23/03/10

Gostas de hip hop? És previsivelmente um gajo morto ou de como a imbecilidade é mais perigosa do que parece

Cheguei a este naco de prosa através de um post do João Lisboa (aqui). Um tal Alberto Gonçalves, não sei se musicista, sociológico ou apenas cronista parvo, perora longamente sobre a morte do rapper MC Snake, para nos deixar com a seguinte conclusão: a culpa foi do próprio que ninguém o mandou usar "vestuário ridículo" e ter "gestos animalescos". Exactamente por isso, a sua morte não era, nas extraordinárias palavras do tal Alberto Gonçalves, "totalmente imprevisível".
Em nome da minha sanidade mental, só queria dizer uma coisa ao cronista: eu não aprecio hip hop mas se a imbecilidade matasse o senhor há muito que estaria morto.
ADENDA: o Pedro Vieira também escreveu sobre o gonçalvismo aqui.

23 comentários:

fallorca disse...

«..."vestuário ridículo" e ter "gestos animalescos"...» Deve ser mais um desses tinhosos com vocação Armani a conselho do Boss... pqp!

Luis Serpa disse...

Cara Ana Cristina Leonardo,

Não acha que devia reler o que Alberto Gonçalves escreveu? É que o seu comentário é um bocadinho confrangedor, sobretudo para quem, como eu, a segue com atenção e prazer.

Não custa nada: reler atentamente o que ele escreveu e criticá-lo, se achar caso disso, pelo que ele escreveu. Não pelo que V. leu - ou tresleu.

Cordialmente,

fallorca disse...

Por falar em jornalistas, a Jornalista Lourdes Féria ligou-me. Estava no & etc., comoveu-se (assim o imagino) e diz que me quer fazer uma entrevista. O Editor autoriza, tu, como potencial leitora, que me dizes?
Antecipadamente grato pela tua insuportável (para alguns) lucidez.

Ana Cristina Leonardo disse...

Fallorca, não percebi bem a tua pergunta. Se a Lourdes te quer entrevistar, porque esperas? Eu depois, leitora, lerei de certeza o vosso diálogo com agrado.

fallorca disse...

Espero regressar lá para depois da Páscoa para não comer o coelhinho...

a Besta Bestial disse...

outra resposta ao senhor gonçalves aqui:

http://www.33-45.org/?p=833

Ana Cristina Leonardo disse...

Caro Luís, o que eu acho confrangedor é que um cadáver ainda não tenha arrefecido e alguém se ponha a teorizar sobre o assunto daquela maneira. Quanto a eu ter treslido o tal cronista,francamente não vejo em quê. Achar que alguém "previsivelmente" será morto por ser rapper ultrapassa a minha capacidade hermenêutica, para não falar do entendimento moral.
PS.: E os exemplos tb. são bons; sobretudo o de comparar não conseguir arranjar emprego com o de levar um tiro mortal por não parar numa operação stop

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

"Gonçalvismo". Gostei. Poderá ser um movimento para designar os opinion makers enviesados (para não dizer mais nada).

Luis Serpa disse...

"Opinion makers enviesados"? Ó desgraça! Vá lá agora um opinion maker ter uma perspectiva! Este país!

Cara Ana, sorry. Agora mais a sério: gostaria de lhe responder. Talvez amanhã, pode ser?

Carlos Azevedo disse...

Treslê-lo é favorecê-lo, porque nada pode ser pior do que o resultado de uma leitura séria daquela prosa (embora saibamos bem que ele não estava a brincar). Repito aqui algo que comentei noutro sítio: o que Alberto Gonçalves escreveu, além de revelar ignorância, revela um carácter - ou a falta dele.

Luis Serpa disse...

Cara Ana Cristina, tenho medo.

Tenho muito medo. Vou de certeza fazer-me trucidar. Imagine: eu penso que dizer o que Alberto Gonçalves diz é, justamente, prova de carácter. Ou de tomates, que é o que lá anda mais próximo, pronto; mas é menos bonito.

Ana Cristina Leonardo disse...

Caro Luís, aqui na pastelaria não se corta a cabeça a ninguém, nem antes nem depois do veredicto. Faça lá a sua defesa do indefensável que sempre a gostava de ler. E estou só a tentar pô-lo à-vontade.

Luis Serpa disse...

"Indefensável"? Porquê?

Bom, vamos por partes, que sempre é mais fácil.

a) "o que eu acho confrangedor é que um cadáver ainda não tenha arrefecido e alguém se ponha a teorizar sobre o assunto daquela maneira." Isto suscita-me duas questões: i - se o cadáver já estivesse frio os comentários seriam aceitáveis? ii - se o cadáver fosse, sei lá, de um facho qualquer, a indignação seria a mesma?

