06/06/11

Notas soltíssimas sobre a noite eleitoral e adeus pepinos

1. Há muito tempo que não via tanta televisão
2. O PS de José Sócrates levou uma abada muito maior do que estava previsto (não chega aos 30%)
3. Vieira da Silva, do PS, parece estar prestes a desfazer-se em lágrimas
4. O António Vitorino não comenta a eventual demissão do Grande Líder e face à insistência de Judite de Sousa sobre o que Sócrates devia fazer dada a previsível derrota, responde que só não está no lugar do outro porque não quis
5. Judite de Sousa mudou de penteado. Envelhece-a mas fica-lhe muito melhor
6. A maioria dos comentadores não diz nada que um português com a antiga quarta classe não conseguisse dizer
7. A esquerda perdeu. Obrigada José Sócrates!
8. Uma jornalista mostra uma sede de campanha e diz que um dos líderes (não me lembro qual) vai vir para o púlpito mais tarde na noite (sic)
9. O Vitalino Canas faz boquinhas e diz que só fala depois do Grande Líder
10. Uma porta estilhaçou-se no Altis. É de filme
11. Sócrates faz um discurso interminável. Deu o seu o melhor. Ama Portugal e os portugueses. Ele ama-me, porra! Sinto um arrepio. E acaba a dizer que vai para casa tomar conta dos filhos
Julgo ver os olhos marejados de lágrimas de Silva Pereira mas não consigo comover-me (e eu fico sempre triste pelos que perdem – mesmo quando não os gramo: mariquices)
12. Os jornalistas fazem perguntas. Ouço apupos da cozinha. Não gosto de ver bater em quem acaba de se estatelar mesmo quando a queda é merecida: mariquices
13. Os discursos de todos os líderes partidários deviam ter acabado três parágrafos antes. Falta-lhes, certamente, sentido dramático. Até Portas, que costuma ser o mais demagogicamente articulado
14. Fico assustada com as referências agradecidas às juventudes partidárias. Afinal, eu conheço-as. Costumam passar aqui ao pé da minha casa. Andam de batina preta e cantam (eles e elas): É o caralho/ é o caralho… e etc.
15. Passos Coelho discursa. O casaco assenta-lhe terrivelmente mal nos ombros. O corte é péssimo e antiquado. O novo primeiro-ministro devia perguntar a Sócrates (ou mesmo a Portas) quem lhe faz os fatos
16. O inglês de Passos lembra-me qualquer coisa
17. Cantam o hino nacional (o que me recorda sempre as aulas de canto coral desafinadas da minha juventude) e alguém anuncia na TV um programa qualquer com a Fátima Campos Ferreira. Uma mulher não é de ferro. Volto para casa e vou dormir. Leio um bocadinho de O Caso dos Macacos Lendários de Erle Stanley Gardner (já tenho uma ideia sobre quem poderá ser o assassino)
18. Enquanto isto, a Europa descobre que o problema não está nos pepinos mas talvez resida na soja. Nada disto é sério, embora seja trágico

14 comentários:

Inês Francisco Jacob disse...

Brilhante!
Brilhante este post. Benditos 18 tópicos/notas. Perspectiva bem interessante da noite passada.

Carlos Azevedo disse...

Um excelente apanhado, embora eu não negue que achei merecida a derrota/humilhação de Sócrates; só não festejo porque a situação não está para festejos. E o discurso dele, na despedida, foi muito bom, de facto, mas não me disse nada.

Ana Cristina Leonardo disse...

Inês, que exagero! Beijinhos

Carlos, não percebo essa do grande discurso. O homem repetiu-se vinte vezes e acabou a meter os filhos ao barulho. O português foi mais do que pobre, falou tempo demais e não avançou uma leitura dos resultados que fosse. Grande, porquê? Por se ter demitido? Mas o que é que ele podia fazer depois de levar o PS ao tapete com menos de 30%? Ou a malta deixou de ler grandes discursos, ou confunde o facto de Sócrates se ter ido embora (mandado embora)com grandeza. Francamente, não percebo.

Carlos Azevedo disse...

Ana Cristina, eu escrevi: «E o discurso dele, na despedida, foi muito bom, de facto, mas não me disse nada.»
Retira daí que eu tenha considerado o discurso um «grande discurso»? Comparável, sei lá, a um de Martin Luther King? Não foi o caso. Considerei-o um discurso articulado, melhor do que aquilo que por cá estou habituado a ouvir da boca dos derrotados (e até da dos vencedores).
Quanto ao que a malta lê, nada posso dizer-lhe, porque eu, apesar de ter votado num partido que valoriza o colectivo (enfim, lá teve de ser), só falo por mim.

