26/01/14

Eu sempre achei graça a astrónomos

Carta aberta ao Senhor Ministro, da astrónoma Paula Brochado

Sr. Ministro,
Podia começar por citar Einstein com a tão badalada frase sobre a estupidez humana mas partindo do, provavelmente errado, principio que já a conhece, prefiro citar o Ricardo Araújo Pereira: “a liberdade de expressão é uma coisa linda: permite-nos distinguir os idiotas”. Salvaguardo já alguma pequena incorrecção mas ouvi isto na rádio (sabe o que é? aquele aparelho que tem no carro que lhe dá as notícias e o trânsito? já ouviu falar de Maxwell? Foi a investigação dele na teoria do campo eletromagnético que deu origem à invenção do rádio, sabia?). Pois sr. ministro, acontece que depois de ler as suas declarações em que se diz “contra bolsas científicas longe da vida real” não podia deixar de sentir a maior repulsa por tamanha idiotice.
Antes que o sr. ministro se interrogue se não serei mais uma desesperada bolseira sem bolsa deixe-me esclarece-lo: já fui, sim. Sou doutorada em astronomia numa universidade pública (a melhor do país diz-se), essa ciência que, ironia das ironias, não podia estar, segundo os seus critérios, mais longe da vida real - mas, note bem, sou agora analista de negócio na Sonae - quer mais real que isto? Tenho por isso muito mais legitimidade em falar sobre este assunto do que o sr. ministro alguma vez terá, tendo o sr. ministro feito faculdade e carreira em privadas, sem sentir o seu, ainda que exíguo, talento avaliado, enxovalhado, esmiuçado e, por fim, recusado. Pois eu, e milhares de outros em Portugal, já. E, sabe, os astrónomos já têm algum poder de encaixe e alguma tolerância jocosa tantas foram as vezes que, por um lado, os ignorantes nos perguntaram se lhes líamos as cartas astrais e, por outro, os ignóbeis nos acusaram de não fazer nada pela sociedade.
Mas é por ter sido bolseira - não se amofine, não fui bolseira FCT, fui recusada vezes a mais do que as que me dei ao trabalho de contar - que lhe posso dizer que, não fossem as suas declarações mostrarem um profundo desrespeito e desconsideração por milhares de investigadores deste país, chegaria a ser ternurenta a sua ignorância - faz lembrar a minha avó, analfabeta repare bem, que há uns anos atrás me perguntou muito indignada o que é que eu aprendia na escola se não sabia a diferença entre alcatra e chambão.
Quando falo em milhares de investigadores não é de animo leve, o número traduz não só os que agora ficaram sem bolsa, sem projectos e sem expectativas: inclui também todos os que até agora contribuíram para que Portugal deixasse a cauda da Europa e todos cujo trabalho ficou agora hipotecado porque, sem querer ser dramática, pura e simplesmente deixou de haver futuro. Da minha parte, escolhi experimentar aquela que o sr. ministro designa de “vida real” e estou cá fora - segundo o sr. ministro, estou fora do sistema das bolsas, estou agora num sistema perfeitamente bem regulado e previsível que é o mundo empresarial, correcto? Confesse sr. ministro, deu-lhe uma certa vontade de rir. O seu argumento é tão falacioso que um incauto até acredita que existe tal coisa como “ciência longe da vida real” - isso é o mesmo que dizer “astronomia longe das estrelas” ou até “futebol longe do Pinto da Costa”: a ciência nunca estará longe da vida real da mesma forma que um prédio não está longe dos tijolos.
Se se quer referir à investigação científica que gera receitas então aí sr. ministro, assusta-me mais a sua sanidade mental, ou falta dela, do que as suas idiotices. Se tiver ligação à internet sr. ministro (já ouviu falar do CERN? esse laboratório de física de partículas, longe portanto da “vida real”? Sabe então do papel do CERN no conceito da world wide web) pode procurar pelo ROI (return of investment, é a sua praia de certeza que sabe o que é) do programa Apollo (pois, imagino que o feito da humanidade que foi a ida do Homem à Lua não lhe interesse minimamente) e, com certeza para seu espanto, pode verificar que por cada dólar investido no programa, e foram 25 mil milhões de dólares, houve um retorno de 14 dólares. 14. Sabe multiplicar?
Que a vida de investigador, o bolseiro em particular, nunca foi fácil em Portugal isso é um dado adquirido - quer-se rir um bocadinho sr. ministro? Sabia que existe código de atividade profissional para astrólogo (CAE 1316) mas não existe um para investigador? LOL sr. ministro, LOL - mas já se perguntou porque é que apesar de não termos subsidio de férias nem de natal (imagine a nossa confusão em sentir a revolta dos portugueses quando o seu colega sr. primeiro-ministro cortou nos subsídios), de não sermos cobertos pela segurança social, de não fazermos descontos, de termos valores de bolsas que não são revistos há mais de uma década, e outros tantos desajustes com que, com certeza, está familiarizado, continuamos na ciência? já alguma vez pensou nisso? porque, acima de tudo, somos uns sonhadores. Temos que ser sonhadores, temos que ser loucos, acreditar no que não existe, no que não vemos, no que não podemos tocar nem ouvir, temos que ir atrás para perceber porquê, perceber como, temos que questionar, dizer que não, temos que amarrar uma chave a um papagaio e largá-lo no meio de uma trovoada, que deixar as nossas culturas ganhar bolor e ousar pensar que a terra não é plana.
Se o sr. ministro acha que o sonho não tem lugar na “vida real” então tenho pena de si - tal como as crianças acreditam que os ovos vêm do supermercado também o sr. ministro deve acreditar que o seu rato sem fios veio da fnac. Se assim é sr. ministro, está no seu direito, mas então não se envergonhe e, mais importante, não nos insulte.
Sem mais.

