25/10/10

A crise e as formas de a esconjurar porque a única coisa inevitável é a morte e um orçamento não passa de um orçamento


Alinhar ao centroDECLARAÇÃO

As medidas que o Estado português se prepara para tomar não servem para nada. Passaremos anos a trabalhar para pagar a dívida, é só. Acresce que a dívida é o menor dos nossos problemas. Portugal, a Grécia, a Irlanda são apenas o elo mais fraco da cadeia, aquele que parte mais depressa. É a Europa inteira que vai entrar em crise.
O capitalismo global localiza parte da sua produção no antigo Terceiro Mundo e este exporta para Europa mercadorias e serviços, criados lá pelos capitalistas de lá ou pelos capitalistas de cá, que são muito mais baratos do que os europeus, porque a mão-de-obra longínqua não custa nada. À medida que países como a China refinarem os seus recursos produtivos, menos viável será este modelo e ainda menos competitiva a Europa. Os capitalistas e os seus lacaios de luxo (os governos) sabem isso muito bem. O seu objectivo principal não é salvar a Europa, mas os seus investimentos e o seu alvo principal são os trabalhadores europeus com os quais querem despender o mínimo possível para poderem ganhar mais na batalha global. É por isso que o “modelo social europeu” está ameaçado, não essencialmente por causa das pirâmides etárias e outras desculpas de mau pagador. Posto isto, tenho a seguinte declaração a fazer:
Sou professor há mais de 30 anos, 15 dos quais na universidade.
Sou dos melhores da minha profissão e um investigador de topo na minha área. Emigraria amanhã, se não fosse velho de mais, ou reformar-me-ia imediatamente, se o Estado não me tivesse já defraudado desse direito duas vezes, rompendo contratos que tinha comigo, bem como com todos os funcionários públicos.
Não tenho muito mais rendimentos para além do meu salário. Depois de contas rigorosamente feitas, percebi que vou ficar desprovido de 25% do meu rendimento mensal e vou provavelmente perder o único luxo que tenho, a casa que construí e onde pensei viver o resto da minha vida.
Nunca fiz férias se não na Europa próxima ou na Índia (quando trabalhava lá), e sempre por pouco tempo. Há muito que não tenho outros luxos. Por exemplo: há muito que deixei de comprar livros.
Deste modo, declaro:
1) o Estado deixou de poder contar comigo para trabalhar para além dos mínimos indispensáveis. Estou doravante em greve de zelo e em greve a todos os trabalhos extraordinários;
2) estou disponível para ajudar a construir e para integrar as redes e programas de auxílio mútuo que possam surgir no meu concelho;
3) enquanto parte de movimentos organizados colectivamente, estou pronto para deixar de pagar as dívidas à banca, fazer não um, mas vários dias de greve (desde que acompanhados pela ocupação das instalações de trabalho), ajudar a bloquear estradas, pontes, linhas de caminho-de-ferro, refinarias, cercar os edifícios representativos do Estado e as residências pessoais dos governantes, e resistir pacificamente (mas resistir) à violência do Estado.
Gostaria de ver dezenas de milhares de compatriotas meus a fazer declarações semelhantes
PAULO VARELA GOMES

8 comentários:

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Onde se assina?

Pedro M. disse...

Surpreendentemente apelo deste meu ex-professor, espero que "contagie" mais pessoas face à complacência geral perante medidas que em França bastariam para pôr os mais passivos a incinerar carros e caixotes de lixo em barricadas mas que cá redundou ontem em grandes engarrafamentos em direcção ao hiper local, agora aberto ao Domingo.

Admito com embaraço que me preparo há algum tempo (como é referido no texto) para me juntar à nova diáspora que se avizinha, análoga à de 60-75.

Mesmo para quem estudou história e sabe que existiram situações análogas a esta, não deixa isto tudo de ser bastante desorientador.

Kássia Kiss disse...

Muita coragem e lucidez, parabéns!

Fernando Cardoso disse...

Estou solidário com o manifesto de Paulo Varela Gomes.

Luís disse...

Peço desculpa mas tenciono resistir à violência do Estado de forma apropriada, proporcional à violência que o Estado utilizar.

Ana Cristina Leonardo disse...

luís, não tem nada que pedir desculpa.

nick name teixeira disse...

Em tempos idos, 2008, no Hôtel de Ville (designação bem mais simpática que o pretensioso City Hall) de Paris num encontro promovido pelo CECODHAS denominado "Access to Housing in the European Union New social issues, new territorial challenges" a Sr.ª Annick Lambert, Secretary General of the European Mortgage Federation (FHE) fez uma curiosa apresentação, ainda sobre o efeito da falência do Lehman Brothers, sobre o sucedido em 2006/7 com o sub-prime no E.U.A. Segundo a senhora em causa o crédito hipotecário do sub-prime (produto financeiro norte-americano, que como deverão saber, é dirigido às classes mais insolventes dado não existir naquele país habitação social no sentido europeu do termo) representava 1% do crédito total hipotecário atribuído naquele país e ela ficou, na altura, totalmente supreendida como um valor tão baixo desencadeou um verdadeiro tsunami no mercado financeiro. No entanto, naquele dia sabia algo mais sobre o que acontecera. Os bancos tinham entre si alavancado (diabólica expressão) os valores de juro, spread (mais os restantes anglicismos que caracterizam os provincianos banqueiros) e etc. que conduziu (para além das avaliações bancárias) à ruptura do "virtuoso" mercado. Aqui percebeu-se que a cupidez tinha um preço. Mas julgo que a melhor definição para do "estado da arte" a que se chegou foi dado pela conferencista, "o diabo mora - no sentido literal - nos detalhes".

aquelabruxa disse...

todos os politicos a guilhotina!