Ana Cristina Leonardo disse...

Carlos, grande ou "muito bom"; não achei nada. E o português desta gente até arranha de tão pobre que é...

E acho mesmo que a "malta" não pode baixar a fasquia (a "malta" refere-se a várias pessoas que já ouvi gabarem-lhe o discurso).
E, por acaso, até gostava de ver a coisa escrita...

Carlos Azevedo disse...

«E, por acaso, até gostava de ver a coisa escrita...»

A Ana Cristina tem o e-mail do Luís? ;-)

Luis Serpa disse...

"15. Passos Coelho discursa. O casaco assenta-lhe terrivelmente mal nos ombros. O corte é péssimo e antiquado. O novo primeiro-ministro devia perguntar a Sócrates (ou mesmo a Portas) quem lhe faz os fatos"

Não partilho a sua tristeza com a derrota da esquerda; mas partilho todos as soltíssimas notas, como sempre um prazer de ler.

Com excepção desta do fato. Tal como não devemos julgar um político pela maneira como fala (excepto talvez negativamente, com desconfiança: quanto melhor falar mais se desconfia dele), menos ainda pela roupa. Um PM que não sabe vestir-se é uma corrente de ar fresco na paisagem político-audiovisual portuguesa (que outros designam acronimamente por PP-AP).

Ana Cristina Leonardo disse...

Luís, vejo que tb. reparou no mau corte da fatiota
:-)

Luis Serpa disse...

Era difícil não reparar, Ana Cristina.

Manuel Vilarinho Pires disse...

(Saltando por cima das miudências, directamente para o cerne da questão, o ponto 15, claro.)

Só vi agora o telejornal e no telejornal o fato estava mesmo um bocado torto. Mas não sei se ganhará grande coisa em pedir conselhos ao predecessor.

À uma, o predecessor alegadamente compra fatos em lojas onde ele não seria sequer admitido e onde um fato custa uns milhares de contos. E é curioso ver como dois contribuintes com declarações de IRS tão semelhantes têm um padrão de consumo tão díspar. Ou os perto de 100.000€ por ano dão para viver em Massamá e vestir na Maconde, ou dão para viver no Marquês de Pombal e vestir em Rodeo Drive. A quem o valor parece uma fortuna, posso esclarecer que a resposta certa vai mais pela alínea a).

A segunda é que a influência da qualidade da farda no sucesso eleitoral pode ser menos determinante do que alguns pensam (fico melhor assim... ou assim, Luís?). Em Portugal, os políticos com algum sucesso preferem a Rosa & Teixeira, como o Sócrates ou o Mário Soares, mas também a Maconde, como o Cavaco e o Coelho (este está para provar se entrará para o clube dos políticos de sucesso). Vestir mais barato não parece prejudicar determinantemente as hipóteses de sucesso político. Provavelmente não ganhará grande coisa em gastar o subsídio de férias numa camisa, uma gravata e dois pares de peúgas...

N. disse...

perdeste o qualquer coisa Seguro a não querer dizer nada, depois o jornalista a informar que ele, afinal, sempre iria "declarar" quando saísse do elevador; ele, o qualquer coisa Seguro sai e diz que não quer (queria) dizer; o jornalista: mas então porque nos informou que ia dizer quando descesse? e ele, o qualquer coisa Seguro: ah, mas eu não disse que ia dizer, os senhores é que estavam aqui à minha espera...

tirando esta parte, tu viste mais coisas do que eu vi. Cantaram o hino? oh oh...é como na selecção (futebol)hino,bandeiras, apitos, bebedeiras de orgulho nacional. Com alguma sorte apanhamos com a Grécia na final e desta feita vamos ganhar. :-)

fallorca disse...

«Cantaram o hino? oh oh...é como na selecção (futebol)hino,bandeiras, apitos, bebedeiras de orgulho nacional.»
O míope de um blogue moçambicano não deu por isso: hino em eleições, ele esperneia; se for na bola, embebeda-se
É uma alegria

Anónimo disse...

Reparei no fato, anteontem. E reparei que era o mesmo ontem. E, pela primeira vez, senti alguma simpatia por Passos Coelho, farto que estava do compostinho possidónio, da farda anónima do outro gajo e farto que estava de confundirem aquela coisa anónima com vestir bem - o que se passa muito longe da espampanância nova-rica de Rodeo Drive ou de Armanis, etc.

Carlos Azevedo disse...

Ana Cristina, como afirmou que gostava de ver a coisa escrita, aqui está o discurso: http://corporacoes.blogspot.com/2011/06/um-discurso.html