3 comentários:

F.A. disse...

Este palpitante assunto passou imediatamente para a segunda classe da discussão em Portugal.
Fulanizou-se.
É natural, quem é que não conhece um fulano que recebe o RSI indevidamente ou tem uma baixa fraudulenta?

Licenciei-me em História, tenho mestrado noutro ramo das Humanidades e ganho a vida a escrever. Sou portanto um inútil aos olhos do ministro da economia
Não, não sou eu, é Henrique Raposo que usa uma velha técnica, pega nas palavras de alguém dá-lhe o seu sentido e depois disse que foi o alguém que as disse.
É a regra básica do jornalismo.

Eu acredito nos projectos científicos feitos por portugueses. Não conheço todos, nem perto. Conheço muitos de grande valia, conheço muitos que não valem o papel que gastam. E enquanto não meterem na cabeça que se pedem dinheiro devem estar preparados para responder com dinheiro a coisa não vai melhorar de certeza. Até pode ser "espero ver o fim do universo, pelo meio vou formar 3 gajos em data mining, vou teorizar sobre branching processes, vou ter 1 subproduto e os riscos de não chegar lá são estes". Agora, conhecimento também é "vou estudar poetas medievais do vale do Eufrates" sem mais justificações. Não esperem é do contribuinte igual tratamento.

Também não sou eu. É um respondente ao artigo da senhora astrónoma que agora trabalha para o Engº Belmiro.

Agora é que sou eu mesmo e digo, grande parte do dinheiro dado em bolsas (dizem 44%) é para estudos sociais (Poesia da guerra colonial: uma ontologia do “eu” estilhaçado cf. Blasfémias) e tem tanto retorno para o país (não estamos a falar dos bolseiros) como o dado para o cinema nacional.
Há bolseiros com projectos que duram há seis anos.

E para terminar que vai longo, a falácia de que um dólar gasto pela NASA teve um retorno de 14 podia aplicar-se às duas guerras no Iraque ou julgam que cada tiro dado não ajudou a criar um posto de trabalho, até no próprio Iraque nos coveiros?
O que interessaria saber é se esses 14 dólares não podiam ter sido gerados por outro tipo de dólar gasto.
Até mês estou a lembrar de um fulano que dizia blá blá qualquer coisa sobre o leite para os bebés.

Peço desculpa de ser tão longo.
Entusiasmei-me

alexandra g. disse...

Ali para os marcadores de leitura bem que podia viajar, em classe VIP, o Prazer.

(só faltou recomendar-lhe umas visitas de estudo à rede de centros Ciência Viva, que ele tutela por lhe ter saído na farinha Amparo :)

Antonio Cristovao disse...

a demagogia é repugnante seja em quem for. Quando veiculado por um cientista parece-me especialmente chocante. Algumas classes (controladores aereos, professores,investigadores, estivadores, tropas) têm o habito, quanto a mim vergonhoso de virem confundir a função com os seus (mais que legitimos) interesses como individuos. e até nem precisam de baralhar as coisas porque a maioria dos portugueses reverenciam sem escrutinio o "valor" extraordináio de andar a formar doutores para virem a enriquecer as grandes empresa americanas ou da europa do norte. mas é assim a alma humana=até o mais profundo pensador se deixa confundir pelo brilho do umbigo.