18/08/09

Ora tomem lá as razões de Montherlant contra os três pontinhos… e embrulhem [a propósito de uma campanha contra o elegante !]


Minha senhora,
Bem gostaria de uma vez na vida receber uma carta assinada por uma mulher que não se apresentasse preenchida até à caricatura desse estilo feminimo cujo sucesso vai infelizmente crescendo. É verdade que as reticências têm a vantagem de permitir que acreditemos numa qualquer progressão de um pensamento mantido secreto e reservado à cumplicidade do leitor quando, na realidade, não escondem senão vazio e confusão; mas neste caso, sinceramente, vós abusais, e com que obstinação!
(Montherlant em tradução livre)

E transcrevo, no original, excerto de Les jeunes filles, romance de Henry de Montherland onde o escritor francês, autor, entre outras coisas, de uma peça de teatro chamada La reine morte (a qual não abona muito a favor da coitada da Inês de Castro…), desanca no uso exagerado das reticências por certos espíritos femininos.
A parte traduzida insere-se numa passagem que contém duas cartas: uma, enviada a Montherlant por uma senhora indignada com a visão misógina dele; outra, com a respectiva resposta – misógina, talvez, cínica, certamente, mas com uma graça infinita!

CARTA PARA HENRY

Henry... si je puis me permettre de vous appeler par votre prénom... Les jeunes filles que vous peignez dans vos écrits auraient bien des choses à vous apprendre d'elles-mêmes... elles ne sont pas que l'expression de la niaiserie... Mais comment l'auriez-vous su... quand on sait ce qu'était votre mère... et quand on connaît vos penchants...

Mon cher ange décédé... le fait que vous étiez inverti ne me dérange en rien... (passez le bonjour à Peyrefitte... dont j'ai tant aimé «Les amitiés particulières», c'est la votre existence sur laquelle je ne dirai rien. Mais vous auriez dû en oublier celles que vous ne connaissiez que trop mal).
En revanche je vous félicite pour votre «ville où le roi est un enfant», l'histoire sentimentale est là, plus vraie que nature...

Merci quand même... car nous les femmes... nous arrivons à aimer les misogynes....
Ana de Lyne


CARTA DE HENRY

Madame,
Je voudrais bien recevoir une fois dans ma vie une lettre de femme qui ne fût pas emplie jusqu'à la caricature de ce style féminin dont le succès va malheureusement croissant. Il est vrai que les points de suspension ont cet avantage qu'ils permettent de laisser croire à quelque développement de la pensée tenu secret et comme réservé à la complicité du lecteur quand ils ne recouvrent en réalité que vide ou confusion; mais là, sincèrement, vous en abusez, et avec quelle obstination!

Bien entendu, votre lettre n'eût pas été complète, ni assez féminine en ce sens, sans l'emploi du verbe aimer, compliqué d'un petit paradoxe exaltant de surcroît le goût du martyre public pour lequel vous êtes si douées: si vous aimez les misogynes et que vous y trouviez votre compte, eh bien tant mieux pour vous; car je crois pouvoir affirmer que ceux-ci se passent fort bien d'une telle furia amoris.

Vous faites allusion aux romans de la série des «Jeunes Filles»: si vous n'avez vu dans les personnages féminins que «l'expression de la niaiserie», je crains que votre lecture n'ait été superficielle; la niaiserie n'est jamais tragique comme peut l'être la sentimentalité, ni pathétique comme le ridicule, ni dangereuse comme la bêtise.

D'ailleurs, si ignorant de la nature féminine que vous me considériez, il semble pourtant que mes portraits soient cruellement justes; nombre de femmes en ont convenu dans une enquête menée par le magazine «Les Nouvelles Littéraires» d'août 1936, auquel je vous renvoie. De plus, d'autres femmes de mes relations ont cru, bien à tort, se reconnaître dans mes héroïnes et ont fait bien du tapage à ce sujet! Mon ambition est donc pleinement atteinte, qui désirait montrer la femme telle qu'elle est, et non à travers l'idéalisation forcenée et criminelle que nous connaissons.

Enfin, puisque «La ville dont le prince est un enfant» vous a tant charmé, apprenez que, comme je l'ai confié ailleurs, nombre de traits de ma mère se retrouvent dans ceux de Madame de Sevrais; vous jugerez donc s'il n'est pas trop hardi de votre part de prétendre savoir qui elle était, vous qui vivez presque un siècle après sa mort.
Bien à vous,
Henry de Montherlant

A CAMPANHA CONTRA O PONTO DE EXCLAMAÇÃO TERÁ COMEÇADO AQUI, GANHOU CORPO AQUI E TEVE COMENTÁRIO ATINADÍSSIMO AQUI.

