12/09/11

Buy! Buy! Buy! Sell! Sell! Sell! É a loucura!

Juros da dívida grega a 12 meses ultrapassam os 100%

12 comentários:

Pedro M. disse...

Está na altura de uma breve reflexão:

http://www.youtube.com/watch?v=R5hdE9YSfEQ

Manuel Vilarinho Pires disse...

Não é loucura nenhuma.

A Grécia na semana passada até colocou dívida a juros inferiores a 5%:
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=504709

Isto significa que um credor compra à Grécia por cerca de 95 uma obrigação que lhe promete pagar 100 no prazo de 12 meses.
Se a meio do prazo esse credor decide vender a obrigação, pode fazê-lo no chamado "mercado secundário".
Dada a elevada probabilidade de a Grécia não vir a reembolsar a obrigação no fim do prazo, não a consegue vender a não ser a um preço muito descontado face ao seu valor inicial. Se a vender a 50, a taxa de juro implícita é de 100% (o comprador compra por 50 algo que lhe "garante" 100 no fim do prazo).
Quando isto acontece, o primeiro credor perdeu quase metade do que investiu; a Grécia continua a ter de pagar o juro original, neste caso de 5%; e o segundo credor ganhará 100% se a Grécia reembolsar a obrigação, e poderá perder tudo, se a Grécia não a reembolsar.

A ideia de que estes juros exorbitantes são exigidos à Grécia e castigam os gregos, ou a revolta do povo grego contra os mercados, tão querida à esquerda, é delirante. Castigam os credores da Grécia, que vêem o seu investimento violentamente desvalorizado pela elevada probabilidade de a Grécia não pagar o empréstimo no fim do prazo.
Não é para ter pena deles. Ganharam muito enquanto emprestaram sem risco de calote. Mas também não é para ir atráz da história da coitadinha da vítima destes malandros...

Pedro M. disse...

"A ideia de que estes juros exorbitantes são exigidos à Grécia e castigam os gregos, é delirante."

Os juros são pagos em parte com programas de cortes sociais, e outras medidas recessivas, por isso existem vítimas.

A esquerda só acha que os cortes sociais não resolvem problemas estruturais, sendo que a aplicação de políticas recessivas e contracção o investimento parecem difíceis de justificar em plena crise, especialmente se os credores tiverem a expectativa de reaver o investimento.

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Pedro,
Os juros que são pagos são-no, obviamente, sacrificando gastos alternativos. Sejam gastos sociais, sejam gastos somptuosos. Mas são os juros a que as obrigações são emitidas. No exemplo recente que dei, inferiores a 5%.
Os juros exorbitantes, que já atingem 100%, não são juros para pagar a ninguém. São o resultado de as obrigações serem vendidas no mercado secundário abaixo do seu valor nominal, prejudicando exorbitantemente os credores que as compraram na emissão. São o resultado de uma fórmula matemática cujos factores são o valor nominal da obrigação (que em princípio deveria ser reembolsado pela Grécia no final do prazo) e o valor a que os credores as vendem no mercado secundário a outros credores, sem qualquer impacte nas obrigações financeiras da Grécia.
Por isso é delirante pensar algo como "os mercados exigem 100% de juros à Grécia", os juros exigidos à Grécia (exigíveis, porque parece que não os vai conseguir pagar) são mesmo os contratualizados na emissão da obrigação.

Ana Cristina Leonardo disse...

São o resultado de uma fórmula matemática cujos factores são o valor nominal da obrigação (que em princípio deveria ser reembolsado pela Grécia no final do prazo) e o valor a que os credores as vendem no mercado secundário a outros credores, sem qualquer impacte nas obrigações financeiras da Grécia.

E isso não lhe parece uma loucura?

Manuel Vilarinho Pires disse...

Ana Cristina, é tão loucura como dizer que a aceleração é a variação na velocidade a dividir pelo tempo.
Seja como for, podemos-lhe chamar juro (em Inglês chama-se "yield" e não "interest rate"), mas não é a percentagem que é exigida a alguém para lhe conceder uma dívida, aquilo que intuímos normalmente por juro e que, se atingisse um valor da ordem dos 100%, seria mesmo confiscatório, de suscitar indignação e, mesmo, revolta.
Este, representa apenas a desvalorização que os títulos de dívida têm por ser provável que ela não venha a ser reembolsada (e o grau de perda do credor, não do devedor).

Ana Cristina Leonardo disse...

Manuel, estou sempre a aprender consigo
-:)
de qq forma, continuo a achar que é uma loucura - atendendo a que os yield não andam por aí à solta pelo espaço independentemente da nossa vontade...

Manuel Vilarinho Pires disse...

Se considerar loucura uma dívida não ser paga, um yield alto é uma loucura.
Mas o que eu queria deixar claro, porque já percebi que não é claro para muita gente, é que um yield alto não é nenhuma exigência de juros altos a um devedor para lhe emprestar dinheiro, mas sim a penalização de quem lhe emprestou e já tem pouca esperança de reaver o dinheiro que emprestou.
A vítima de um yield alto não é o devedor, é o credor...

Ana Cristina Leonardo disse...

Manuel, o sistema financeiro é uma loucura! E deixar um país como a Grécia à beira da bancarrota é outra. E se estes credores são vítimas, eu sou a Cristina da Suécia...

Carlos Azevedo disse...

... com punhal?
(http://www.classicmoviefavorites.com/garbo/garbo09.jpg)

jaa disse...

De forma simplista: comprei títulos de dívida grega acreditando receber 5% de juros; assustado porque a Grécia parece não ir pagar, vendo os títulos mas só consigo que mos comprem por metade (ou, como Manuel Vilarinho Pires explica no primeiro comentário dele, por um pouco mais de metade) do valor a que os comprei. A Grécia continua a ter de pagar 5% de juros. Onde está a estranheza?

Manuel Vilarinho Pires disse...

A estranheza está, creio eu (Ana Cristina, diga-me se estou a pressupor mal, por favor), em se acreditar que estes "juros" de 100% significam que os credores só emprestam dinheiro à Grécia se a Grécia lhes pagar juros de 100%, o que seria de uma usura escandalosa.
A estranheza está também em haver dentro da esquerda quem, sabendo o que eles significam (há mesmo Doutorados em economia, como o Louçã, o Pureza ou o Castro Caldas), deixa alastrar esta interpretação errada, talvez porque suporta a sua visão de perversidade dos mercados e do capitalismo.
Mas tem tanto sentido disseminar esta interpretação como dizer que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno almoço, e contribui tanto para a derrota do capitalismo como a história do pequeno almoço contribuiu para a derrota do comunismo...