14/07/12

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Tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é fado

Cavaco Silva, montanheiro de sequeiro sem um pingo de grandeza cujo projecto para o país se resumiu a asfaltá-lo, que levou aos píncaros tudo o que o novo-riquismo tem de pior, que se rodeou de gente que devia estar na cadeia e que cada vez que abre a boca me envergonha de ser portuguesa, vem dizer que os portugueses se tinham acostumado à "vida fácil".
"Vida fácil" que ele promoveu, que os patos bravos seus amigos promoveram, que os tipos das jogadas financeiras promoveram, e que o grande Sócrates continuou acrescentando-lhe a patine das fatiotas de bom corte. É preciso não ter vergonha na cara!

11/07/12

A Ópera dos Malandros


As senhoras não falam de dinheiro. Fica-lhes mal. A única excepção que conheço é Mae West que um dia explicou com singular clarividência: “A man has one hundred dollars and you leave him with two dollars; that’s subtraction”. 
Se olharmos, contudo, mais de perto, depressa concluiremos que falar de dinheiro fica mal a quase toda a gente. Os ricos não sentem necessidade de se referir ao assunto, e os pobres não têm, simplesmente, assunto. 
Apesar de ser indiscutível que ‘Money Makes The World Go Round’, a relação dos humanos com o “vil metal” (e só a expressão “vil metal” é todo um programa) mostra-se complexa e mesmo algo bizarra. Uns idolatram-no, outros desprezam-no; alguns levam-no a sério, outros rendem-se tão-só à sua inevitabilidade. Há quem encare o dinheiro como uma espécie de “bosão de Higgs”, e há quem, como São Tomás de Aquino, descubra na avareza a raiz de todos os males. 
Opiniões à parte, no nosso mundo, sem dinheiro não se fazem compram galinhas, sem galinhas não há ovos e sem ovos não se fazem omoletes.
Talvez, entre os enfermeiros a trabalhar para o Estado a 3, 96 à hora, haja alérgicos à proteína do ovo ou quem viva tão aterrorizado pelas salmonelas que não lhes toque sequer. Esses são os privilegiados! Os outros terão de contentar-se com valores abaixo do salário mínimo, sair da “zona de conforto” ou ficar-se pelos chocolates da “pequena suja” do Pessoa. 
Percebo, ainda assim, a indignação destes profissionais de saúde. Afinal, andaram a queimar pestanas num curso que não serve para nada. E com tantos cursos tão bons que por aí há. Alguns, passíveis até de ser concluídos num só ano e com emprego de ministro garantido. 
“Ó Portugal, se fosses só três sílabas”. 

19/06/12

03/06/12

O toque feminino

Aviso de antemão que este texto pode perturbar almas sensíveis, pelo que não é recomendável àquelas e àqueles que, na senda de Edite Estrela, acreditam tão piamente que “haverá mais paz no mundo com mais mulheres em altos cargos políticos” quanto as senhoras do MNF tinham uma crença inabalável no slogan “Angola é nossa!”

Começo por uma adivinha: o que têm em comum Margaret Thatcher, Angela Merkel e Christine Lagarde? Em 1º lugar, são mulheres; em 2º lugar têm poder; em 3º lugar são reaccionárias, se me é permitido ainda usar o termo.
Recorde-se que Thatcher, autora do "no such thing as society" é, das três, embora retirada, a única com pensamento político articulado. Merkel limita-se a empurrar(-nos) com a barriga e Lagarde administra dinheiro alheio enquanto nos ameaça com a antiquíssima tirada de Paul Féval, "Si tu ne viens pas à Lagardère, Lagardère ira à toi!"

Entrevejo já algumas das almas sensíveis – femininas, masculinas e/ou "transgéneras" – correndo a diagnosticar-me o mal da misoginia, versão jewish self-hatred adaptada “ao segundo sexo”.
Antes que me condenem a ler de fio-a-pavio o livro de Cavalcanti Filho onde a “putativa homossexualidade” de Pessoa terá sido finalmente revelada, invoco em minha defesa: onde está o feminine touch de Merkel quando o Ministério de Economia do seu governo chega a propor, como solução para a crise, a formação de “zonas económicas especiais”, variante update do modelo esclavagista em exercício na China? E que dizer das declarações de Lagarde (logo ela que, enquanto funcionária internacional do FMI, não paga impostos) sobre gregos e pretinhos esfomeados do Níger que lhe partem o coração.

Desculpem-me o francês: feminine touch, my ass.

30/05/12

Vamos ser rigorosos, isto é uma conversa de merda

«(...) Filipe Neto Brandão, do PS, questionou por que razão Relvas omitiu essa informação há duas semana, quando teve o cuidado, por exemplo, de referir um encontro casual numa festa no Algarve.
"Fala numa festa de aniversário e omite um encontro desta natureza?!", indagou o socialista.
"Eu não omiti. Eu não tive um encontro com Jorge Silva Carvalho, tive um encontro entre a administração da Finertec e a administração da Ongoing. Vamos ser rigorosos, eu não vim cá falar da minha vida empresarial", defendeu-se o ministro-adjunto.
 AQUI

