30/05/10

Só para dizer ao senhor primeiro-ministro que ó pá eu também já fui a casa do Chico mas ó pá sem fazer figuras tristes


A coisa (mesmo a oficial) deixara-me de pé atrás. Porque raio quereria o Chico Buarque conhecer o tal de Sócrates?!
Pois não só a minha perplexidade tinha razão de ser como a notícia era falsa. O último é que pediu para ir lá espreitar as vistas.
Claro que nunca se saberá de quem partiu a notícia. Do próprio? Do Lula? De um assessor expedito? De um amigo daqueles do peito? De um primo empreendedor? De alguém que confundiu o Chico com o incondicional Luís Figo? Vá lá saber-se.
Uma coisa me serve de consolo: eu, ao menos, não precisei de fazer figuras tristes. Fui lá de táxi e, na verdade, ter-me-ia bastado dizer: para casa do Chico, sff!

"Para mim, os olhos dele são verdes. Há quem conteste. E, a crer no jornalista brasileiro Sidney Garambone (Isto É, 11-11-1998), nem os seus familiares se conseguem pôr de acordo: uns dizem que são azuis, outros que são verdes, alguns afirmam que é conforme. O facto é que quando o ‘pivete’ Chico Buarque foi preso por ‘puxar’ um carro, aos 17 anos, o ‘policial’ que lavrou o auto, meio confundido, terá escrito ‘cor de ardósia’.
Em Julho passado, durante a conversa que manteve com Milton Hatoum (um dos melhores escritores actuais do Brasil, autor, entre nós, da Cotovia), no âmbito da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), ele estava demasiado longe para eu poder tirar teimas. Mas agora, ‘olhos nos olhos’ (como na canção cuja letra leva a sua assinatura), no seu apartamento do Alto Leblon com vista aérea sobre o Rio de Janeiro, ia jurar que são verdes.
A incansável Miriam Cutz, da TurisRio, avisara-me que ‘para chegar a casa do Chico’ levaria mais ou menos uma hora. Pus hora e meia. Entrei no táxi, dei a morada, o motorista accionou o GPS e pouco depois, mais ou menos a meio do Botafogo, disparou um fumo branco. Rendido à evidência de um motor prestes a gripar, o sujeito encostou a viatura e eu fiquei apeada. Apanhei um segundo táxi. O motor não chegou a aquecer: mal pronunciei ‘Alto Leblon’ o taxista informou-me que não fazia a menor ideia de como lá chegar. Ainda insisti. Em vão.
O terceiro taxista conhecia o bairro, porém, desconhecia a rua. E, quase uma hora passada, o problema era precisamente encontrá-la. Interrogados, sem êxito, vários transeuntes, o chofer desesperava comigo: ‘Isto já parece São Paulo! Ninguém sabe de nada… Ninguém sabe de nada’. Por fim, o porteiro de um dos vertiginosos prédios da zona veio em nosso socorro. A meio da explicação, o motorista do táxi interrompeu os vira-à-esquerda-e-à-direita e rematou: ‘Ah! Mas isso é a rua do Chico! ‘.
A entrevista fora marcada em Portugal. Motivo: o lançamento quase simultâneo, cá e lá, do romance ‘Leite Derramado’ (Dom Quixote).
Aos media brasileiros Chico Buarque disse nada. Falou apenas na FLIP, com a casa a vir por fora. Falou de literatura, mas também a favor de várias comunidades locais, cujos moradores se manifestaram nas ruas de Paraty contra o condomínio multimilionário de Laranjeiras, que, garantem, os impede de chegar à praia.
No momento em que chego à porta de sua casa no Rio (que o próprio abre), ainda não li o que sobre ele escreveria Milton Hatoum: ‘Não foi fácil participar de uma mesa com Chico Buarque (…) O assédio a um dos artistas mais talentosos e queridos do Brasil inibe qualquer um’. Sem dúvida. Mas a verdade é que acabou por ser fácil. Pelo menos para mim (e arrisco que também para Hatoum).
A sala é luminosa e despojada, e um piano que já pertencera ao pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, ocupa grande parte do espaço. Uma varanda enorme oferece um plano de conjunto dos prédios, das ruas, dos morros e da água. É aí que a conversa começa. Depois, a oficial, de gravador ligado, tem lugar lá dentro entre cafés e cigarros. Só eu é que fumei. Durante quase duas horas. Mal apanhava um intervalo, Chico assobiava baixinho."
O resto aqui para não dizerem que eu aldrabo como o(s) outro(s).

4 comentários:

Ana Margarida disse...

no verão passado devorei esta entrevista, ana.

ps - excelente texto ontem. gosto muito, muito do updike.

N. disse...

nestas coisas sou uma pateta romântica, quando ouvi a notícia fiquei logo a imaginar que o Chico o tinha querido ver para desancá-lo. Daí que tivesse sido sem testemunhas.

Anónimo disse...

Por favor diga ao Chico, que eu sei que anda morto por me conhecer, que eu sou uma pessoa paranormalmente desocupada mas que por ele arranjo tempo para um café (tb vamos a casa).
Grata,
morgada de V.

lili disse...

Sempre pensei que eram verdes, acho que vou continuar a pensar, a imagem que me acode ao espírito é sempre a do Chico e os olhos enormes e verdes.