19/06/10

Foi o único português a ganhar o Nobel da Literatura: nem por isso sou obrigada a gostar

Não se tem de gostar do homem para se gostar dos livros. Ou vice-versa. Talvez até a maioria dos bons escritores não seja flor que se cheire. É possível.
No caso de Saramago, não apreciava a literatura nem o autor. E não vale a pena repisar o seu passado no "Diário de Notícias" ou o mistério das dedicatórias desaparecidas. Por exemplo.
Quanto aos livros, a primeira coisa que li dele foi "Memorial do Convento". Acabei-o irritada com a mensagem: fazer equivaler os obreiros de Mafra aos operários da modernidade era demasiado anacronismo, mesmo para uma alegoria.
No resto dos textos, a coisa repetia-se. Romances que defendiam ideias escritos segundo uma fórmula estilística usada à exaustão.
Resumindo: para mim, literatura é outra coisa. Ofício de palavras e não de ideologias. Com ou sem vírgulas, com ou sem parágrafos, com ou sem maísculas. Até porque muitas vezes o estilo, como bem disse o Mário Quintana, "é uma dificuldade de expressão".
desenho de António

27 comentários:

Zé_Lucas disse...

Idem,idem,aspas,aspas.
Não me despertava um sentimento, uma ideia. Paz à sua Alma.

Joana Lopes disse...

Outras aspas

Anónimo disse...

Mais aspas...

Luís disse...

Mais aspas.

João Lisboa disse...

Aspas assim:

http://lishbuna.blogspot.com/2010/06/nao-ha-como-morte-de-uma-vaca-sagrada.html

e assim:

http://lishbuna.blogspot.com/2010/06/acerca-da-coerencia-recentemente-entre.html

MCS disse...

"Resumindo: para mim, literatura é outra coisa. Ofício de palavras e não de ideologias".
Ideologias também não, mas ideias convém, não? caso contrário fica um "ofício de palavras", ou seja, renda de bilros, floreados, rodriguinhos.
Eu sei que não é essa a mensagem (costumo ler este blogue), mas simplificar, às vezes, complica.

PS. O Saramago nunca foi um dos meu autores de eleição, mas o "Memorial do Convento" é um grande livro.

Ana Cristina Leonardo disse...

MCS, ter ideias não é o mesmo que defender ideias; e ideias nem sequer é sinónimo de ideologia.
A literatura não é feita de ideias, a literatura é um corpo a corpo com as palavras - que são a sua matéria-prima. Com elas, claro, pode fazer-se de tudo: crochet, rodriguinhos ou grandes livros.
Quanto ao Memorial do Convento, só não é um grande livro precisamente por insitir, lá pelo meio, em vender-nos ideologia (ainda por cima encapotando-a de literatura, o que é tremendamente desonesto). E como dizia o outro, nem havia necessidade

nd disse...

Curiosos desafectos. Bloom exagerou, mas enganou-se tanto como aqui se opina?

Mário de Sá disse...

Aspas, aspas.

rose disse...

Excelente post!

Ana Cristina Leonardo disse...

LOURDES FÉRIA disse

Concordo absolutamente contigo. Conheci bem o Saramago, trabalhámos juntos no "Diário de Lisboa", antes do 25 de Abril, e só posso dizer que era uma pessoa execrável. Este lamentável espectáculo dos massacrantes directos televisivos e dos intelectuais, jornalistas e políticos a debitarem discursos laudatórios só evidencia a persistência de uma mentalidade hipócrita e idiota. Uma tal Sandra Felgueiras, excitadíssima na sua ignorância, referiu-se ao "pensamento libertário" do escritor, o que dá vontade de rir. Quando à literatura do nossa nosso Nobel dispenso-a. Não aprecio. Também não se pode dar crédito à Academia Sueca que já premiou variadíssimas nulidades literárias e escritores estalinistas, condições que por vezes até coincidem.

Ana Cristina Leonardo disse...

Lourdes, sem querer apaguei o teu comentário. Copiei-o do e-mail e publiquei-o. As minhas desculpas (isto foi falta de café...) e um grande abraço

nd disse...

