquanto Alexandre Soares dos Santos não for Presidente desta coisa.
Campanha Alegre? Não, não é Eça de Queirós.
É um excerto do parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República. No caso, o tal parecer referido por Carla Duarte (a mesma que aconselhara os jornalistas a usar coletes identificadores nas manifestações porque, afinal, “qualquer manifestante que acabou de arremessar uma chávena ou uma cadeira contra a PSP pode dizer que é jornalista”) para justificar o seguinte: “Duas pessoas já fazem uma manifestação”.
A PGR é a PGR mas Carla foi mais longe: citou o Decreto-Lei nº 406/74.
Li-o com apropriada reverência, e se o refiro é porque logo no Ponto 2 do Artigo 2º (onde se declara que a vontade de alguém se manifestar deve ser comunicada às autoridades competentes, porventura também ao médico de família embora isso não fique claro) se diz que tal comunicação deve ser assinada “por três dos promotores”.
Para que são precisos três se dois bastam, é um imbróglio cuja transcendência trinitária me atormenta.
Espero vir a ser esclarecida por Carla Duarte, apesar de a porta-voz da PSP estar persuadida que “a PSP não tem que justificar a sua actuação”. Olhe que tem, Carla, olhe que tem. Pelo menos enquanto Alexandre Soares dos Santos não for Presidente desta coisa.
04/05/12
03/05/12
Alexandre Soares dos Santos à presidência da república ou finalmente é desta que vai chegar o Encoberto
A cadeia de supermercados que, paradoxalmente, fez parar o país no 1º de Maio, já veio esclarecer através do seu director-geral que a campanha de descontos foi movida pela "grande preocupação social" do grupo.
O mesmo senhor, o director-geral, garantiu que a lei da concorrência foi cumprida e que não perderam dinheiro (esta última afirmação leva-me a perguntar quanto ganharão as criaturas quando não fazem descontos...).
Prevejo, mas posso estar enganada, que Soares dos Santos ainda se vai candidatar a presidente desta coisa, e prevejo também que durante a campanha para a presidência desta coisa serão distribuídos brioches. Milhões. E gratuitamente. Imagem do filme Viridiana, 1961, de Luis Buñuel
O mesmo senhor, o director-geral, garantiu que a lei da concorrência foi cumprida e que não perderam dinheiro (esta última afirmação leva-me a perguntar quanto ganharão as criaturas quando não fazem descontos...).
Prevejo, mas posso estar enganada, que Soares dos Santos ainda se vai candidatar a presidente desta coisa, e prevejo também que durante a campanha para a presidência desta coisa serão distribuídos brioches. Milhões. E gratuitamente. Imagem do filme Viridiana, 1961, de Luis Buñuel
02/05/12
Do único homem que podia ter sido meu mestre, who else but Billy Wilder?
"(..) they say Wilder is out of touch with his times. Frankly, I regard it as a compliment. Who the hell wants to be in touch with these times?"
in Billy Wilder, Interviews, Robert Horton, Univ. Press of Mississipi
01/05/12
30/04/12
29/04/12
Não é 1 de Maio, o 25 de Abril já foi, mas o que eu quero agora é falar do 27 de Julho... de 1970
É dos livros que Salazar caiu de uma cadeira e depois disso nada foi como dantes. Como seria de esperar numa terra de escravos, cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto, a queda, embora aparatosa, foi amortecida. Tão amortecida que uma farsa se organizaria em torno do Presidente do Conselho, convencendo-se este por dois anos que continuava a mandar. Mas “Tudo É Vaidade” e a Ceifeira levá-lo-ia a 27 de Julho de 1970, dia em que muitos portugueses optaram por aprimorar-se com uma gravata vermelha, ainda as gravatas não tinham sido proibidas por Assunção Cristas.
O caso é que antes da morte do ditador se tornar oficial, na editora onde a minha mãe trabalhava se soube por portas e travessas clandestinas que Salazar já não estava entre nós. Primeiro foi a descrença, natural ao fim de 36 anos, depois foi a festa. Resumindo: a contribuição dos presentes para o Produto Interno Bruto baixou nesse dia para níveis negativos.
