10/04/11

Do Platão ao bailinho da Madeira passando pelas favas acaralhadas

O retrato do artista enquanto saltimbanco, tão difundido ao longo do século XIX em imagens hiperbólicas e voluntariamente deformadoras, renasceu, no nosso tempo, graças aos ‘festivais de literatura’. Curiosamente, a arte literária, que tinha ficado fora do retrato, tornou-se entretanto o seu modelo de eleição. Os festivais onde o escritor se apresenta como saltimbanco têm os seus antepassados no teatro de feira, nas “fêtes foraines”, no mundo cómico e farsante das “troupes”, dos “bouffons” e dos acrobatas. Pese embora o esforço que muitos participantes fazem para disfarçar essa incómoda linhagem, ela surge com toda a evidência quando entra em ação o grande “clown” da commedia literária — misto de Pierrot e Arlequim — que se chama Eduardo Pitta. Leia-se o que este rei da irrisão involuntária escreveu no seu blogue sobre o Festival Literário da Madeira para percebermos o que é esse mundo feérico, onde as proezas funambulescas do escritor se dissipam numa apoteose gastronómica. Quando ele chega, uma glória fácil espalha a sua luz e converte tudo em luxo, degustação e volúpia. Ou, nas palavras do artista, “gossips & drinks”. Não fosse ele poeta, não fosse a sua exuberância de clown admirada pelos seus pares como um equivalente alegórico do ato poético e aplaudida como um feito da mais genial “bouffonnerie” (é ele que fala da “versão madeirense de ‘La grande bouffe’”) e ninguém lhe perdoaria a licenciosidade com que transforma um festival literário num piquenicão para “happy few” (utilizando uma expressão que lhe é cara). A um festival, mesmo literário, não se pede ascetismo. Mas, para o seu prestígio, não convém a pantomima de um Arlequim que descreve como “grande bouffe” o que os seus anfitriões apresentam como pura substância espiritual.
Texto assinado por António Guerreiro no Expresso deste sábado a propósito de uma coisa chamada Festival Literário da Madeira

11 comentários:

Carlos Azevedo disse...

O texto é a propósito do Festival Literário da Madeira? A sério? Parece-me mais um ataque pessoal; nada contra, nem a favor, mas mais vale tratar a coisa pelo nome.

Ana Cristina Leonardo disse...

é a propósito.
a sério.
não lhe parece, é um ataque pessoal a um "estilo".
a coisa, como lhe chama, é tratada pelo nome.
mas, já agora, tem alguma proposta de título alternativo? (o título é meu mas estou aberta a sugestões)

fallorca disse...

com xarrinhes alimades

jaa disse...

A vida dos Kardashians fica subitamente tão corriqueira...

P.S.: Como você não vê televisão, Ana Cristina, talvez seja conveniente explicar que os Kardashians são uma família que ficou famosa fazendo programas televisivos sobre a sua (deles) própria vida de gente que fica famosa fazendo programas televisivos sobre a sua própria vida. Confusa? You won't be after next week's episode of... Soap. (Pelo desculpa, não resisti; a minha costela infantil é demasiado forte.)

Carlos Azevedo disse...

Antes de mais, muito obrigado pelos esclarecimentos. Apenas 3 observações: (1) a expressão 'coisa' não se referia a Eduardo Pitta: leia-se 'assunto'; (2) a Ana Cristina Leonardo escreveu que o texto era a propósito de uma coisa chamada Festival Literário da Madeira, mas não me pareceu, só isso; (3) quanto ao título, sei que é seu, e até achei piada às 'favas acaralhadas'.

fallorca disse...

«...achei piada às 'favas acaralhadas'...»
Carlos Azevedo, então se as provasse, não ficaria só pela piada

Carlos Azevedo disse...

fallorca, favas com chouriço era a especialidade da minha avó paterna, duriense de gema, infelizmente, já falecida -- por sinal, e não a despropósito, uma mulher de tomates.

fallorca disse...

Abençoada Senhora, que os legou ao neto :)

Anónimo disse...

Ó Ana Cristina, mas é impressão minha ou o «Da Literatura» até costumava constar das suas ligações neste blogue?

Adalberto Silva

Ana Cristina Leonardo disse...

Adalberto: ... e?

FNV disse...

A tonelada de estrangeirismos do texto lembram-me Kraus: são cancro na escrita.
E claro que é gossip e má língua ( a mesma de que o autor se queixa, é o habitual).