17 comentários:

N. disse...

Apesar do meu mal amanhado francês, do que entendi, reverencio, assino por baixo. Não tinha percebido (nem me esforcei por isso, é certo) o burburinho todo em torno do exclamativo, mas mesmo assim (sou fútil) arrumei em catálogo com a etiqueta: coisa pateta; os três pontinhos já me motivaram a desvarios e farpas envenenadas (em foruns – todos temos um passado), mas acabei por amainar fúrias com a leitura do magnífico “a caverna das ideias” do Somoza, embora tenha feito uns disparos críticos e, nalgumas partes do texto, me tenha custado um pouco a ultrapassar o engulho dos pontinhos.
Por outro lado, devo dizer que me parece que os pontinhos caíram em desuso; há uns cinco anos eram uma verdadeira praga por toda a web.

E sim, elegante ! (será por isso que surgiu a coisa pateta?!)

N. disse...

Hoje sou vitima de uma lentidão de servidor que me deixa pendurada em todo o ciberéter e só agora fui ler o COMENTÁRIO ATINADÍSSIMO. Percebi.
Mas como é possível pensar-se que não se pode exclamar sussurrando? Mentes confusas e, como diria o muito mal amado Freud (farpa), falta de instinto de viver.

Rui Herbon disse...

É evidente que o abuso da exclamação ou das reticências torna o texto deselegante, mas daí a bani-los... Bah!

Ana Cristina Leonardo disse...

A propósito:

Todo o mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto

nd disse...

Raciocinando apenas sobre poesia, pus ontem um texto no blogue em que afirmo: neste tempo muito pouco dado a ais e a uis, e às maiores ardências do ah e do oh, que reclamariam o ponto de exclamação no tema que abordei, e não é o ponto que tem culpa - se existe é para se aplicar -, é o sentimentaloidismo e o desbordamento confessional, tão funalizados que não interessam a ninguém, muito menos à poesia de hoje, antes à coscuvilhice e ao sorriso face a intimidades pessoais, e é isso que muita gente não entendeu, nem Pedro Mexia em cuja explicação nada disse de plausível, nem, depois dele, os que se manifestaram totalmente contra, nem os que a seguir reagiriam a favor do ponto. Vai uma grande confusão neste assunto e é tão simples (Refiro-me apenas à poesia, que a prosa, toda ela, é outro caso). Quem iniciou - bastante mal - este sururu foi a leitura de um texto de Pedro Mexia, com o aval de publicação no Ciberdúvidas (!), por transcrição de um artigo de Maio no Público sobre o ponto de exclamação. Pose e pressa em acabar é o que se vê nela, e é preciso tempo para escrever, pensando. Mas há sempre gente que embarca em nomes. Já assim era com o Dantas do «pim», cujo manifesto que Almada lhe escreveu tem, todo ele, e bem, mais pontos de exclamação que geradores eólicos a Serra dos Candeeiros (não me contradigo, é um manifesto, e é preciso gritá-lo para se ouvir bem). Aqui o texto de Pedro Mexia:

http://www.ciberduvidas.com/idioma.php?rid=1191

N. disse...

bem, se começou no link que nd deixou no final do comentário, é provável que os seguintes sejam irónicos e a partir daí começou a correr e fez-se um caso que divide opiniões.
esta coisa dos blogs é mesmo uma coisinha ruim.

nd disse...

Não são irónicos, não. São alinhamentos, o problema aqui reside na verdade tornada única, mais por narcisismo que por outra coisa. Embora eu use menos que muito pouco o ponto de exclamação em poesia (há outros meios melhores e incomparavelmente mais eficazes de traduzir intensidade), ninguém pode mandar o ponto de exclamação para o lixo. Nem as reticências, que não uso, a não ser entre parênteses, para indicar corte em transcrição de textos. Se fossem abolidas, teria de se inventar outro sinal. Em relação a elas, reticências, eu que de todo não me considero misógino e vou tendo, na generalidade, em cada vez mais fraca conta o meu género, estou inclinado a concordar com as cartas, aqui emails, de algumas Anas de Lyne, no meu caso uma, em que os pontinhos são quase mais que as palavras, sorrio.

Ana Cristina Leonardo disse...

A propósito de coisinha ruim e Mexia:

Pedro Mexia assina no Público de hoje uma crónica sobre a praia. Mexia parece ter lido On Holiday, um livro do etnólogo sueco Orvar Lofgren. Gostei bastante de Orvar Lofgren embora o sistema de citações não me tenha permitido perceber exactamente os momentos em que ele cita Mexia.

Lido no A Natureza do Mal

http://anaturezadomal.blogspot.com/2009/08/menos-por-menos-orvar-lofgren.html

MaJ disse...

Seria com certeza mais sugestivo anunciar ao leitor: um blogue sem reticências.

nd disse...