A minha mãe resolveu, então, avisar o marido da boa nova, certa que essa seria a retaliação possível pelos anos que este passara a olhar o mar revoltado e teatral no Forte de Peniche. Telefonou e disse: “Prepara champanhe, temos de comemorar”. Uma colega acrescentaria entre risos: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras”.
A graça acabou mal e acabaram as duas na António Maria Cardoso, no edifício da PIDE onde, em memória das vítimas, foi entretanto erguido um condomínio de luxo. A polícia chegara depressa, e elas, identificadas já pela voz, receberam ordem de prisão. Quanto a meu pai, passaria a noite à espera da mulher na rua de má memória, sem champanhe, e não sei se de gravata vermelha.
E é também por isto que gosto muito do 25 de Abril.
Imagem
O caso é que antes da morte do ditador se tornar oficial, na editora onde a minha mãe trabalhava se soube por portas e travessas clandestinas que Salazar já não estava entre nós. Primeiro foi a descrença, natural ao fim de 36 anos, depois foi a festa. Resumindo: a contribuição dos presentes para o Produto Interno Bruto baixou nesse dia para níveis negativos.
A minha mãe resolveu, então, avisar o marido da boa nova, certa que essa seria a retaliação possível pelos anos que este passara a olhar o mar revoltado e teatral no Forte de Peniche. Telefonou e disse: “Prepara champanhe, temos de comemorar”. Uma colega acrescentaria entre risos: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras”.
A graça acabou mal e acabaram as duas na António Maria Cardoso, no edifício da PIDE onde, em memória das vítimas, foi entretanto erguido um condomínio de luxo. A polícia chegara depressa, e elas, identificadas já pela voz, receberam ordem de prisão. Quanto a meu pai, passaria a noite à espera da mulher na rua de má memória, sem champanhe, e não sei se de gravata vermelha.
E é também por isto que gosto muito do 25 de Abril.
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27/04/12
De como uma aldrabice do eduardo pitta me levou a este maravilhoso poema ou deus escreverá direito por linhas tortas [obrigada, nuno, sejas tu quem fores]
ESTE POST TEM QUE VER COM ESTE (cf. caixa de comentários)
"Escrevo ainda sobre o livro de contos Nos Sonhos Começam as Responsabilidades, de Delmore Schwartz (1913-1966), a obra que o consagrou. Admirado por Nabokov e T. S. Eliot, Schwartz é um dos poetas mais importantes dos anos 1930-40 americanos. Convidado habitual da Casa Branca, morreu aos 52 anos na miséria extrema. (...)."
[do senhor citado mais abaixo]
"In addition to being known as a gifted writer, Schwartz was considered a great conversationalist and spent much time entertaining friends at the White Horse Tavern in New York City."
[daqui]
E AGORA VAMOS AO QUE INTERESSA
DAQUI
"Escrevo ainda sobre o livro de contos Nos Sonhos Começam as Responsabilidades, de Delmore Schwartz (1913-1966), a obra que o consagrou. Admirado por Nabokov e T. S. Eliot, Schwartz é um dos poetas mais importantes dos anos 1930-40 americanos. Convidado habitual da Casa Branca, morreu aos 52 anos na miséria extrema. (...)."
[do senhor citado mais abaixo]
"In addition to being known as a gifted writer, Schwartz was considered a great conversationalist and spent much time entertaining friends at the White Horse Tavern in New York City."
