16/12/08

Non flere, non indignari, sed intellegere*


O vice-presidente norte-americano Dick Cheney veio defender publicamente a prática da tortura como forma de obter confissões. Quando interrogado sobre o "afogamento", o grande arquitecto da guerra do Iraque disse concordar com o método.
A questão da tortura coloca graves problemas morais. O mais óbvio é o da proporção: se um prisioneiro recusar confessar onde vai decorrer um atentado que levará à morte um determinado número de inocentes, será legítimo recorrer à tortura como forma de prevenir a mortandade?
Quem tiver uma visão utilitária da moral, dificilmente poderá responder pela negativa. Mas e se a ética não for uma pragmática, tão-só o que nos salva da barbárie?
*Não chorar, não se indignar, mas compreender, Espinosa

6 comentários:

Milu disse...

Não concordo com o recurso da tortura como método para levar a falar os prisioneiros, pela simples razão de que, nem sempre poderemos ter a certeza da sua culpabilidade! Imaginemos que era um inocente cujo delito foi apenas estar no local e à hora errada!Além disso, todo aquele que tiver a coragem de infligir tortura num seu semelhante não é melhor do que o pretenso criminoso!Imagino, por exemplo, um polícia a aplicar choques eléctricos num indivíduo que se contorce com dores, a meu ver esse polícia é uma besta!

Manuel Margarido disse...

É. É o dilema de Hiroxima. Receio que tentar compreender leve a alguns becos de entendimento. Num tempo de 'diabolizações, é fácil julgar Cheeney como monstruoso. Será, pôs-se a jeito. Mas a hipocrisia da UE relativamente aos Direitos Humanos (Na China, na RDC), proclamando virtudes e assobiando para o lado dos negócios não é ela, também, 'monstruosa'? De resto, concordo consigo. Há uma fina linha que resta. a ética como primado. Ténue linha.

Ana Sofia Couto disse...

Questões muito difíceis, as que a Ana coloca nest post. Parece-me que há um problema muito complexo, relacionado com a natureza da ética. É que eu posso defender, por exemplo (e por oposição a uma ética "pragmática"), uma ética deontológica (kantiana), uma ética de virtude (aristotélica), etc... Mas será que a defesa de uma ética não pragmática nos ajuda a decidir, em cada situação particular da vida, o que devemos fazer? Bom, são questões muito importantes e muito difíceis...

ex-blogger disse...

A ética democrática é exactamente o seu ponto fraco, pelo menos para quem está do outro lado.

Acho que é uma pescadinha de rabo na boca; se a democracia "atropelar a ética" a título da sua própria defesa, não acabará por se tornar em si mesma tão "terrorista" quanto os seus agressores? Nesse sentido, o recurso à tortura na linha de "os fins justificam os meios" pode ser encarada como uma espécie de implosão, o que nos leva a pensar se, talvez, não seja sempre uma win-win situation para os terroristas, quer passem incólumes quer sejam torturados - com a certeza de que, com eles, serão também torturados muitos outros inocentes, e que, através desses métodos, o próprio "povo" se irá revoltar contra os seus dirigentes políticos.

Mas é claro que eles não são assim tão espertos. O síndrome "caça às bruxas" é apenas mais uma consequência vantajosa nesta guerra ideológica.

F disse...

Se eu estivesse no lugar do torturado, às tantas era capaz de preferir que me aplicasse a pena de morte (sofrimento por sofrimento...):S
A questão é que não se pode, de maneira nenhuma, abrir precedentes. Há gente muito perversa.
Acho que as contas não podem ser feitas dessa maneira.
Se formos capazes de compreender que para evitar a mortandade se tenha que torturar alguém, então também seremos capazes de compreender que a vítima da tortura, por sua vez, também será uma vítima de um sistema social e cultural.
Não. A tortura nunca. Até porque sob tortura até se confessam coisas que não se fizeram.
Investir e desenvolver a espionagem parece-me mais sensato.

nuno granja disse...

a indicação "marcadores" está errada,
"Dick Cheeney" não combina com "Etica"