28/10/08

José Cardoso Pires (2-10-1925/26-10-1998)

«(...) O largo. (Aqui me apareceu pela primeira vez o Engenheiro, anunciado por dois cães.) O largo:
Visto da janela onde me encontro, é um terreiro nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia – é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. À tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam. (...)»
José Cardoso Pires, O Delfim, 1968

5 comentários:

manuel disse...

Puseste "1988", é "1998".

Ana Cristina Leonardo disse...

tens razão. enganei-me. já corrigi. obrigada

-pirata-vermelho- disse...

Deste, gosto de lembrar 'Alexandra Alpha', por uma certa 'simplicidade' que lá s'encontra e pelo nome das personagens. Lá, o sr. Opus Night diz que 'isto' "não é um país, é um lugar mal frequentado".
Antologia! Há já uns anos...

fallorca disse...

«O Delfim» foi sempre o meu Cardoso Pires. Sempre.
É a minha opinião, mas "felizmente" que ele não teve a oportunidade de ver o "filme". É a minha opinião.

Victor Afonso disse...

E isto, é normal?
http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/2008/10/ministra-nazi-da-educao.html