[daqui]
E AGORA VAMOS AO QUE INTERESSA
Nothing is given which is not taken. Little or nothing is taken which is not freely desired, freely, truly and fully. "You would not seek me if you had not found me": this is true of all that is supremely desired and admired... "An enigma is an animal," said the hurried, harried schoolboy: And a horse divided against itself cannot stand; And a moron is a man who believes in having too many wives: what harm is there in that? O the endless fecundity of poetry is equaled By its endless inexhaustible freshness, as in the discovery of America and of poetry. Hence it is clear that the truth is not strait and narrow but infinite: All roads lead to Rome and to poetry and to poem, sweet poem and from, away and towards are the same typography. Hence the poet must be, in a way, stupid and naive and a little child; Unless ye be as a little child ye cannot enter the kingdom of poetry. Hence the poet must be able to become a tiger like Blake; a carousel like Rilke. Hence he must be all things to be free, for all impersonations a doormat and a monument to all situations possible or actual The cuckold, the cuckoo, the conqueror, and the coxcomb. It is to him in the zoo that the zoo cries out and the hyena: "Hello, take off your hat, king of the beasts, and be seated, Mr. Bones." And hence the poet must seek to be essentially anonymous. He must die a little death each morning. He must swallow his toad and study his vomit as Baudelaire studied la charogne of Jeanne Duval. The poet must be or become both Keats and Renoir and Keats as Renoir. Mozart as Figaro and Edgar Allan Poe as Ophelia, stoned out of her mind drowning in the river called forever river and ever... Keats as Mimi, Camille, and an aging gourmet. He must also refuse the favors of the unattainable lady (As Baudelaire refused Madame Sabatier when the fair blonde summoned him, For Jeanne Duval was enough and more than enough, although she cuckolded him With errand boys, servants, waiters; reality was Jeanne Duval. Had he permitted Madame Sabatier to teach the poet a greater whiteness, His devotion and conception of the divinity of Beauty would have suffered an absolute diminution.) The poet must be both Casanova and St. Anthony, He must be Adonis, Nero, Hippolytus, Heathcliff, and Phaedre, Genghis Kahn, Genghis Cohen, and Gordon Martini Dandy Ghandi and St. Francis, Professor Tenure, and Dizzy the dean and Disraeli of Death. He would have worn the horns of existence upon his head, He would have perceived them regarding the looking-glass, He would have needed them the way a moose needs a hatrack; Above his heavy head and in his loaded eyes, black and scorched, He would have seen the meaning of the hat-rack, above the glass Looking in the dark foyer. For the poet must become nothing but poetry, He must be nothing but a poem when he is writing Until he is absent-minded as the dead are Forgetful as the nymphs of Lethe and a lobotomy... ("the fat weed that rots on Lethe wharf").
DAQUI
26/04/12
É Portugal, ninguém leva a mal, mas depois não venham com a treta que eu embirro com o Eduardo Pitta e etc.
Um crítico literário é uma pessoa como as outras. Se
acreditarmos em Empédocles – e não vejo razões para não acreditarmos –, nele se
misturam os quatro elementos constitutivos do mundo – a saber: água, ar, fogo e
terra – tal como acontece a tudo quanto existe no Universo.
Por não ser um ser à parte, encontrando-se, como a
totalidade das coisas existentes, sujeito à Lei do Amor e do Ódio, da União e
da Separação, o crítico literário não tem como fugir à Teoria dos Humores hipocrática. Teremos,
assim, o crítico de temperamento sanguíneo, de temperamento melancólico,
colérico (bilioso) e, finalmente, fleumático.
Num plano ideal, o crítico literário saberá
encontrar o equilíbrio entre estes 4 humores primordiais. Num plano mais ideal
ainda, será capaz de se lançar na cratera do Etna em defesa de um livro.
“O espírito, na verdade, está ansioso, mas a carne é
fraca.” (Mat. 26:41). Assim,
raros são os críticos que alguma vez se lançaram no Etna. Ao invés,
arrebatados pela ignara rebeldia própria das criaturas humanas, muitos são os
que confessam ter cedido à tentação dos versos do poeta: “Ai que
prazer / Não cumprir um dever, / Ter um livro para ler / E não o fazer!”
Pelo seu valor literário, as fraquezas humanas enternecem-me. E
isto vale também para os críticos. Existem, contudo, limites. Um desses
limites, que tenho para mim como axioma, é que um crítico deve, no mínimo, ser
capaz de falar de um livro que não leu.
Sei que a vida está difícil. Não vou armar-me em franciscana
e dizer que dinheiro não tem importância. Nem vou armar-me em wittgensteiniana
e dizer que um ensaio vale um “tuíte”. Concordo que queimar pestanas a ler um volume
denso de mais de 500 páginas devia ser mais valorizado. O facto, porém, é que o
Saul Bellow não tem culpa de a crítica literária ter descido em Portugal ao
nível dos call center.
