12/02/09

Nuno Bragança (1929-1985)

Faria hoje 80 anos. A Dom Quixote acaba de editar a sua obra completa num só volume. É de lá que retiro isto.
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Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços. Dia após dia os mais laboriosos, cansativos forcejos projectavam meus membros anteriores em-frentamente. E isto assim até que perdi as mãos de vista.
Não que o meu sorriso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas uma certa palidez no semblante geral denunciava (ao que parece) más possibilidades. Foi nessa época que se pôs o problema de eu ser ou não envolvido a fundo nas malhas da FRIPMS (Fundação de Recrutamento Infantil Pró Movimento Selecta). Reunido o Conselho de Família, verificou-se (e registou-se em acta) a ausência do meu tio Augusto, que não pôde comparecer, ocupado, como estava, a violentar a filha menos vesga do jardineiro. Decidiu-se que eu não seria imediatamente recrutado: a debilidade era o meu forte. Foi-me oferecido um gato de peluche e, como nesse dia perfiz cinco anos, assim terminou a minha recuada infância.
abertura de A Noite e o Riso
[o volume publicado pela Dom Quixote inclui A Noite e o Riso, Directa, Square Tolstoi, Estação, Do Fim do Mundo e A Morte da Perdiz]

4 comentários:

sem-se-ver disse...

excelente iniciativa, excelente edição.

obg pela informação.

fallorca disse...

Boa memória, passe o ranhoso do tempo e permaneçam incólumes os livros

manuel disse...

http://adventuresinnerdliness.blogspot.com/2009/02/new-sony-huh.html

Anónimo disse...

A célebre e belíssima abertura d'«A Noite e o Riso». Um dos melhores começos de sempre de uma obra de ficção escrita em português.
Gostei de recordá-la ao passar por aqui.

Pedro Correia