Um cronista é suposto cronicar sobre o que se passa quando se passa. Não creio que se Alberto Gonçalves "perorizasse" sobre o assunto daqui a três semanas o interesse fosse o mesmo (em termos jornalísticos, claro).

b) "Achar que alguém "previsivelmente" será morto por ser rapper ultrapassa a minha capacidade hermenêutica, para não falar do entendimento moral." Não me parece que Alberto Gonçalves defende que os rappers devem ser assassinados pela polícia.

Talvez fosse útil fazer-se uma comparação com, sei lá, cantores de ópera? Se eu disser "há menos probabilidades de um cantor de ópera ter menos problemas com a polícia do que um rapper", estou a fazer um juízo de valor ou um juízo de facto? Opto por este, sem hesitar.

c)"a culpa foi do próprio que ninguém o mandou usar "vestuário ridículo" e ter "gestos animalescos"" - não sei de onde infere isto. Parece-me um salto lógico um bocado arriscado. O que AG (lá vou eu para esta porcaria das iniciais) diz é

i - o hip hop é "glorificações do crime e panfletos misóginos" [do pouco que conheço parece-me verdade. O que acha?]

ii - "a responsabilidade do estereótipo cabe inteirinha ao sr. Rodrigues" [é mentira?]

iii - "a verdade, é o inverso: o hip hop é a sujeição dos pretos ao que o "multiculturalismo" em vigor deles espera. Ao trocar a literatura pela "poesia das ruas", a música pelo ruído, a educação pela agressividade, o esforço pela automarginalização, a única afirmação do hip hop é a da inferioridade. Se levado a sério, o paternalismo condescendente limita os membros de uma etnia a uma existência parcial nas franjas da legalidade. E não anda longe do folclore abertamente racista."

[Não deve haver no mundo pessoa mais colour blind do que eu, e isto parece-me uma verdade cristalina. Que acha?]

iv - Conclusão: "O sr. Rodrigues, ou sr. "Snake", escolheu o seu próprio estereótipo. O que a polícia fez depois terá sido injustificável, mas não totalmente imprevisível." Isto não é dizer que ele foi morto por usar "vestuário ridículo". É dizer "ele foi morto, de uma forma injustificável, porque o estereótipo que escolheu reforça [se baseia n'] a exclusão, o racismo, na apologia do crime e [acrescento eu] na luta contra a autoridade "racista", "classista", etc.

O cerne da questão é, claro, que há uma diferença muito grande entre justificar e explicar. Diferença essa que, infelizmente, é muitas vezes mal compreendida.

Quanto ao post de Pedro Vieira: por uma razão que eu não conheço, em Portugal (e noutros países também; mas interessam-me menos) as diferenças de opinião são sempre dirimidas a contas de "ele não sabe" "ele não é o que diz que é" "ele mente" "ele é primário", etc.

Não me parece muito interessante como ponto de partida. E muito menos de chegada.

Carlos Azevedo disse...

Da Weasel, "Re-definições":

Re-definição de estruturas, formas e conceitos
Na procura incessante de movimentos perfeitos
Neste baile de máscaras onde toda a gente dança
E homem que baila por gosto às vezes perde a esperança…
Mas há a voz de Gil-Scott
a música de Jobim
a Força de mil homens bem dentro de mim
Agarro-me a ela – a tudo o que encerra
Tenho o Verbo comigo
E uma alma que berra:
Novas estradas!!! E força para as abrir
Novos dias… e calma para os sentir.

Na minha opinião, brilhante. Um dos problemas da crónica de Alberto Gonçalves - clarifico: um entre muitos - é a generalização.

Ana Cristina Leonardo disse...

Luís Serpa, já lhe respondo, pode ser?

Luis Serpa disse...

Por coincidência vi isto ontem, e pareceu-me ver alguma relação com o nosso tema, ou arte dele.

«On m’a reproché de ne plus être africain. On accepte qu’un Africain chante en petit-nègre, mais dès qu’il adopte un langage plus élaboré, on dit qu’il perd son âme. C’est une manipulation subtile qui nous ramène sans cesse aux fantasmes du Noir primitif.» Lokua Kanza.

Ana Cristina Leonardo disse...

Caro Luís, então cá vai

«se o cadáver já estivesse frio os comentários seriam aceitáveis?»

Seriam aceitáveis, apesar do conteúdo dos mesmos continuar a ser o que é.

«se o cadáver fosse, sei lá, de um facho qualquer, a indignação seria a mesma?»

Depende do "facho qualquer". Se o facho fosse Céline, por exemplo, ter-me-ia à perna.

«Não creio que se Alberto Gonçalves "perorizasse" sobre o assunto daqui a três semanas o interesse fosse o mesmo (em termos jornalísticos, claro).»

