23/07/09

Um qualquer Outubro na algibeira

Quando dizemos «Outubro», soltamos evocações. Apesar de longínquo, o estrépito da fuzilaria imaginária disparada em São Petersburgo sobre o Palácio de Inverno ― que Annenkov e depois Eisenstein encenaram, tornando-o «real» ―, chega-nos ainda aos ouvidos, distribuindo posições de combate e rearmando certezas. Mas porque regressar aqui a acontecimentos que, fora do universo protegido dos prosélitos mais irredutíveis da revolução proletária, nos chegam sobretudo como um rumor épico que a ficção, o documetário e os compêndios de vez em quando libertam? Talvez valha a pena fazê-lo porque eles se referem a um tempo e a um lugar onde foi possível acreditar na materialização de uma das mais antigas intenções humanas: o advento de uma época afortunada, no qual a luta entre o bem e o mal tenha sido resolvida com a vitória irrevogável do primeiro. Instante de uma «luta final» rumo a uma nova era, o Outubro ideal do qual aqui se fala condensou, e a sua dimensão simbólica ainda hoje representa, uma parte daquilo que de melhor a humanidade tem sido capaz de conceber como destino.
Enquanto sinal de utopia, mobiliza as capacidades do ser humano para traçar colectivamente um mundo alternativo, desejavelmente melhor, e o facto de ter dado historicamente lugar a universos tristes e bloqueados, a regimes rudemente tirânicos, a experiências concentracionárias com o rosto negro do mal, não foi suficiente para desactivar o seu potencial criador. A Revolução de Outubro não representa apenas aquele episódio datado que na velha Rússia recém-liberta do domínio dos czares levou Lenine e os bolchequives ao assalto do poder: permanece também como sinal de esperança que nem mesmo a perversão e a derrocada do «socialismo real», e a acelerada transformação do mundo que se lhe seguiu, foram capazes de apagar. Porque, como se poderá ver nas páginas que seguem, a vontade que ela enunciou continua a produzir uma expectativa e a desenhar uma possibilidade.
Importa salienta que este livro, retomando com aperfeiçoamentos e curtas adendas um conjunto de textos escritos e plublicados no blogue pessoal A Terceira Noite ― um a um e sem plano prévio, de Setembro a Setembro nos anos de 2007 e 2008 ― não tem o formato de um estudo histórico clássico capaz de integrar processos exaustivos de pesquisa, análise e comparatibilidade. Partindo de dados objectivos e de muitas leituras sobre a matéria, trata-se antes de um ensaio que pode contribuir para a superação de algumas das perspectivas acríticas da Revolução de Outubro e da pesada mitologia produzida e conservada à sua volta. Reportando-se a factos mas integrando também, recolocando-as sem qualquer dogmatismo, memórias e crenças que continuam a moldar algumas das preocupações contemporâneas. Afinal, para uns quantos de nós ― talvez não muitos, mas uns quantos que não se conformam com o mundo tal qual ele é ―, haverá sempre um Palácio de Inverno para tomar.
Um agradecimento dirigido a todos os que me incitaram a escrever até ao fim este conjunto de textos e a publicá-los em livro. Destacando o apoio próximo e crítico da Adriana Bebiano e do Miguel Cardina. Também eles, ao que julgo saber, com um qualquer Outubro na algibeira.
Outubro, Rui Bebiano, 2009, Angelus Novus
[Os bolds são meus]

3 comentários:

manuel disse...

[políticas: http://www.youtube.com/watch?v=R_vIy5uQuhY]

João Lisboa disse...

"Enquanto sinal de utopia, mobiliza as capacidades do ser humano para traçar colectivamente um mundo alternativo"

Também se poderia dizer que representa a irremediável tropia do ser humano para a asneira e o desastre.

Ana Cristina Leonardo disse...

bom, joão, 'a tropia do ser humano para a asneira e o desastre' não precisará de outubro para se confirmar. que não sei se é 'irremediável' mas, provavelmente, é.