Não olhes para o que eu faço... Olha para o que eu digo... Os provérbios conservam-se porque são sábios... Fui ao seu blogue, Sr.ª D.ª Maj, e ... nada... Andei por lá à procura dos três pontinhos... Dei com os travessões em inglês da Emily Dickinson, isso dei... Recuei, recuei, insisti em recuar... e nada, nada mesmo de três pontinhos...

Mas acabando agora com as engasgadelas, são sábios ou não são sábios os provérbios? Por isso, como aceito aquele outro que diz Vemos mais depressa um graeiro no olho do vizinho que uma trave diante dos nossos olhos, proponho antes que adoptemos ambos, Sr.ª D.ª Maj, a sua amável sugestão, mas como subtítulo: Devagar, um blogue sem reticências, etc.

MaJ disse...

@nd. Comentei o post da Meditação na Pastelaria e o lema a que faz referência: "este é um blogue livre de pontos de exclamação". Não comentei nada sobre o seu comentário. Agradeço a sua gentil visita ao meu blogue, não viu reticências porque não há pontinhos, mas elas estão lá. Quanto ao resto, je me passe fort bien de vos sarcasmes.

Ana Cristina Leonardo disse...

nd e MaJ, agora perdi-me

nd disse...

Hélas! Quel oxymore, Mme Maj! - "não viu reticências porque não há pontinhos, mas elas estão lá". Bom, então, por via das dúvidas, já não são dois, mas três os blogues com o mesmo subtítulo. É o que dá a escrita ambígua. Será partidária do Mexia?

Pardonnez-moi mes sarcasmes, comme vous dites (petites ironies, Mme Maj, petites ironies).

MaJ disse...

já não são dois, mas três os blogues com o mesmo subtítulo. É o que dá a escrita ambígua.
O trabalho que me deu! Tive mesmo de ir ler o texto do Pedro Mexia. Mas já não houve paciência para estar à procura dos blogues com pontinhos. Confesso.
Vamos ver se nos entendemos, sem consumir todas as bolas de berlim e com um sorriso.
O subtítulo do meu blogue continua igual, "riscos, notas, silêncios". Não há ambiguidade nenhuma naquilo que escrevo; o que há de reticente naquele blogue está exactamente na palavra "silêncios". O silêncio é voluntário, mas olhe que às vezes apetece mesmo quebrá-lo - e em voz sonora.
Aqui entre nós, nd, acha que vale a pena continuarmos a mandar bilhetinhos um ao outro? Sorriso.

nd disse...

As minhas desculpas à anfitriã por nós ambos, por mim e por Mme Maj. Não são bem assuntos extratexto, mas o certo é que fico a pensar numa peça que vi, horrivelmente encenada, num teatro comercial da Gran Via de Madrid, Much Ado About Nothing. Sim, não há razão para bilhetinhos desses. Daqui a nada estávamos iguais ao que começou tudo isto e não temos culpa nenhuma das asneiras que ele disse. Ainda bem que o leu. Assim vê que pertencemos a um país cheio de poseurs, isto continuando com o seu francês, sorrio também. E pôde ver igualmente outro arquétipo luso: o basbaque de confiança ilimitada na aparência, é como as pegas, tudo o que "brilha" é bom para apanhar, refiro-me, é óbvio, ao Ciberdúvidas, que já teve o seu tempo.

ecila disse...

As únicas duas pessoas que conheci até hoje a abusar das reticências eram homens (até os sms tinham reticências). O abuso de pontuação, a falta dela, determinados erros ortográficos recorrentes, não têm género. São pragas que atingem indiscriminadamente.

Aparte isso, os excertos fizeram-me rir, há pessoas que realmente abusam... ;-)

lili disse...

Contudo, o ponto de exclamação merece todos os elogios!! O ponto de exclamação como recurso estilístico legítimo... até mesmo para os jornalistas que, segundo Nietzsche, vieram substituir os professores universitários...

De fato, abolir este sinal algo tem a ver com uma atitude "sensata" de anticelebração, e faz com que o produtor de textos pareça gente de respeito, incapaz de deslizes emocionais. Celebrar o que, afinal de contas? Pense um pouco: admirar-se com o quê? Com as notícias de sempre, com a redundância dos males, com a reiterada constatação da mesquinhez humana?

O ponto de exclamação, no entanto, é passional, e sempre consegue admirar-se, ainda que tal admiração pareça ingênua, ou mesmo autoritária, ou vazia. Ao ponto de interrogação (de que Drummond fez uso abundante em alguns poemas, ele que, no fim da vida, declarava já não ver o menor sentido para o ponto de exclamação) adere-se a imagem do filósofo, daquele que questiona, que duvida, que lança o anzol "?" no mar das perplexidades e, com paciência, fisgará alguma resposta, ou não...

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/imprimir.asp?cod=312AZL001