06/06/13

Então o Acordo serve para quê, afinal?

Segundo o Gabinete do Ministro da Educação, Nuno Crato foi mal interpretado numa entrevista que deu à revista "Veja" porque "há expressões no português do Brasil que não coincidem com o português usado em Portugal."

Ainda bem que existe o Acordo Ortográfico que unificou a língua porque se não existisse ainda acontecia ao Nuno Crato o que me aconteceu uma vez no Rio de Janeiro. Perguntei à passageira do lado do autocarro (ônibus) se faltava muito para a paragem onde queria sair e ela respondeu-me em inglês: What?!

Visto aqui

11 comentários:

alexandra g. disse...

Mais explícito que isto, só eu a pedir uma cerveja em terras de hermanos, a pronúncia correcta, e a dar a volta ao balcão para apontar a propriamente dita, minutos esforçados depois.

Body or gesture, you name it.

joão viegas disse...

Ola,

Longe de mim querer reacender uma guerra a este proposito, mas queira v. exa. notar que uma lingua completamente imune à possibilidade de equivocos é uma pura fantasia. Por exemplo, como é que poderia haver casamentos entre falantes desta lingua ?

Quanto ao exemplo da "fila para ônibus", todos passamos por isso, e também pela humilhação de, em conversas com brasileiros, termos de repetir as frases sistematicamente, à cautela...

That is precisely the problem... Nosso e do Camões, e do Camilo, e do Aquilino, etc.

Não vai ser resolvido apenas com o AO ? Pois é claro que não. Também não vai ser resolvido com o abandono do acordo (digo eu).

Leiam literatura de lingua portuguesa. Quando tiverem acabado, releiam. E mais uma vez.

Pode ser em galaico-português se quiserem. Mas leiam !

Leiam até chegarem ao ponto de não poder suportar as baboseiras arrogantes pseudo-inglesas, ou pseudo-francesas, que os nossos broncos engravatados gostam de debitar na televisão. Para isso, basta lerem uns capitulos.

Se lerem 70 ou 80 paginas em português, vão ver que sentem imediatamente crescer na palma da mão a vontade de apedrejar a televisão.

Leiam em Português, seja qual fôr a norma grafica. O resto é paisagem.

Boas

Ana Cristina Leonardo disse...

Boas
Não, o resto não é paisagem. É mesmo achincalhar a língua, fazer dela um vil negócio (saiu-lhes furado o negócio dos dicionários para África), e promover uma bandalheira gráfica que anda por aí à solta, do DR aos jornais, das televisões aos portais dos ministérios. E que se espeta pelos olhos dentro. De espetar mesmo.
Quanto ao resto, sou sempre e por princípio adepta da diversidade.

joão viegas disse...

Seja,

Eu não sou contra a paisagem, nem contra a diversidade, contando que sejam isso mesmo : diversão que não absorve a identidade.

Eu satisfaço-me com pouco : leiam e escrevam em português. Façam do português uma lingua viva. Cultivem-no como uma lingua veneravel, que é, mas também como uma lingua viva, que merece ser (não digo "continuar a ser" porque quando ouço o que os nossos politicos e os nossos jornalistas fazem com ela, independentemente da ortografia, não tenho bem a certeza que ela esteja viva).

Pode ser com a ortografia anterior ao NAO, que eu não sou esquisito (alias, pessoalmente, continuo a usa-la na medida permitida pelo meu teclado).

Agora se a opção fôr entre ler Machado de Assis com grafia brasileira, ou Harry Potter e Dan Brown traduzidos a martelo, ainda que na antiga ortografia, a minha escolha esta feita.

E vão ver que na volta, passando por Sa de Miranda e por Gil Vicente, o Petrarca e o Shakespeare ficam a saber muitissimo melhor.

Não ha paisagem sem olhos de ver...

Vigi disse...

Porque para se começar a destruir um pais deve-se começar pela sua própria cultura e língua seguindo da agricultura que é equivalente com a sobrevivência interna e da economia.

E este Governo está a fazer um brilhante trabalho a destruir o nosso Porto do Graal(Portugal).

Ana Cristina Leonardo disse...

Agora se a opção fôr entre ler Machado de Assis com grafia brasileira, ou Harry Potter e Dan Brown traduzidos a martelo, ainda que na antiga ortografia, a minha escolha esta feita.

O que é que o cu tem que ver com as calças é que eu gostava de saber. Ou isso, ou batatas! Como diria o Machado.

joão viegas disse...

eheheheh,

Depois de apurado escrutinio, como diriam os nossos tecnocratas, tenho a dizer que as calças raramente têm a ver com o cu. E quando têm, então deixam de ser precisas, ou recomendaveis...

Mas dou-lhe com todo o prazer as batatas que pertencem ao vencedor. (A Ana Cristina não sei, mas eu li o livro numa edição brasileira e so morri momentaneamente...)

O meu comentario era mais sobre o incidente da fila para o autocarro. Convenhamos que nos, lisboetas, articulamos o Português como quem tem vergonha de o falar...

m'espanto às vezes...

Boas

Ana Cristina Leonardo disse...

Entre outras coisas, por causa disso mesmo, da articulação para dentro (que não é um problema só dos lisboetas e nem em Cóimbra dizem Cóimbra...), é que não se devem tirar as consoantes mudas.

Só conheço o Machado escrito em português do Brasil. Que eu saiba, não foi preciso traduzir

fallorca disse...

A propósito de dicionários, vieste «levantar uma lebre» que tenho na manga há algum tempo. Lamento, mas não uso cartola...
Agora não estou com tempo nem pachorra; mas em breve (prometo) tenciono escarrapachar no blogue um paradoxo dos dicionários editados pela salsicharia da Porto Editora.
No de espanhol/Português (e não Castelhano/Português), traduzem «gorrión» por gorrião, pardal-dos-telhados. Consulta-se o salpicão de Português da mesma salsilharia, a Porto Editora, e não há passarinhos para ninguém, não consta.
Nessa tal edição de «espanhol», de Agosto de 2005, ISBN 972-0-05040-3, deparei-me com uma gralha monumental. Infelizmente (ou não, para que a salsicharia e os seus revisores me desmintam, me processem) não a marquei. Procurem-na...

fallorca disse...

«...da mesma salsilharia, a Porto Editora», o funil enojou-se, eheh

samartaime disse...

Vamos lá com calma.

O acordo serve para mostrar como as nossas leis são as melhores do mundo: dá para estar em vigor e para não estar em vigor, muito ao jeito do ubíquo Santo António.

O acordo serve para mostrar como a salsicharia Porto Editora ( roubo com gosto o vizinho Fallorca) e outras variantes de salsicharia como charcutarias, mercearias e correlativos & afins do grosso e do retalho, se fazem aos carcanhóis e exterminam a poesia.

O acordo serve para escrever cor-de-rosa com hífen por causa da tradição e escrever azulinho bebé sem hífen apesar da tradição.

O acordo serve para servir a minha fala libertina e justificar aquilo que não sei justificar.

O acordo serve para a gente poder discordar pelo menos do acordo, graças à democracia parlamentar.

O acordo serve para a gente entender que quem mais fala mais acrescenta e isto no que concerne tanto aos que acordam como aos que desacordam.

Resumindo: o acordo é o nosso cubo mágico.

Ou, como dizem os cultos da Pub, nós podíamos perfeitamente viver sem o acordo, mas a vida não seria a mesma coisa!

(não me batam que eu sou orfanita!)