O interesse jornalístico (seja lá isso o que for) não está em causa. O que está em causa é o que AG escreve.

«"Achar que alguém "previsivelmente" será morto por ser rapper ultrapassa a minha capacidade hermenêutica, para não falar do entendimento moral." Não me parece que Alberto Gonçalves defende que os rappers devem ser assassinados pela polícia.»

Pois não. Acha “previsível” que o sejam.

«Talvez fosse útil fazer-se uma comparação com, sei lá, cantores de ópera? Se eu disser "há menos probabilidades de um cantor de ópera ter menos problemas com a polícia do que um rapper", estou a fazer um juízo de valor ou um juízo de facto? Opto por este, sem hesitar.»

1 O rapper não teve problemas com a polícia. Foi morto pela polícia.
2 Os cantores de ópera têm uma larga história. Talvez fosse bom investigar quando se tornaram respeitáveis.
3 O texto de AG não é assenta em juízos de facto. Está cheio de juízos de valor. Para começar, acerca logo do hip hop (que eu t,b. não aprecio, mas, parafraseando o João Lisboa, também não gosto de carne de porco, e daí? Não me ocorre chamar “animalesco” a quem goste)

«"a culpa foi do próprio que ninguém o mandou usar "vestuário ridículo" e ter "gestos animalescos"" - não sei de onde infere isto. Parece-me um salto lógico um bocado arriscado. O que AG (lá vou eu para esta porcaria das iniciais) diz é

i - o hip hop é "glorificações do crime e panfletos misóginos" [do pouco que conheço parece-me verdade. O que acha?]

ii - "a responsabilidade do estereótipo cabe inteirinha ao sr. Rodrigues" [é mentira?]»

1 O próprio Luís responde: a responsabilidade do estereótipo cabe inteirinha ao sr. Rodrigues – e qual é o estereótipo? Usar “vestuário ridículo” e ter “gestos animalescos”.
2 Não sou versada em hip hop. Mas tenho cá em casa quem já tenha passado pela fase do queremos dançar hip hop. Nunca achei que tivessem tendências criminosas nem sofressem de misoginia.

Ana Cristina Leonardo disse...

(continuação)

«a verdade, é o inverso: o hip hop é a sujeição dos pretos ao que o "multiculturalismo" em vigor deles espera. Ao trocar a literatura pela "poesia das ruas", a música pelo ruído, a educação pela agressividade, o esforço pela automarginalização, a única afirmação do hip hop é a da inferioridade. Se levado a sério, o paternalismo condescendente limita os membros de uma etnia a uma existência parcial nas franjas da legalidade. E não anda longe do folclore abertamente racista.»

É muito salto quântico. Em primeiro lugar, o hip hop não é todo igual (embora, eu não seja consumidora), quanto ao resto, teríamos de saber o que é literatura, música, educação, etc. E já agora não esqueça o Steiner “as humanidades não humanizam”.
Quanto ao multiculturalismo, cá por mim acho bem que não sejamos todos iguais. Não tenho nada contra a ideia dos vasos comunicantes.

«Conclusão: "O sr. Rodrigues, ou sr. "Snake", escolheu o seu próprio estereótipo. O que a polícia fez depois terá sido injustificável, mas não totalmente imprevisível." Isto não é dizer que ele foi morto por usar "vestuário ridículo". É dizer "ele foi morto, de uma forma injustificável, porque o estereótipo que escolheu reforça [se baseia n'] a exclusão, o racismo, na apologia do crime e [acrescento eu] na luta contra a autoridade "racista", "classista", etc.»

É o que eu chamaria um argumento em redondo. Primeiro, diz-se que ele escolheu um estereótipo que se baseia na exclusão…. etc., depois diz-se que foi morto porque o escolheu. E eu que pensava que ele tinha sido morto pela polícia por fugir a uma operação STOP (pergunto: se ele fosse a tentar entrar no São Carlos sem bilhete, tb. teria sido baleado pelas costas?)

«O cerne da questão é, claro, que há uma diferença muito grande entre justificar e explicar. Diferença essa que, infelizmente, é muitas vezes mal compreendida.»

Também acho que há. Justificar o nazismo, por exemplo, não é o mesmo que explicar o Hitler. Mas se eu explicar o nazismo, e na conclusão disser: “estava-se mesmo a ver o que ia acontecer, os judeus estavam a pedi-las”, não passarei de um imbecil.


Quanto à citação de Lokua Kanza que cita no seu último comentário, compreendo-a perfeitamente. Não tem nada que ver com o que escreve AG, que, aliás, é claro no título: o hip hop tb. mata. Não, quem matou, no caso, foi um polícia. E cá para mim, o texto de AG não passa de um texto perverso, em que uma vítima passa a ser, lá no fundo, culpada.
Acho inaceitável. E não o acho certamente pelo facto de o morto ser preto

Luis Serpa disse...