As coisas têm a importância que têm e raramente a que parecem ter. No entanto, não se passa o mesmo com quem nos acompanha em comentários e apoia as (nossas) posições pessoais, digo apaixonadas, que contradizem o que afinal afirmamos, escrevendo.

Sou, como sabe, seu leitor habitual.

Ana Cristina Leonardo disse...

nd, não sei se percebi bem, mas às vezes, de facto, as nossas posições geram equívocos

domingo disse...

Julgo que o Saramago era apenas um escritor razoável, ao lado de tantos outros. Mas tinha um excelente sentido de marketing. Claro que se, na altura, a atribuição do Nobel dependesse do meu voto, tinha-lho dado como o teria dado, por uma questão de patriotismo, a qualquer outro candidato português que escrevesse com um mínimo de erros. Questão interessante é saber até que ponto é possível separar o homem da obra.

Anónimo disse...

Discordo plenamente. Tive o previlégio de privar com ele e era das pessoas mais humanista, mais inteligentes e mais humildes que conheci.E falo apenas do homem.

Ana Cristina Leonardo disse...

Anónimo, nunca privei com Saramago, o homem. Sei, como toda a gente que quiser saber, do processo do DN. Dizem agora alguns que, pecadilhos dessa época, muitos os partilham. Como foi o caso, quando li Zita Seabra, para mim, o que está aqui em causa é, mais do que as opções ideológicas, o que se faz com elas. Ser do PC naquela altura não implicava apoiar saneamentos por divergências. Haveria com certeza quem não o fizesse. Por isso, para mim, a questão nunca foi essa.
Este post é, contudo e sobretudo, sobre o Saramago enquanto escritor. E, para mim, as suas obras estão demasiado enfeudadas a uma mensagem ideológica para poderem ser grande literatura. Só isso.
E, já agora, um reparo: eu, se viesse a terreiro defender quem quer que fosse, fá-lo-ia com o meu nome. Mas isso sou eu, claro.

nd disse...

Neste caso não geraram equívocos, ACL. Estive a seguir o respectivo marcador e percebi a razão das companhias milito-comentantes e a base da opinião sobre o "demasiado anacronismo".

E concluo, mais uma vez, que as contradições de cada um são apenas isso mesmo: contradições. Bem pior seria se tudo aqui fosse uma contradição enorme. Basta olhar para as imagens da banda direita do blogue para se imaginar a teorética desmesura. E escrevo bem pior seria porque, como disse e mantenho, gosto de vir aqui lê-la.

Ana Cristina Leonardo disse...

Agora é que não percebi mesmo. O facto de eu não ser fã de Saramago contradiz o quê? Não é que eu encare a coerência como uma questão de princípio - só os burros não mudam, como dizia o outro - mas é que não alcancei mesmo. Sobretudo a parte da teorética.

nd disse...

A contradição vê-se entre o que escreve aqui, geralmente com lucidez e combatividade, e as companhias comentantes que postes destes atraem, perfeitamente identificáveis.

Os burros não mudam e terão as suas razões para tamanha teimosia, falo do animal. Mudam os homens, quantas vezes a 180º, por razões práticas, pragmáticas e outras palavras detestáveis de rima igual. Mas há a chamada coerência de princípios, que não tem a ver com cores políticas, mas com o carácter das pessoas. Esta é a que me interessa, e nisto torno aos do azimute em sentido contrário.

A teorética desmesura da contradição aplicar-se-ia se este blogue fosse um embuste.

Creio entretanto que o seu desafecto pelo homem lhe obnubilou o autor, o que não me parece bom para quem escreve sobre livros, desculpe-me a opinião, e desculpe-me porque nada tenho a ver com o que, em outros, é bom ou mau nesse campo, a não ser exercer o direito à crítica, neste caso pedindo-lhe que a considere afável.

