25/03/09

O homem é um verme mas eu também desconfio de muitos dos que agora se indignam

Há pouco tempo tinha sido o Williamson. Agora foi o Le Pen.
Volta não volta, volta-se ao mesmo.
Quantos morreram? E será que morreram? E de quê que de gás não foi?
Apesar deste assunto cheirar literalmente mal [os pavilhões de Birkenau fedem mesmo] gostaria de fazer um reparo sobre as declarações de Le Pen.
O líder da Frente Nacional não afirmou que não tinha havido Shoah, o que ele afirmou foi que as «câmaras de gás» tinham sido um «pormenor» no contexto da II Guerra Mundial.

Lamento dizer isto, o homem é um verme, mas a frase está historicamente correcta. À época, não só as «câmaras de gás» eram um pormenor, como a própria «Solução Final» não era coisa que tirasse o sono aos Aliados.
Podemos permitir-nos hoje pintar quadros heróicos e imaginar o Bem cavalgando sobre o Mal, vencendo Hitler, o demoníaco, e dando tudo por tudo para salvar as pobres vítimas.
Podemos. Mas a verdade histórica é que, durante a II Guerra, todos cagaram nos judeus (salvo raríssimas excepções, que pouco ou nada contaram para a evolução dos acontecimentos), continuando, aliás, a fazer o mesmo após a queda do nazismo ― leia-se A Trégua , de Primo Levi .
A actual gritaria pode fazer muito efeito mas eu, pessoalmente, gostaria mais de saber, por exemplo, porque razão no século XXI o Estado português, através do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros, paga e publica um livro como o do embaixador João Hall Temido em que se insulta a memória de Aristides Sousa Mendes e em que as «câmaras de gás», lá está, não passam de «um pormenor».

12 comentários:

Uli Sequeira disse...

Não tinha lido isso do Embaixador (o que está no outro texto).

Que horror. Há com cada anormal.

Ana Cristina Leonardo disse...

pois há. e o que me pergunto é se entre os que agora se indignam não haverá tb. bastantes

lili_one disse...

Ainda há muitos anormais.

A verdade é tão indigna, é tão horrível, que há pessoas que preferem inventar uma outra verdade, só que torna a outra Verdade ainda mais terrível.

Uli Sequeira disse...

tive a pensar no que diz sobre o pagamento e a publicação do livro. Acho que isso já deve estar mais ou menos acordado antes de o livro estar escrito.

E não deve ser por dizer essas parvoíces que deixa de ser publicado. Deve ser alvo de crítica, coisa que não foi devidamente. Bem, há espaço para isso e é um bom tema.

O que me preocupa é que as declarações revelam uma maneira de pensar sobre o Interessa Nacional - esse conceito vazio que serve para as maiores atrocidades - que é repugnante.E mais, a rigidez é tanta que, mesmo anos depois, é difícil para o Embaixador reconhecer a importância do comportamento de Arístides (por muito pequeno que tenha sido e disso não estou mesmo habilitado para falar).

Uli Sequeira disse...

o pequeno refere-se ao número de vidas salvas. e é uma palavra que não faz sentido nenhum no contexto porque não existem pequenos números de vidas salvas, mas não arranjei melhor e foi escrito à pressa.

fallorca disse...

Possivelmente o Estado (em que estado?) português teme ficar no hall dos «pormenores» e edita o João.
Pqp!!

Carlos Azevedo disse...

Inseri o comentário abaixo no post errado! Era para aqui.

Le Pen, de facto, é um verme.
Os Aliados só agiram porque a partir de certa altura viram a sua integridade territorial em risco. Aliás, não precisamos de recuar muito no tempo para vermos o que acontece quando as matanças não alastram a outros territórios; os anos 90 do século XX são uma década repleta de exemplos.
A aplicação e o cumprimento da lei “nas circunstâncias da época” é uma daquelas ideias que serve para tudo desculpar. Com ela, também os nazis se podem desculpar (Eichmann, no julgamento em Jerusalém, não foi muito além desta ideia, daí o conceito de banalidade do mal que Hannah Arendt teorizou para resumir o mal nazi).
Ao embaixador Hall Themido (eu sei que o senhor não tem culpa, mas há cada nome!) eu recomendaria a leitura de Antígona, de Sófocles. Duvido é que produzisse efeitos positivos em tal burocrata.

Victor Afonso disse...

Talvez as câmaras de gás fossem um "pormenor à época" porque os Aliados não lhes atribuíram grande importância. Mas depois do que a História descobriu e investigou após o fim da 2ª Guerra Mundial, é impossível aceitar o argumento que foram um "pormenor". Pode-se chamar "pormenor" a uma máquina da morte que chacinou, como nunca antes se tinha registado na história da Humanidade, milhões e milhões de seres humanos com a mais insana crueldade?! HOJE, repito, HOJE não se pode aceitar que se diga tamanho dislate. Pelo mesmo prisma e interpretação, também foram um "pormenor" as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Ou então eu já não sei nada e vou ter de ir ali ver o que significa "pormenor" no Dicionário da Porto Editora...

Táxi Pluvioso disse...

É espantoso como no tempo de Aristides as coisas, nos consulados, funcionavam, não faltavam impressos e trabalhava-se em bom ritmo, 20 ou 30 mil assinaturas num mês (ou lá que números são) é obra. Hoje isso nunca seria possível, faltava material e requeria dormir à porta do consulado noites a fio.

Shoah e holocausto não são a mesma coisa. Holocauto foi um acontecimento histórico (determinado por lei em alguns países). Shoah é uma cerimónia/facto religioso (que certa religião exportou como dogma).

Dou a mão à palmatória e admito que estava errado, afinal o Estado Palestiniano é possível e está para breve.

Anónimo disse...

Boa!

Mas não houve só os judeus, lembremo-nos. Evidentemente que me refiro aos mortos «não militares», aos civis mortos nas invasões, nas ruas ocupadas, nos campos de prisioneiros, etc., etc..

E não lembra nem ao diabo pagar uma edição para insultar a memória de Aristides!

Manuela Pinho, empresária, etc. e tal

Ana Cristina Leonardo disse...

pelos vistos lembrou ao Ministério

Ana Cristina Leonardo disse...

Táxi, desculpa mas é exactamente ao contrário: sohah em hebraico quer dizer aniquilação, catástrofe. holocausto é que é um termo como conotações religiosas: «queimado em sacrifício de deus».