08/02/12

E enquanto em Portugal tanto iluminado de "esquerda" quer mandar prender o Graça Moura no Brasil há quem ponha os pontos nos iis no negócio do Acordo

Tantas Páginas: O que acha do acordo ortográfico? Acha mesmo que, como dizem os editores portugueses (e muitos intelectuais), o acordo foi uma gigantesca maquinação brasileira para permitir que os livros brasileiros entrem livremente no mercado português e no africano, acabando com a indústria portuguesa do livro?

Paulo Franchetti: O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado. Foi conduzido, aqui no Brasil, de modo palaciano: a universidade não foi consultada, nem teve participação nos debates (se é que houve debates além dos que talvez ocorram durante o chá da tarde na Academia Brasileira de Letras), e o governo apressadamente o impôs como lei, fazendo com que um acordo para unificar a ortografia vigorasse apenas aqui, antes de vigorar em Portugal. O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa. Não sei a quem o acordo interessa de fato. A ortografia brasileira não será igual à portuguesa. Nem mesmo, agora, a ortografia em cada um dos países será unificada, pois a possibilidade de grafias duplas permite inclusive a construção de híbridos. E se os livros brasileiros não entram em Portugal (e vice-versa) não é por conta da ortografia, mas de barreiras burocráticas e problemas de câmbio que tornam os livros ainda mais caros do que já são no país de origem. E duvido que a ortografia seja uma barreira comercial maior do que a sintaxe e o ai-meu-deus da colocação pronominal. Mas o acordo interessa, é claro, a gente poderosa. Ou não teria sido implementado contra tudo e todos. No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didáticos. Se cada casa brasileira que tem um exemplar do Houaiss, por exemplo, adquirir um novo, dada a obsolescência do que possui, não há dúvida que haverá benefícios comerciais para a editora e para a Fundação Houaiss – Antonio Houaiss, como se sabe, foi um dos idealizadores e o maior negociador do acordo. O mesmo vale para os autores de gramáticas e livros didáticos – entre os quais se encontram também outros entusiastas da nova ortografia. E não é de espantar que tenham sido justamente esses – e não os linguistas e filólogos vinculados à universidade – os que elaboraram o texto e os termos do acordo. Nem vale a pena referir mais uma vez o custo social de tal negócio: treinamento de docentes, obsolescência súbita de material didático adquirido pelas famílias, adequação de programas de computador, cursos necessários para aprender as abstrusas regras do hífen e outras miuçalhas. De meu ponto de vista, o acordo só interessa a uns poucos e nada à nação brasileira, como um todo. Já Portugal deu uma prova inequívoca de fraqueza ao se submeter ao interesse localista brasileiro, apesar da oposição muito forte de notáveis intelectuais, que, muito mais do que aqui, argumentaram com brilho contra o texto e os objetivos (ou falta de objetivos legítimos) do acordo.
Retirado DAQUI

22 comentários:

Anónimo disse...

Minha prezada pasteleira. Penso que depois de Graça Moura devia ter posto uma vírgula. Dito isto resta-me desejar-lhe uma vitória por KO nesse combate que terça contra a esquerda e o AO.

Ana Cristina Leonardo disse...

Anónimo, no título faltam várias vírgulas: não cabiam.
Quanto ao resto, eu nunca combato a esquerda à terça. Só às sextas.

Manuel Vilarinho Pires disse...

O mundo está confuso.
Eu fico siderado por ver a forma como a esquerda tomou para si a defesa do AO, que é uma obra do cavaquismo, contra a direita.
E não quero acreditar que seja apenas por reflexo condicionado pelo facto de o Vasco Graça Moura, figura com quem a esquerda não simpatiza por razões atendíveis, ser um detrator do AO.
Porque, a ser, vou ter de rever a minha concordância com a doutrina oficialmente estabelecida em Portugal desde 1974, que a esquerda é inteligente e a direita estúpida, contra a qual o Francisco Lucas Pires dedicou uma vida de luta inglória, como se ela não fosse mais do que um preconceito de cuja injustiça ele, que era de direita mas não era lerdo, constituia uma prova viva.
Ou então, e talvez isto me seja mais fácil, considerar o gesto de rebelião do VGM, de esquerda, e o apelo à punição exemplar do rebelde, de direita (e tanto apelo à autoridade, tanta vocação nazizinha se tem revelado nestes dias...).
Afinal, para que lado nos devemos virar? Isto vai aqui uma grande confusão...

