23/02/13

Indignar-se, mas só se for em bom português e na ideologia certa



Corre nas redes sociais - e já obrigou as várias autoridades implicadas na coisa a virem esclarecer o sucedido - o texto de uma passageira de um comboio do Norte que assistiu a uma cena que a indignou. 
Resumidamente: tratou-se de uma multa passada ao dono de uma cadela que a transportava no comboio sem bilhete.
O revisor chamou a polícia, o dono do cão foi expulso do comboio, depois de este ter estado meia-hora parado, e levado para a esquadra como se tivesse cometido um crime, tipo assalto ao BPN. 

Preço do bilhete (da cadela) em falta: 2 euros.

O curioso da história são os comentários "politicamente esclarecidos" que alertam para o facto do referido texto conter erros de sintaxe e ortografia, além de denunciar um perigoso amor pelos animais que já Hitler e os nazis... Etc., etc., etc.
Se bem percebo: indignação, mas só se for intelectualmente elevada e meter a Grândola.
Há gente que nasceu parva e há-de morrer parva.

11 comentários:

Cristina Torrão disse...

Agora, quando alguém fala de amor aos animais, vêm logo com o Hitler e os nazis. O que querem provar? Que gostar de animais faz de nós psicopatas, ditadores e assassinos em potência?
Não há mesmo pachorra para tanta parvoíce!

Rita Maria disse...

A comparação ao Hitler é um absurdo, mas não deve vir nem dos erros de ortografia, nem da falta da Grândola nem de se tratar de um animal, mas de o texto terminar dizendo que fazem todo este alarido ao mesmo tempo que os revisores se recusam a ceder aos pedidos dos passageiros de que expulsem “uma senhora romena que cheira muito mal“ mas que, azar dos passageiros, compra sempre bilhete. O texto termina com a autora a dizer que preferia a cadelinha.

Isto não diminui a minha indignação com o sucedido, mas é mais que suficiente para me recusar a partilhar o texto.

Ana Cristina Leonardo disse...

O texto da miúda (porque se percebe que é alguém jovem que o escreve) fala às tantas de uma passageira romena que cheira mal. Não é um comentário bonito, mas quem já esteve numa carruagem com alguém que não toma banho há mais de um mês, percebe o que a miúda quer dizer. Isso torna-a imediatamente, numa perigosa nazi. O policiamento das palavras e do pensamento (mesmo que pouco elaborado) das pessoas nunca tem bons resultados. É o que eu acho. Ponto.

Ana Cristina Leonardo disse...

Eu não partilhei o texto. Partilhei um pacote de coisas sobre o assunto porque me irrita esta precipitação toda a julgar a miúda. E já me aconteceu ter de mudar de lugar em transportes públicos porque ao lado vai alguém sentado cujo mau cheiro não suporto. Como já me aconteceu levar para casa um puto de rua cujo cheiro me agoniava ao ponto de me provocar vómitos. Insultar a miúda e vir com a história do nazismo é tão primário que me põe os cabelos em pé.

m.a.g. disse...

Nestas situações impõe-se sempre perguntar às autoridades e demais intervenientes, se estão devidamente vacinados e desparasitados. Pois é verdadeiramente repugnante que o controle sanitário não passe pela maioria dos humanos que circulam no espaço público.

m.a.g. disse...

... e afectivamente, reconforta-me saber que Hitler não era do signo Gémeos.

Rita Maria disse...

Eu afasto-me se o puder fazer sem a pessoa não notar, mas de contrário prefiro sofrer com o cheiro a humilhar outra pessoa e acho que, especialmente à medida que a miséria aumenta, temos de perguntar-nos se queremos ser o tipo de pessoas que se comove com ela no sossego da sua casa airwick mas tapa o nariz quando se cruza realmente com ela.

E, duvidando muito de que alguém lhe tenha pedido o passaporte, acho que interpreto com justeza o "romena" como preconceito e portanto o propagar dessa frase como uma contribuição para a multiplicação de um preconceito.

F.A. disse...

Gostava muito de comentar a notícia e os comentários à notícias e os comentários aos comentários da transcricão dos comentárioa à notícia.
Mas só depois de os referidos me informarem se já andaram no comboio da Linha de Sintra ou no da linha do Estoril.

alexandra g. disse...

Sou uma detractora (assim assim) do fb (que remédio, tenho lá filhas, irmãos, amigos e conhecidos), mas a minha garota grande mostrou-me esta 'notícia' que lhe estava a causar alguma perplexidade. Debicámos um pouco sobre o(s) assunto(s) e a notícia é simples, mais do que parece: a generalidade das pessoas que paga bilhete e tem os impostos em dia e obedece a tudo o que é regra não sabe o quanto fede a transpiração até em dias de Inverno, ou mesmo a eau de toilette quando viaja de manhã com aromas criados para festas nocturnas. Tenho experiência de transportes públicos q.b. para afirmar isto. O grande desafio das redes públicas passará também por uma linha de pensamento assim: somos todos jurados por sorteio e estamos à mercê da informação que nos é veiculada por forças que se opõem e com as quais ou contra as quais devemos reflectir.

Carlos Azevedo disse...

Rita,
concordo consigo quando interpreta o "romena" como preconceito. Contudo, os caminhos do preconceito são tortuosos. Não estará a ser preconceituosa quando associa o mau cheiro a miséria? Alguém refere que a senhora era miserável?
Uma curta história. A minha mãe já sofreu duas tentativas de assalto por parte do que vulgarmente se denomina por "romenas". Hoje, se lhe perguntar, ela dir-lhe-á que quando vê um grupo de "romenas" segura a carteira com mais força -- preconceito, dir-me-á. Contudo, isso não a impede, como já sucedeu, de discutir com o dono/empregado de uma pastelaria porque quer pagar uma refeição a uma criança "romena" e este não quer que a criança se sente numa mesa.
O que se segue não é dirigido à Rita. Quanto aos cães e a toda a conversa à volta do amor aos cães (que até mete nazismo, valha-lhes Deus), bem ou mal, eu sigo um princípio muito simples, que por sinal me foi incutido pela minha mãe: quem não gosta de cães, não é boa pessoa.

Ana Cristina Leonardo disse...

:)