E nem era preciso ter lido o livro (O Legado de
Humboldt, Saul Bellow, Quetzal) – bastaria talvez ler a contracapa – para saber
que Humboldt nunca esteve “atolado em álcool e dívidas”, nem sofreu nenhum “penoso
processo de divórcio” ou teve “uma amante cara”. Também me parece arriscado
afirmar que “a história de Humboldt tem todos os ingredientes de um thriller
com trânsito por Chicago, Madrid e Paris”, tanto mais que, em 527 páginas, só se
sai, provisoriamente, do “Novo Mundo” na página 440, a 87 páginas do final. Finalmente, bastaria
googlar com mais cuidado, para saber que, n' O Legado de Humboldt, o poeta Delmore Schwartz
não se chama Charlie Citrine, mas precisamente Von Humboldt Fleisher.
O mistério maior para mim, porém, consiste no seguinte: como é que alguém, tendo entre mãos este portento, lhe resiste e o acha ainda assim notável?
Hoje na Sábado escrevo sobre O Legado de
Humboldt, de Saul Bellow
(1915-2005), livro que em 1976 lhe valeu o Pulitzer (ficção) e o Nobel da
Literatura. O romance ficciona a vida do poeta Delmore Schwartz (1913-1966), de
quem a editora Guerra & Paz acaba de publicar a famosa colectânea de contos Nos Sonhos
Começam as Responsabilidades.
Mas pode alhear-se do item Schwartz — que no livro se chama Charlie
Citrine —, porque O Legado de
Humboldt é na realidade um thriller muito bem esgalhado com todos os ingredientes do género (...).
"O leitor pode alhear-se dos envios, que vão de Shakespeare a Edith Sitwell, sem esquecer Diderot, Joyce e outros. Atolado em álcool e dívidas (um penoso processo de divórcio, uma amante cara), a história de Humboldt tem todos os ingredientes de um thriller com trânsito por Chicago, Madrid e Paris. Longe de ser um livro de mexericos, a verrina faz dele um notável romance de ideias."
25/04/12
Miguel Portas (1958 - 2012)
Conheci o Miguel Portas, teria 12, 13 anos, ele 14 ou 15. Era a primeira reunião
clandestina em que eu participava, apesar de a mesma decorrer a céu aberto, nas
traseiras da estação de comboios de São João do Estoril, num pequeno jardim hoje
cimentado e do qual sobrará talvez uma árvore ou duas. Tratava-se de uma
reunião do MAEESL (Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário).
Tinha vindo gente de outras escolas (os putos dirigentes), e Miguel Portas era
um deles.
O debate foi acirrado, e o assunto, quase de Estado: abaixo-assinado ou greve. O Miguel, já então na UEC, defendia, naturalmente, a posição menos radical. Eu, que nasci com mau feitio, fiquei convencida com a greve. Devo ter dito, entretanto, qualquer coisa que lhe despertou a expectativa de um recrutamento em potência, razão que encontro para, no final da reunião, me ter perguntado se podia falar comigo à parte. Lembro-me de lhe ter respondido, do alto das minhas firmes e precoces convicções: “Podes, mas não julgues que me convences”.
Não me convenceu. Nunca estive próxima dos UECs; na realidade, não os gramava nem com molho de tomate. Dele gostava. Sempre achei que possuía algo que, mesmo situando-me eu à extrema-esquerda, nunca pensei que fosse dispensável: era civilizado e democrata. Não imagino como seria visto de mais perto, mas costumo ter olho e quase nunca me enganar nas primeiras impressões. No meio da muita histeria que tomávamos então por princípios inalienáveis, o Miguel discursava e não agredia, discordava e não insultava. Mais tarde, já crescidinhos, cruzei-me com ele algumas vezes. Sempre o achei igual. Bonito, cordato, bon vivant, voz arranhada e sorriso nervoso. Sei que morreu. A morte é uma grandessíssima filha da puta.
