
Se a voz tremia, o mesmo se diga da mão, acometida de tosse convulsa: subia e descia em espasmos irregulares, e ora fazia mira aos meus olhos ora me visava o estômago. Enquanto isso, o guarda-nocturno – porque de um guarda-nocturno se tratava – não parava de me ameaçar: «Se te mexes, disparo!» Devo ter ido buscar sangue-frio às histórias de partisans que consumia então com ferrenha militância no escurinho do Palácio Foz: «Calma homem! Veja lá se tem calma senão isso dispara mesmo!» Atrás de nós, sobre o que teria sido um terreno agrícola, achava-se agora o corpo descarnado de uma obra. Pedras, tijolo, ferros retorcidos e paredes inacabadas que me pareciam o local ideal para despejar o material de trabalho. E enquanto estávamos para ali os dois, eu abraçada ao saco, ele escorado ao revólver, passou uma motorizada que o guarda-nocturno fez parar com grande determinação, dando indicações ao motard para que fosse chamar a polícia. Não havia telemóveis.
Aproveitei o interregno para dizer que tinha de fazer chichi. O motard, se já estava baralhado, mais baralhado ficou: «O senhor está-me a deixar nervosa com a arma! Vou fazer chichi e já venho!» E fui. Em vez disso esvaziei o saco dos aprestos comprometedores, conservei os documentos e a bolsa de maquilhagem, e voltei. Não tinha por onde fugir e ser baleada não fazia parte dos planos.
Passado algum tempo chegou, em linguagem de época, o nívea da bófia. «Então, o que é que se passa aqui?», perguntou a autoridade naquele seu modo clássico habitual. Cada um de nós deu a sua versão dos acontecimentos. Eu, que ia descansada para casa quando um louco me saltara ao caminho com uma arma na mão ameaçando-me de morte (era quase tudo verdade). Ele, que ia descansado na ronda quando dera de caras com a meliante em presença que andava por ali a desaparafusar matrículas (também não era tudo mentira). Entrei no carro da polícia para ser conduzida à esquadra. Comecei a ver a vida a andar para trás, seja o que for que isso queira dizer, mas pelo caminho um dos polícias confortou-me: «Não se preocupe, não é a primeira vez que temos chatices com o velho. Com a idade ficou um pouco destrambelhado...».
Estava eu sentada na esquadra pronta para assinar uns papéis e ir dormir – e até me tinham perguntado se quereria tomar algo – quando deu entrada de rompante o meu contraditor. Mal me viu, colocou shakesperianamente o dedo em riste e disse: «E ela foi despejar o material na obra... De certeza!» Era dos duros.
Regressaram à obra – e ao partir um dos polícias pediu-me desculpa pelo incómodo acrescido – e voltaram, azar dos Távoras, com os meus despojos. Fui revistada por uma mulher polícia que já não foi assim tão simpática e interrogada por um outro que me chamou mentirosa. Não gostei, até porque mentirosa é coisa que não sou mesmo, e foi depois disso que eu, recorrendo de novo ao meu imaginário cinéfilo, disse que tinha direito a um telefonema e que queria telefonar para casa. Telefonei à minha mãe e pouco depois ela aparecia. Esbaforida. Como eu era menor, antes de nos virmos embora levou uma descompostura do chefe. Depois deu-me ela uma descompostura durante o pequeno-almoço que com aquilo tudo eram horas. Desde esse dia nunca mais gamei matrículas, nem para a causa nem por conta própria. Mas também vos digo, e isto pensei-o logo: aquele guarda-nocturno era um perigo e um dia por engano ainda matava alguém.
10 comentários:
Você é muinta gira!
E mais... de 'meliante', até hoje, tenho sido só eu o acusado.
Qu'alívio.
Gama uma a condizer com o meu veículo.
Entretanto, o serviço? Há que horas que pedi meia de leite e um queque de alfarroba, bolas!
Ah ah ah. Um perigo, esse guarda-nocturno!
Que ganda maluca! :D
Diálogo ocorrido no programa Você na TV da TVI, registado pela Vingança da Violeta
Cristina Ferreira: - E, nestes saltos todos, já apanhou algum susto?
Pára-quedista Convidado: - O que entende por susto?
CF: - O pára-quedas não abrir.
(pausa embaraçada)
PC: - Não. Mas já aconteceu não abrir o principal e ter de abrir o de emergência.
CF: - E alguma vez o pára-quedas de emergência não abriu?
Como disse o rui g, no comentário anterior, espero que esse guarda-nocturno já não se encontre, como agora se diz, "no activo"...
Sobre o comentário que o Manuel deixou, é um facto que esse programa da TVI é "delicioso". Há dias vi um bocado e pensei: se um dia os "Gato Fedorento" se mudarem para a TVI, têm material excelente para continuarem os "Tesourinhos (muito) deprimentes" e afins.
Manuel, nunca vi o programa, mas peço-te que continues a fazer o relato. promete...
Até vou meter pilha no despertador para não perder um programa.
Não sucedeu a mesma coisa ao Bocage quando ia para o Nicola?
Enviar um comentário