11/06/11

Não É o Fim do Mundo

“Entre a dor e o nada, escolho a dor”, escreveu William Faulkner, velho sulista tímido que nos deixou coisas tão preciosas como O Homem e o Rio, conto que na sua edição original aparecia intercalado com Palmeiras Bravas, uma história (de amor) trágica de onde a citação é retirada.
Lembrei-me dela a propósito da notícia dos velhos japoneses que se ofereceram como voluntários para trabalhar em Fukushima e isto porque, à partida, a cultura nipónica me é estranha, demasiado silêncio, demasiado vazio, o Nada.
O gesto é comovente. Não porque se ofereçam à morte (deixemos isso para Mishima), mas porque se oferecem em sacrifício.
Morrer é fácil. “Morrer é só não ser visto”, resumiu apropriadamente Pessoa. Dispor-se à possível agonia, mesmo se controlada, remete-nos para o altruísmo, o valor moral mais radical. Woddy Allen disse algo parecido em Manhattan, filme belíssimo de 1979, muito antes, pois, de o realizador se ter convertido ao exotismo europeu:
“Talento é sorte. A coisa mais importante na vida é a coragem. (…) Se nós os quatro fossemos para casa pela ponte e uma pessoa se estivesse a afogar, será que teríamos coragem… Teria algum de nós coragem de se atirar à água gelada para salvá-la?”.
Esta cena persegue-me há vários anos. Há muitos mesmo, considerando que a primeira vez que vi o filme poderia ser a jovem Tracy (personagem representada pela Mariel Hemingway) e hoje nem com muita maquilhagem conseguiria encarnar Mary (uma Diane Keaton ainda longe, então, de poder fazer de avó).
Claro que a coragem tem os seus quês. Há sacanas corajosos que mais valia que o não fossem, enquanto o altruísmo é uma qualidade moral sem arestas. Talvez a única e, certamente, a mais exigente.
Como diria o meu único mestre, por acaso outro realizador – Billy Wilder (citado aí ao lado) – "Um mundo capaz de produzir o Taj Mahal, William Skakespeare e pasta de dentes às riscas não pode ser mau de todo”. Acrescentar-lhe-ia eu os velhos voluntários de Fukushima, certa de que são coisas assim que nos reconciliam com o mundo.

6 comentários:

fallorca disse...

Naice :)

Maria A disse...

Belo texto. Parabéns pelo blog que é dos melhores que conheço.
Ah, vou entrar também na fase "the best is yet to come". Agradeço a dica.

-pirata-vermelho- disse...

Um belíssimo texto seu, mais pela conceptualidade que pelas intenções lidas; que dessas está o mundo cheio....

-pirata-vermelho- disse...

(Apesar de 'a sardónica' ao exotismo europeu. Estava a falar de civilização?)

Manuel Vilarinho Pires disse...

Bom dia, Ana,

A história deles é ainda mais impressionante noutros planos.
Ao apresentarem em defesa da iniciativa o argumento de que a sua esperança de vida média já é inferior ao tempo médio de desenvolvimento do cancro, escondem o altruísmo por trás de uma cortina de calculismo. Escondem da mão direita o que a esquerda dá.
Não é apenas uma lição de altruísmo, é também uma lição de recato, essa virtude tão exibida e tão pouco praticada.
Para eles, as nossas orações, sejam elas o que forem para cada um de nós e orando cada um do modo que lhe seja possível e querido.
Eu proponho esta,
http://www.youtube.com/watch?v=o4VFZQirRGU
do Vinícios, que era um tipo catita, e dos Secos & Molhados, esses extra-terrestres que aterraram no Brasil da ditadura militar para espalhar a liberdade e a alegria.

PS: Ah, aquela sua ideia de, mais dia, menos dia, andarmos a eleger plantas, como se o mundo seguisse o seu fado sem capacidade para nos surpreender, é capaz de pecar um bocadinho por pessimismo, não? :-)

Banda in barbar disse...

os velhos geralmente afundam-se na nostalgia

e pensam que um suicida neonazi e saudoso do Bushido na década de 70 representa o Japão em 2011

propaganda ó pessoa de idade já avançada