19/11/11

Os canadianos, esses sornas

Não fora a peritonite de meu pai e eu seria, se não loura, indiscutivelmente alemã.
Passo a explicar.
Antes de ser chegado o ano de 1961 (início da Guerra Colonial), o meu progenitor, cheirando-lhe que a coisa em África em breve se tornaria feia, resolveu abandonar o solo pátrio e fazer-se à estrada. Rumou à Alemanha.
Apanhou um táxi, e foi do Algarve a Hamburgo com passagem por Paris, cidade onde pôde observar pela primeira vez, ao vivo e a cores, Le baiser de l’hôtel de ville de Robert Doisneau.
Já em solo germânico, caiu em plena reedificação do país. Quando começaram a construir o Muro de Berlim, vivia na cidade e é, então, que sofre um ataque de apendicite aguda.
Estes dois factos não estarão relacionados, mas a posterior peritonite foi, sem margem para dúvida, consequência directa da infecção do apêndice intestinal.
Sobreviveu com dificuldade, para no fim ganhar um atestado que o dava como incapaz de fazer a guerra; voltou a Portugal de comboio, já Oliveira Salazar proferira a célebre frase Para Angola, rapidamente e em força.
Na fronteira, um membro da Polícia Internacional e de Defesa do Estado verifica o passaporte e estranha-lhe o regresso: a autorização de saída caducara há muito.
“O que foi o fazer à Alemanha?”, perguntou-lhe o homem.
“Aprender alemão”, respondeu meu pai.
“O senhor está ilegal. Qual a razão do regresso?”, insistiu o agente da autoridade.
“Constou-me que a Pátria estava em perigo!”, justificação que muito impressionou o PIDE que quase lhe faz continência, enquanto o meu pai acaricia o atestado que leva no bolso e remata o diálogo com um sonoro Schwein! à laia de despedida, escudado no hermetismo da deutsche Sprache.
Não fora, pois, a inflamação da membrana peritoneal paterna e eu seria patrícia de Angela Merkel, com direito apenas a 10 feriados anuais contra os 14 portugueses, o que explica decerto a pujança teutónica versus recessão lusa, se bem percebi o discurso do Ministro da Economia recentemente chegado de terras do Canadá onde, por acaso, o regabofe é igualzinho ao nosso.

9 comentários:

Rita Maria disse...

Os 10 da Alemanha também são mentira, os números variam de Estado para Estado e vão de 9 a 13 (http://de.wikipedia.org/wiki/Feiertage_in_Deutschland).

Isto vale o que, mas os dois que têm 12 e 13 são os Estados mais ricos da Alemanha :)

Cristina Torrão disse...

Além disso, os alemães têm mais férias do que os portugueses. Os funcionários públicos, essa raça maldita à qual o meu marido alemão pertence, têm seis semanas inteirinhas de férias por ano (mais um ou dois dias, porque, na verdade, são 31 ou 32 dias úteis). Quem precisa de mais 2 ou 3 feriados? :P

henedina disse...

A foto está perfeita para o post.

MCS disse...

E depois teríamos uma meditação na salsicharia? Nah, está bem assim. Na pastelaria. Prefiro as bolas de Berlim, os pastéis de Belém ou mesmo os pastelinhos de bacalhau.

Já ouvi um zumzum que o ministro Álvaro pretende corrigir essa falha grave no nosso calendário e que o mês de Fevereiro passará a ter 31 dias e assim aumentar a produtividade tuga.

Ivone Costa disse...

Agora percebi com quem aprendeu a dar belas repostas. :)

m.a.g. disse...

Filha de peixe sabe sempre nadar.

Filoxera disse...

Olá, Ana Cristina.
Vim aqui ter através do link no blogue do Carlos.
Gostei.
Até breve.

NanBanJin disse...

Ai! os feriados, os feriados, Cara Ana Cristina...

Olhe, no Japão são 15, fora as festividades locais, e alguns deles todos seguidinhos — os de Maio então, chamamos-lhe um figo: 3.5, Dia da Constituição (憲法記念日— Kenpō Kinenbi), 4.5, Dia das 'Verduras' (みどりの日 — Midori no Hi — genial, hein?) e 5.5, Dia das Crianças (子供の日— Kodomo no Hi), maravilha é ou não é? e uns dias antes, 29.4, ainda temos o Dia de Shōwa (昭和の日— Shōwa no Hi), em memória do falecido que era amado como um deus na terra, liderou o país na última guerra, ao lado dos maus, e ainda teve direito a reinar até 1988... fenomenal... Bom, claro está, aqui não há Natal... nem Páscoa tão-pouco — oh que pena!...
Agora eles que se lembrem de averiguar e dissertar sobre os terríveis, nefandos efeitos que 15 feriados nacionais, mais uns quantos regionais, têm na 2ª maior economia mundial.

É caso para cantarolar, 'daqui não saio, daqui ninguém me tira!'...

Boa semana,

Luís F. Afonso

Ana Cristina Leonardo disse...

Filoxera, obrigada... e volte sempre
Luís, não volte!!!!
-:)