02/06/11

O que eu não perdoo a Sócrates e seus muchachos

O meu coração bate à esquerda desde pequenina. Resultado também, com certeza, de ter nascido numa terra de marítimos que, no dizer de Raul Brandão, (…) são generosos, imprevidentes e comunistas.
É por isso que não perdoo a Sócrates ter subvertido todas as boas ideias que, nascidas na esquerda, se viram transformadas em operações de marketing, esvaziadas de sentido e convertidas a mero negócio.
Igualdade na educação, novas oportunidades, energias alternativas, democratização tecnológica, parcerias público-privadas, avaliação de desempenhos… Acrescente-se-lhe o rol de negociatas, o trabalhar para as estatísticas, o roubo descarado (em alguns casos), o fanatismo, a intolerância, a ignorância, o modernismo para pacóvio ver (o que foi o acordo ortográfico se não uma forma de vender dicionários?), a demagogia a roçar o delírio, a promoção e enriquecimento ilícito de gente inclassificável, parasitas de um Estado que se deixa à beira da bancarrota mas com os bolsos (de alguns) bem recheados… é tudo isso que eu não perdoo a Sócrates.
E, sobretudo, não lhe perdoo que, com tudo isso, nos entregue de bandeja à direita.
Vá-se lixar senhor engenheiro!

20 comentários:

MCS disse...

E resta acrescentar que para quem nasce em terra de marítimos, dizer "Vá-se lixar senhor engenheiro!", é um grande esforço de contenção.
(digo eu que também nasci numa terra de pescadores, no Norte.)

Anónimo disse...

Eu sou de direita. E, por mim, como subscrevo - entusiasticamente - tudo o que diz, pode ficar descansada.
Tenho algumas apreensões, mas ser pessimista é um atributo da direita.
Aliás, tem a certeza que é de esquerda? :)

Luis Serpa disse...

O Raul Brandão enganou-se. Os marinheiros são generosos e imprevidentes (eu sou marinheiro como V. é de esquerda, de coração e de pequenino); mas não são comunistas. Muito antes pelo contrário: são individualistas. Solidários, mas individualistas. E habituados a pensar hierarquicamente (sabe como é que se dividem os proveitos a bordo de uma embarcação de pesca?)

Isto dito, estamos de acordo no essencial: o ócrates é um bandido e uma desgraça. Na desgraça estou a marimbar-me (as coisas são o que são, é um mantra dos marinheiros, e não como nós queríamos que elas fossem); mas no bandido não. E gostava de lhe dar um pontapé no cu, já no domingo.

Até prolonguei a minha estadia em Portugal, para ter esse prazer.

Ana Cristina Leonardo disse...

MCS, tens razão. Contive-me e de que maneira.
Anónimo, sou de esquerda, sou (sorriso). E essa coisa do optimismo/pessimismo daria panos para mangas...
Luís, o RB não se enganou. A palavra é usada (no seu contexto de época) exactamente nesse sentido: solidário. E claro que são individualistas. Mas só um individualista pode ser verdadeiramente solidário, ou não?
Quanto ao mantra dos marinheiros, eu chamar-lhe-ia sabedoria. E bem me esforço, bem me esforço. Oxalá consiga...

Carlos Azevedo disse...

Subscrevo, Ana Cristina. E não lhe podemos perdoar também por uma razão que não refere: só merece o nosso perdão quem, pelo menos, se arrepende. Eu, que não nasci numa terra de pescadores mas nasci no Porto, mandava-o para o sítio certo, mas não baixo o nível da pastelaria.
Abraço.

JARRA disse...

O seu artigo fez-me lembrar duas histórias:
A primeira sobre Leonor Beleza, agora reciclada com capitais privados, que quando foi ministra conseguiu com a sua raiva e inabilidade política destruir por 25 anos (para sempre) uma ótima ideia - a exclusividade dos médicos no SNS, que de resto não era um rasgo propriamente de direita.
A segunda sobre José Régio - um jovem vilacondense, mais tarde o dentista Dr. Pacheco de Miranda pediu-lhe uma leitura/comentário/aconselhamento sobre um conto, mais tarde publicado como "Pecheblenda". Como estranhasse a demora da ansiada análise, um dia abordou o mestre pressionando-o numa resposta, ao que José Régio terá dito:
- A ideia pareceu-me muito boa ... mas da próxima vez que tiveres uma ideia boa dizes-me, não vás tu estragá-la outra vez!