Luís disse...

Eu sou contra o AO mas se é para vender mais Houaiss...parece uma coisa boa afinal. Um pouco exagerada, mas boa.
Também me custa ouvir que os académicos nao foram ouvidos. Só com reanimação, carago.

Ana Cristina Leonardo disse...

Manuel, de facto, tempos interessantes, estes

Luís, a minha pergunta é: para quê reanimar a língua se ela estava tão animada e bem de saúde?

pedro matos disse...

A votação do AO no parlamento diz muito. Em 230, 6 votos contra.

O AO vive na esquina onde a Esquerda complexada com a modernidade - e, quem sabe, algum espectro de internacionalismo - se encontrou com a Direita, complexada com a globalização.

pedro matos disse...

Peço desculpa, afinal foram mesmo só 4.

4 votos contra:
Manuel Alegre (PS), Luísa Mesquita (ex-PCP), Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS)

Ausentes da votação: Henrique Freitas, Regina Bastos e Zita Seabra (PSD)

A abstenção (inexplicável, diga-se!): PCP, Paulo Portas, José Paulo Carvalho e Abel Baptista (CDS-PP)

pró-modernos e pró-globalização: PS, PSD, BE, e o resto do CDS

fonte:
http://dossiers.publico.clix.pt/noticia.aspx?idCanal=1063&id=1328984

Ana Cristina Leonardo disse...

a coisa é transversal. e isso ainda é mais assustador.

Manuel Vilarinho Pires disse...

Mas se a coisa é transversal (e é verdade que não lhe vejo ponta de lateralidade...), porque carga de água se tomou agora a esquerda de amores por ela?

Depois, a esperança, há sempre uma esperança...
Não sei como teria sido essa votação, mas sei que há votações feitas em catadupa em que os deputados recebem previamente da direcção da bancada uma listagem de orientações de voto (assim tipo "no x votamos a favor e no y e no z votamos contra") mas não sabem bem o que estão a votar a não ser que tenham tempo e vontade de ir previmente descodificar o que é o x, o y e o z, e de os ler. E normalmente os que têm vontade (os que andam lá a trabalhar) não têm tempo, e os que têm tempo (os que andam lá e não fazem nenhum) não têm vontade...

Anónimo disse...

A reacção ao AO atravessa a sociedade portuguesa e há gente de todas as idades, classes sociais e cores políticas que são contra o acordo.

pedro matos disse...

Interessante que seja um brasileiro a destacar os textos brilhantes e demolidores produzidos contra o AO por notáveis intelectuais portugueses. Tais foram os casos de Vitorino Magalhães Godinho, Francisco Miguel Valada, Vasco Graça Moura e António Guerreiro, entre outros.

Textos que por aqui ninguém leu. Ou que foram olimpicamente ignorados, na impossiblidade de os
rebater com um mínimo de seriedade intelectual.

Mas "neste pais uma bailarina do BigShowSIC vale tanto como uma da Gulbenkian".

Anónimo disse...