Buques

28/05/12

Uma conspiração de estúpidos

Se José Luís Arnaut tem razão, e falta à Grécia aquela qualidade “natural” que podemos admirar no faisão e na perdiz da célebre natureza morta de Renoir, ou mesmo em qualquer nação gerada por Deus na véspera do shabat, o que dizer do “paraíso artificial” que é indiscutivelmente este coiso, perdão, este jardim à beira-mar plantado cantado por Tomás Ribeiro?
Porque se é vero que, desaparecidos os loiros e as acácias olorosas, a noite de estrelas rutilante apenas ilumina autoestradas, tendo as torrentes alterosas dado lugar a barragens de um glorioso amarelo, nem por isso as aves gorjeiam menos noite e dia. Aves raras.
Tivesse Baudelaire conhecido o Portugal de hoje, e ao ópio, ao vinho e ao haxixe decerto acrescentaria a classe dirigente lusa, a qual, sem recurso conhecido a psicotrópicos, bombardeia o país com doses maciças de gás hilariante.
É assim que temos um ex-espião que descobre a sua queda para o coiso consumindo “O Santo” na infância, a que acresce, já na idade adulta, o modo pouco smart como deixa que o DIAP lhe game o smartphone, facto que nos permite suspeitar que em algum momento da vida terá telefonado ao pai, bradando, à maneira de Loureiro, “pai, já sou espião!”
Segue-se um ministro que, intérprete de uma versão série B do “J. Edgar” de Eastwood, ameaça uma jornalista de publicar na Internet pormenores da sua vida privada, desconhecendo, porventura, que na era do facebook a vida privada já não é como soía.
Para apimentar o plot, veio o mesmo negar as acusações pedindo porém desculpa pelo coiso, o que nos leva aquela frase avisada de Groucho: “Ele pode parecer um idiota e agir até como um idiota, mas não se deixe enganar: ele é mesmo um idiota!"
E bote plurais nisso.

25/05/12

Uma boa piada é uma boa piada é uma boa piada [e para desenjoar das piadas do Relvas]


Angela Merkel decidiu descansar dois dias, com o marido, num hotel rural em França, próximo da fronteira alemã.
Foi aí que se registou o seguinte diálogo entre o guarda fronteiriço e a chanceler:
— Nacionalidade?
— Alemã.
— Ocupação?
— Não. Venho só passar o fim-de-semana.

[roubado ao Tomás Vasques no facebook]

20/05/12

Leave the kids alone

A semana passada fiquei a saber três coisas que gostaria de partilhar com o leitor, se este não levar a mal.
A primeira (a ordem é aleatória, são todas péssimas…) é que existe um pediatra indignado por ter falhado nas farmácias um dos medicamentos prescritos para crianças que sofrem do chamado Distúrbio de Deficit de Atenção.
A falta de tal medicamento, cuja substância activa é o metilfenidato, um psicoestimulante que actua sobre o sistema nervoso central, “pode levar crianças a chumbar”. Desta vez nem o eduquês nem o ministro eram chamados à colação. A matéria ficava ao nível da ‘Lucy in the sky with diamonds’, mas, dizem, sem riscos de maior. E para menores.
Nas palavras do pediatra indignado, “As crianças querem estudar e não conseguem. Sem estudo e concentração não conseguem boas notas. Estão a ser empurradas para o insucesso escolar e até para a reprovação".
Ainda mal refeita do choque (I beg your pardon, o que é mesmo que andam a dar aos putos para eles terem boas notas?!), fiquei a saber, também através dos jornais, que numa escola do 1º ciclo de Portimão os recreios passaram a ser patrulhados por alunos e professores no âmbito do projecto PSP (Patrulha de Segurança do Pontal).
As equipas, constituídas por dois alunos por turma, terão que registar os colegas indisciplinados, cujos nomes serão depois exibidos em lugar público e bem visível. Com o cérebro ainda a oscilar entre os “queixinhas” do meu tempo e a Revolução Cultural Chinesa com os seus rituais de humilhação públicos, levo com a terceira notícia. Um livro sobre a crise em duas versões, uma para “miúdos de esquerda” e outra para “miúdos de direita”!
Como diria o Eliot, foi mesmo “very much reality” numa semana.

17/05/12

O Pedro Bidarra vai a todas, ele é West Coast, ele é Allgarve, ele é células estaminais

Hoje foi um dia para esquecer e macacos me mordam se isto não anda tudo ligado.
Começou com o Arnaut a dizer que "a Grécia é um país inventado".
Acaba com o Pedro Bidarra, parece que grau 33 do marketing e publicidade, a mostrar uma campanha sobre células estaminais que está a indignar pais, futuros pais e gente ligada à ciência e à ética da ciência (não vou dizer "gente de bem" porque poderia parecer mal).
A coincidência, porque ele há mesmo coincidências do caraças, é que se trata do mesmo Bidarra que nos vendeu a West Coast, essa ideia brilhante em que se associou ao não menos brilhante ministro Manuel de Pinho.
Na altura, o guru publicitário garantia que a West Coast tinha «associações "aspiracionais" – Hollywood ou Silicon Valley, por exemplo – que sem nada termos que fazer contaminam o conceito positivamente, tornando-o mais glamouroso e mais cosmopolita. Depois há as pontes e colinas de Lisboa e S. Francisco, o Vale do Douro e o Napa Valley, a aridez da Baja Californiana e o nosso Alentejo, coincidências felizes que é só aproveitar.
Agora diz que a actual «campanha é forte e tem uma componente de serviço público, para educar as pessoas».
Ó Pedro Bidarra, cá para mim quem precisava de ser (re)educado eras tu. Em alternativa, podias ir tratar da imagem da Coreia do Norte que anda muito por baixo.

Frases que mereciam um pano encharcado na cara

"A GRÉCIA É UM PAÍS INVENTADO; ERA UMA PROVÍNCIA DO IMPÉRIO OTOMANO", José Luis Arnaut (ex-Ministro Adjunto de Durão Barroso e Ministro das Cidades e etc. do governo de Santana Lopes) ontem à noite na SICN

Frases com sentido

Não conhecia esta frase do Mia Couto, mas é absolutamente verdadeira: "A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos". Ora bem.