O debate foi acirrado, e o assunto, quase de Estado: abaixo-assinado ou greve. O Miguel, já então na UEC, defendia, naturalmente, a posição menos radical. Eu, que nasci com mau feitio, fiquei convencida com a greve. Devo ter dito, entretanto, qualquer coisa que lhe despertou a expectativa de um recrutamento em potência, razão que encontro para, no final da reunião, me ter perguntado se podia falar comigo à parte. Lembro-me de lhe ter respondido, do alto das minhas firmes e precoces convicções: “Podes, mas não julgues que me convences”.
Não me convenceu. Nunca estive próxima dos UECs; na realidade, não os gramava nem com molho de tomate. Dele gostava. Sempre achei que possuía algo que, mesmo situando-me eu à extrema-esquerda, nunca pensei que fosse dispensável: era civilizado e democrata. Não imagino como seria visto de mais perto, mas costumo ter olho e quase nunca me enganar nas primeiras impressões. No meio da muita histeria que tomávamos então por princípios inalienáveis, o Miguel discursava e não agredia, discordava e não insultava. Mais tarde, já crescidinhos, cruzei-me com ele algumas vezes. Sempre o achei igual. Bonito, cordato, bon vivant, voz arranhada e sorriso nervoso. Sei que morreu. A morte é uma grandessíssima filha da puta.
24/04/12
Minhas senhoras e meus senhores, isto não é a União Nacional nem (ainda) o 5 de Outubro. Resumindo: estou com o Mário Soares e ninguém tem nada com isso
José Manuel Fernandes diz-se incomodado. Indignado. Talvez mesmo ultrajado. José Manuel Fernandes incomodado, indignado e talvez mesmo ultrajado dá-me vontade de rir. A pomposidade de JMF soa ridícula. O "sentido de Estado" não lhe assenta (com dois esses): "Sucede que as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, lugar onde todos os partidos têm acento e têm voz..."
E transcrevo o "acento" porque erros de português são inadmissíveis quando se sai a espadeirar tão bravamente em defesa da Pátria.
Ricardo Costa diz que Mário Soares se vai arrepender. A convicção de Ricardo Costa soa a anátema (e, acrescente-se, soa também um pouco ridícula dada a idade de Costa — há frases que só podem ser pronunciadas a partir dos 50 anos...), tanto mais cruel quanto Mário Soares, a não ser que siga o exemplo de Manoel de Oliveira, já não terá assim tanto tempo para ritos penitenciais.
Pedro Passos Coelho diz, com a profundidade costumeira, estar "habituado a que figuras políticas queiram assumir protagonismo em datas especiais". Não sei se ele se refere à teimosa ausência de Teófilo Braga nas comemorações do 5 de Outubro ou à presença do seu próprio pai na data do aniversário do filho, mas confesso que as declarações de Pedro Passos Coelho já há muito deixaram de me interessar.
O facto é que Mário Soares tem todo o direito (o dever?) a não ir abrilhantar uma palhaçada.
Post-scriptum: os tempos da "União Nacional" já lá vão e, apesar dos cravos de antanho e da treta actual do "somos todos irmãos", o 25 de Abril não foi um passeio jovial ao Largo do Carmo.
E transcrevo o "acento" porque erros de português são inadmissíveis quando se sai a espadeirar tão bravamente em defesa da Pátria.
Ricardo Costa diz que Mário Soares se vai arrepender. A convicção de Ricardo Costa soa a anátema (e, acrescente-se, soa também um pouco ridícula dada a idade de Costa — há frases que só podem ser pronunciadas a partir dos 50 anos...), tanto mais cruel quanto Mário Soares, a não ser que siga o exemplo de Manoel de Oliveira, já não terá assim tanto tempo para ritos penitenciais.
Pedro Passos Coelho diz, com a profundidade costumeira, estar "habituado a que figuras políticas queiram assumir protagonismo em datas especiais". Não sei se ele se refere à teimosa ausência de Teófilo Braga nas comemorações do 5 de Outubro ou à presença do seu próprio pai na data do aniversário do filho, mas confesso que as declarações de Pedro Passos Coelho já há muito deixaram de me interessar.