Mas qual esquerda ou direita!
O acordo foi encomendado pelo Brasil, apadrinhado pelo Sarney, que é maçon, e incumbida a maçonaria daqui de fazer engolir a coisa, usando todos os clássicos da intoxicação informativa e propaganda.
Para que quer o Brasil o acordo?
Porque pensa que isso lhe irá permitir ou facilitar ser membro permanente do conselho de segurança, a que o Brasil dá uma importância difícil de compreender.
Quer ver? De um tal Charles Kiefer, que pode ir ver quem é:
«No entanto, no campo estratégico, nos movimentos de longo prazo, o Brasil terá grandes vantagens, tanto que os outros países da CPLP resistiram por mais de um década ao acordo.
Mas quais são essas vantagens estratégicas?
A primeira delas, e talvez a mais importante, é a possibilidade de o Brasil conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Em que sentido, indagarão os céticos? O que a unificação científica tem a ver com o CS? Ocorre que, com a unificação, os falantes de língua portuguesa serão aumentados bastante, já que se somarão os habitantes de todos os oitos países. Hoje, na hora de se produzirem documentos, há uma torre de babel entre os nossos países. São clássicas, e cómicas, as situações na ONU na hora das atas, dos documentos, das produções de acordos comerciais em que o funcionário do órgão pergunta: Escreveremos em português de Portugal ou do Brasil? Após o acordo, toda a documentação será exarada num mesmo sistema ortográfico. Isto, para efeitos práticos e legais, significará que o português unificado representará mais de 250 milhões. Como o Brasil é o país económica e populacionalmente mais poderoso do conjunto da CPLP, nossas chances de ingressar no CS aumentam exponencialmente. Se algum brasileiro supõe que ombrear com EUA, Rússia, França e Inglaterra não tem importância política, económica, social e histórica deveria fazer, urgentemente, um cursinho de Direito Internacional. Fazer parte do Conselho Permanente da ONU ajudará até ao vendedor de pipocas da esquina, ao plantador de laranjas, ao professor universitário, à empregada doméstica. Até os grevistas do Cpergs terão melhores argumentos ao defenderem melhorias salariais aos que professores que ensinam uma das mais importantes línguas do planeta.
A segunda vantagem estratégica do Acordo Ortográfico é que ele torna o Brasil o maior fornecedor de bens e serviços ligados aos setores de comunicação, educação e informática dos oitos países. Dados preliminares anunciam algo em torno de 400 milhões de dólares por ano em ganhos diretos para o avançado parque editorial brasileiro, por exemplo. Dos oito países, o Brasil tem as editoras mais poderosas, as maiores e mais avançadas gráficas, o melhor e mais competente parque industrial na área dos produtos informatizados.
Se eu fosse um escritor moçambicano ou português, faria passeata contra o acordo! Mas sou brasileiro e por isso não me filio ao partido dos descontentes, dos críticos e de todos que acreditam que língua e poder não são coisas que se conjugam»
Percebe-se agora melhor?

Ana Cristina Leonardo disse...

Obrigada, anónimo. Coitada da língua, tratada como mercadoria de supermercado.

Anónimo disse...

Pior do que isso...
Ah, como perceberá isto entre parentesis (São clássicas, e cómicas, as situações na ONU na hora das atas, dos documentos, das produções de acordos comerciais em que o funcionário do órgão pergunta: Escreveremos em português de Portugal ou do Brasil? ) é totalmente mentira. Mas o método é esse.

novaziodaonda disse...

Pois eu consegui encontrar uma vantagem neste Acordo, tive de escarafunchar, mas consegui: como me recuso a comprar livros editados segundo esta tramóia, pouparei alguns euros e ficarei ainda mais cliente dos alfarrabistas.

caramelo disse...

zuvizavanovi, a pouca vergonha começou já no início do século passado. Só estás seguro se comprares nos alfarrabistas edições carimbadas e certificadas das primeiras edições dos clássicos do século XIX. Mas bom, bom, mais perto da matriz, são as edições das cantigas de amigo do Dom Dinis,
Isto está a tomar dimensões montypitianas. Que delícia.

novaziodaonda disse...

Ó Caramelo, quem te disse que eu quero "estar seguro"? Para seguro já basta o Tozé, chiça!
Concluindo, compro os livros que me apetecer e ponto final. E olha que essas edições do D. Dinis devem valer umas coroas. Por acaso não tens nenhuma para vender? Que pergunta, claro que não, tu és muito pós-moderno. (atchim... deve ser alergia.)

domingos disse...

Acho bem que o Brasil entre para o CSNU como membro permanente. Não me parece, porém, que a unificação ortográfica tenha qualquer influência relevante nessa escolha. Os votos decidem-se por outros motivos.Não dependendem de idiomas.

caramelo disse...

Homessa! Compra os livros que lhe apetecer e ponto final? Que topete!

riki jorden disse...

Obrigado por compartilhar informações sobre E enquanto em Portugal Tanto Iluminado de "Esquerda" Quer mandar prender o Graça Moura NO BRASIL QUEM ha ponha nn ósmio pontos iis não Negócio fazer a Acordo, já visitei o seu blog ótimo .....! !

Igreja Crista Brasileira Scone












jon wilson disse...

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Igreja Crista Brasileira Scone

Anónimo disse...

O pato ortográfico.