De boas intenções estão as administrações das empresas cheias!
Para onde irá Sócrates?

AMCD disse...

Na mouche!

É isso mesmo. A Esquerda está de luto. Algo morreu com o mandato de Sócrates. Com o governo de Sócrates os ideais de esquerda foram subvertidos, transformados "em operações de marketing, esvaziadas de sentido e convertidas a mero negócio". Não há melhor resumo de que este. Excelente!

Só assim se explica que num contexto de ruína, bancarrota e roubo despudorado, a Direita se prepare para ocupar o Poder e assim fazer o pleno: um Presidente e um Primeiro-ministro.

Os portugueses vão lançar-se nos braços de quem os vai trocidar.

Sócrates preparou o terreno.

m. disse...

Nasci no Alentejo e também sou de esquerda. Assino por baixo.

fallorca disse...

Nasci na Beira e sou monárquico.
Assino por baixo
fiufiu...

Ana Cristina Leonardo disse...

fallorca, essa parte da beira é que... bom... não digo mais nada
-:)

AMCD disse...

No meu comentário, onde se lê "trocidar", leia-se, "trucidar".

Irra, diabo dos erros!

fallorca disse...

Cada um foi educado no meio em que foi
eheh

Anónimo disse...

Pois cá para mim, quem está de luto é um albergue espanhol chamado PS.

Fernando Gouveia disse...

«só um individualista pode ser verdadeiramente solidário, ou não?».

Muito bem dito. Ao contrário do que muitas vezes se diz, a sociedade agrária (que já quase não existe e alguns lhe vão carpindo a morte) não era solidária: era comunitarista. Isso quer dizer apoiar os seus (enquanto eles se submeterem aos ditames do todo, à tradição) e desprezar os de fora, o desconhecido, o estrangeiro, o diferente; por vezes o desprezo assume a forma de aversão ou mesmo de ódio, sendo este especialmente forte em relação aos estranhos próximos (rivalidades insanáveis com a aldeia vizinha e bairrismos afins) e, acima de tudo, aos “nossos” que se extraviaram, i.e, que se retiraram da obediência ao todo (valor supremo do comunitarismo).

A verdadeira solidariedade surge quando a dicotomia nós/os outros desaparece ou se esbate fortemente. É aí que nos oferecemos como voluntários para ajudar as vítimas de um tsunami no Sri Lanka ou damos dinheiro para ajudar as vítimas de um terramoto no Haiti — pessoas que desconhecemos, que o mais certo é nunca as vermos e elas nunca saberem que *nós* as ajudámos, e com quem provavelmente teremos muito pouco em comum, a nível cultural (nomeadamente a nível religioso, factor supremo de segregação nas sociedades agrárias, comunitaristas).

cs disse...

assino, assino e assino e apetecia-me mandar uns açoites ao engenheiro de obra feita . Vaidoso do caraças.

Também me questiono:para onde irá SÓcrates? que administração vai ele estragar? que tacho lhe vão arranjar?

Já sei, caixeiro viajante de Magalhães, não acha boa ideia?

Sim que Sócrates consegue vender frigoríficos no Pólo Norte,acho eu.

fallorca disse...

«Sim que Sócrates consegue vender frigoríficos no Pólo Norte» 5 estrelas
(que eu não me engano como no «Expesso»)

F disse...

ACL, subscrevo tudo!

fallorca disse...

Lembras-te disto?
http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/search/label/Henrique%20Neto

Confirma-se a tendência:
http://www.publico.pt/Política/socrates-apelou-ao-voto-num-dia-particularmente-feliz-para-um-democrata_1497571

F disse...

http://www.attacmallorca.es/2011/06/05/stiglitz-afirma-que-las-politicas-de-austeridad-condenan-a-los-paises-a-la-debilidad/

Anónimo disse...

Concordo no essencial.