Ana Cristina Leonardo disse...

nd, agora começo a perceber. quanto à parte que me interessa, confundir o homem com a obra, em primeiro lugar nunca escrevi "oficialmente" sobre o escritor, apesar de um livro dele O Homem Duplicado, que considero francamente mau, ter estado na lista; em segundo lugar, tento sempre separar as águas (e acho que já li o suficiente para o conseguir fazer - reconheço que possa ser mais exigente com um autor com o qual "embirre" - mas as minhas embirrações são literárias).
Quanto ao resto, mantenho o que disse: a ideologia lixou-o. Repare, não estou sequer a referir-me ao carácter do homem (pode um ser execrável escrever obras-primas seria outra conversa - e teríamos de começar sempre por definir o que é um ser execrável). Estou a referir-me ao facto de saramago não ter resistido a passar mensagem. Do meu ponto de vista, passar mensagem em literatura é profundamente desonesto. Lê-se, por exemplo, A um deus desconhecido, de Steinbeck, e percebe-se onde se situa o escritor. Mas tudo ali é pura sensibilidade. Talvez por isso goste muito mais desse romance do que de As Vinhas da Ira (mas isto agora é mero gosto pessoal).
Quanto ao seu direito à crítica, nem vale a pena falar nisso. Afável é melhor mas até podia não ser. Quem diz o que pensa em público, sujeita-se a levar na cabeça. E daí não vem nenhum mal ao mundo.

Zé_Lucas disse...

Confesso que os comentários me ultrapassaram completamente. Não sei se ajuda, mas indentifico-me ideológicamente quase a 100% com as posições políticas do Saramago. Não invalida isso, que o ache um escritor medíocre, e, acreditem, lí a maior parte dos seus livros.

N. disse...

Gostei de todos os que dele li. :-)
e tentando pensar num porquê abrangente (sem me deter neste ou naquele livro), diria que essencialmente pelo rítmo. Sempre respirei muito bem nas palavras escritas do homem.

[mas sabia há muito que temos duas "vacas sagradas" (salvo seja!)divergentes: este e o Lobo Antunes - e reconheço, desde já, que as tentativas que fiz ao Lobo Antunes foram sempre falhadas; desde já afirmo que não me sinto apta a defender uma vaca nem a atacar a outra]

Zé_Lucas disse...

Neste caso, "bois sagrados"... Mas brincadeira à parte, comparar um com o outro é como comparar um T1 na Brandôa com uma vivenda no Restelo. No entanto, concordo que o Lobo Antunes, após o Nóbel ou Nobel ou lá como se chama, começou a esforçar-se em demasia para marcar essa diferença e complicou o que era fácil. A leitura dos seus livros tornou-se algo de penoso, a fazer sofrer sem necessidade. Compare-se, só p. ex., a escrita do Bolaño ou do Le Clézio com a dele, e verifica-se fácilmente que não há necessidade de tanta "sofisticação" para se passar a mensagem.

N. disse...

eu não estava a comparar. Contudo, apesar de não conhecer a Brandôa nem o Restelo, percebi a ideia na diferença das assoalhadas.

Tiago Coen disse...

"Ideologia encapotada de literatura". Está quase tudo dito quanto à escrita de Saramago. Acrescentaria, apenas, uma avaliação pessoal sobre ela: pobre, muito pobre.
Quanto ao homem, e eu não consigo distinguir as obras dos artistas, dos artistas das obras: podre, muito podre.
Saramago é só mais um caso exemplar de "o rei vai nú", tão frequentes no nosso país de mentalidades reduzidas.
Jorge Luis Borges dizia que o leitor aceita do escritor qualquer coisa, mesmo o mais completo disparate. Saramago, o mestre da usurpação, fez desse lema a base de toda a sua relação com o público.

lili disse...

Falta de sensibilidade, é exactamente que eu sinto na escrita do Saramago, além disso, quando o lia tive sempre a impressão de estar a ler o escritor oficial do partido.

Outra coisa é a razão de ele ser tão antipático e desiludido com o mundo é ter.nos dado tantas ideias para um mundo melhor e nós, lerdos e ingratos, não lhe ligarmos nenhuma.

A culpa é toda nossa, ele foi um deus.