Ana Cristina, deixe-me antes de mais nada repor a igreja no meio da aldeia [e de passagem perdoe-me o galicismo]. Ninguém - nem AG nem eu - está a dizer que o senhor devia morrer.

O que dizemos - e sinceramente não vejo de onde vem tanta indignação - é que determinados comportamentos têm mais risco do que outros.

Quando os cantores de ópera não eram as personalidades são hoje (e não me refiro apenas às personae) provavelmente teriam também taxas de mortalidade indevida (não sei se é o melhor termo. Apelo uma vez mais à sua tolerância) mais elevadas do que outros grupos menos "excluídos" - ou melhor, "auto-excluídos".

Mais uma vez me parece que há uma grande confusão entre explicar e justificar. Ninguém justifica a morte do senhor. Não tenho talvez um acervo de situações estatisticamente significativo, mas é um facto que quando estou de casaco e gravata e faço uma asneira qualquer a reacção das pessoas é diferente da que têm quando estou, por exemplo, a sair de um barco a vela (isto merecia ser um bocadinho elaborado. Desculpe, vai assim).

Podemos concordar ou não, achar que é uma estupidez, o que quiser. Mas é assim - e não é por isso que ponho casaco e gravata mais vezes do que aquelas a que sou estritamente obrigado (mas isso é outra história).

fallorca disse...

Céline era facho? Como o Almada, o Pound, etc., ou viveram rodeados de sabujos?

Ana Cristina Leonardo disse...

Luís, eu prefiro o barco à vela, apesar de haver homens que ficam muito bem de fato e gravata.
Mas sem graças, porque o assunto é o da morte de um homem, o texto da polémica não se situa nesse plano hermenêutico onde o quer situar. São ditos muitos disparates sobre o hip hop e, sobretudo, não se vislumbra, naquela pretensa análise sociológica, um pingo de compaixão pelo morto. Que, segundo as notícias, recordo, foi morto por não parar numa operação STOP. Porque mesmo a existirem estereótipos, a polícia, por ser polícia, tinha obrigação de estar acima disso - ou então estamos mesmo muito mal

Fallorca, deixemo-nos disso. Do que eu tenho a certeza é que as boas intenções não fazem bom literatura.

Luis Serpa disse...

Ana Cristina,

antes de mais nada, as minhas desculpas por tão grande demora na resposta.

Não creio que a compaixão seja um componente essencial de uma análise, seja ela qual for.

Morrem diariamente imensas pessoas por quem eu não sinto a mais pequena compaixão; o que não me impede, é preciso dizê-lo, de compreender que há pessoas que sofrem com essa morte, e des entir empatia com elas.

Mas não tenho compaixão. Nenhuma. Há toda uma série de pessoas - e você tem outra, decerto diferente da minha, mas não menos numerosa - que poderia morrer hoje, agora, fulminada e cuja morte me deixaria totalmente indiferente.

Não há nenhuma obrigação de compaixão. Pior ainda - a compaixão sabe a falso quando parece obrigatória.

Quanto ao hip-hop: é uma coisa que me fascina. Porque é que pessoas inteligentes, com bom gosto, cultas, defendem coisas que são o exacto contrário de tudo isso? Porque é que mulheres acham que os palestinianos são melhores do que os israelitas?

Porque aceitam coisas, letras, actos que nas suas vidas quotidianas achariam decerto - e justificadamente - intoleráveis? Se alguém lhe dissesse numa mesa de jantar metade das coisas que os rappers dizem numa "canção" V. ficaria, decerto e mais do que justificadamente, ultrajada.

O hip-hop é uma música horrível (chamar-lhe música já é um esforço de tolerância inquantificável) e o facto de os nossos filhos adolescentes dele gostarem não o torna aceitável.

Não acha?

Carlos Pires disse...

Alberto Gonçalves é tudo menos idiota. É de facto sociólogo e costuma escrever regularmente na imprensa. Às vezes discordo dele, mas nunca me ocorreu pensar que é idiota - talvez porque quando discordo de uma pessoa procuro encontrar contra-argumentos e contra-exemplos e não insultos.
A questão é outra: porque é que alguém foge à polícia? Porque é que nas defesas de MC Snake (nunca o ouvi cantar, mas não vou escrever "um tal MC Snake") se ilude esse facto?
Outra questão: queremos viver numa sociedade em que não é dada formação aos polícias e em que cada vez que um dispara é publicamente crucificado? Eu não quero e acho que por detrás dessa atitude está uma compreensão errada da democracia e do papel do estado (a democracia não é incompatível com a autoridade e sem o exercício da autoridade por parte do Estado não há liberdade).