O facto é que Mário Soares tem todo o direito (o dever?) a não ir abrilhantar uma palhaçada.
Post-scriptum: os tempos da "União Nacional" já lá vão e, apesar dos cravos de antanho e da treta actual do "somos todos irmãos", o 25 de Abril não foi um passeio jovial ao Largo do Carmo.
23/04/12
Na mouche ou do espírito de síntese do Luís M. Jorge
Há cerca de dois anos os socialistas escolheram o deputado Ricardo Rodrigues (do gangue) para liderar um combate sem tréguas à corrupção. A estratégia deve ter dado frutos, porque este mês o PS já homenageou Paulo Campos nas jornadas parlamentares e propôs Conde Rodrigues para juiz do Tribunal Constitucional. Em marketing chama-se a isto um posicionamento: o PS procura diferenciar-se como o partido dos bandidos na opinião pública portuguesa.
DAQUI
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22/04/12
A pão e água e era pouco
Não há fome que não dê em fartura. Vem o ditado popular a propósito de uns dias me faltar assunto, em outros ser uma avalanche (espero poder continuar a escrever avalanche e não, obrigatoriamente, avalancha). Quando o assunto é isso, pois, fica uma pessoa em apuros para focalizar, verbo que tem vindo paulatinamente a substituir o démodé dissílabo focar e que me faz sempre lembrar alguém a espancar outrem na cabeça com binóculos, resultado talvez de ter consumido BD em excesso durante a juventude.
A semana passada, por exemplo, gostaria de ter falado da medida anti-tabágica anunciada por Paulo Macedo para proteger as crianças do fumo dos progenitores dentro de veículos fechados (nada foi dito, que eu saiba, sobre descapotáveis), medida que, naturalmente, faz o pleno com outra – a de querer encerrar a Maternidade Alfredo da Costa – esta última por razões obscuras (tão obscuras que nem a sagacidade de Marcelo Rebelo de Sousa as conseguiu desvelar).
Ia eu comentar as louváveis prioridades do ministro da Saúde quando tropeço noutro tema (neste caso musical): o hino do Movimento Zero Desperdício, com música de João Gil e letra de Tim, interpretado por cerca de 50 artistas de um largo espectro político (como sói dizer-se).
Começa assim:“Eu não sei o teu nome mas sei que te posso ajudar/Sei que andas a passar fome mesmo andando a trabalhar/ O que eu não aproveito ao almoço e ao jantar/ A ti deve dar jeito/ Temos de nos encontrar”.
Não vou falar da miséria das rimas nem dos pobrezinhos do antes do 25 de Abril (cada família tinha o seu…). Vou limitar-me, educadamente, a citar Mário Cesariny: afinal o que importa não é haver gente com fome// porque assim como assim ainda há muita gente que come.
A semana passada, por exemplo, gostaria de ter falado da medida anti-tabágica anunciada por Paulo Macedo para proteger as crianças do fumo dos progenitores dentro de veículos fechados (nada foi dito, que eu saiba, sobre descapotáveis), medida que, naturalmente, faz o pleno com outra – a de querer encerrar a Maternidade Alfredo da Costa – esta última por razões obscuras (tão obscuras que nem a sagacidade de Marcelo Rebelo de Sousa as conseguiu desvelar).
Ia eu comentar as louváveis prioridades do ministro da Saúde quando tropeço noutro tema (neste caso musical): o hino do Movimento Zero Desperdício, com música de João Gil e letra de Tim, interpretado por cerca de 50 artistas de um largo espectro político (como sói dizer-se).
Começa assim:“Eu não sei o teu nome mas sei que te posso ajudar/Sei que andas a passar fome mesmo andando a trabalhar/ O que eu não aproveito ao almoço e ao jantar/ A ti deve dar jeito/ Temos de nos encontrar”.
Não vou falar da miséria das rimas nem dos pobrezinhos do antes do 25 de Abril (cada família tinha o seu…). Vou limitar-me, educadamente, a citar Mário Cesariny: afinal o que importa não é haver gente com fome// porque assim como assim ainda há muita gente que come.
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