04/07/11

Será de chamar a polícia?

Nos anos 80, Marguerite Yourcenar estava na moda em Portugal. O Dallas também mas não é isso que me traz.
Yourcenar — uma senhora que me reconciliou com o chamado “romance histórico” (bocejo...) via A Obra ao Negro (aplauso prolongado...) — afirmou numa longa conversa com Mathieu Galey (transposta para o livro De Olhos Abertos) que, fora ela adepta da pena de morte (não era…), a violação seria um dos crimes aos quais a aplicaria. Dito isto, logo de seguida acrescenta, indiferente ao escândalo que as suas palavras poderiam provocar, inferir em certos casos de estupro algo a que chama “provocação feminina, consciente ou não”.
Para alguns, simplificando-lhe a linguagem (sacrilégio...), tal não passaria de uma versão cultivada do “Estava mesmo a pedi-las!”, o pressuposto infeliz da frase do polícia canadiano que esteve na origem das SlutWalk, manifestação que em Portugal ganhou o pitoresco nome de “Marcha das Galdérias”.
O mote do movimento é claríssimo: “Não é não!”. Estou de acordo. Mini-saias, decotes, saltos-agulha, hot pans e etc. não devem ser vistos como atenuantes em caso de atentado às suas portadoras e, muito menos, como justificativo. Se alguém quiser vestir-se de Lady Gaga e sair à rua, deverá poder fazê-lo em segurança, embora a mim, pessoalmente, me custe perceber por que razão há-de alguém querer vestir-se de Lady Gaga e sair à rua.
Assente o pressuposto — não é não, uma vítima é uma vítima e um crime é um crime por muito, pouco (ou mesmo pessimamente) vestidas que as mulheres apareçam em público — já querer criminalizar piropos e assobios julgo que nem na Arábia Saudita.
Tatiana Mendes, coordenadora de um estudo da UMAR sobre assédio sexual, deu-os, contudo, como exemplos das coisas intoleráveis a que as mulheres se sujeitam e que justificariam uma lei mais dura.
Pergunto-me, então, o que faria Tatiana se fosse homem e a Mae West lhe dissesse, como disse, a man has one hundred dollars and you leave him with two dollars; that's subtraction. Chamava-lhe sua galdéria ou chamava só a polícia?

4 comentários:

Manuel Vilarinho Pires disse...

E se lhe dissesse "Is that a gun in your pocket, or are you just happy to see me?"?
Chamava a polícia por causa da posse de arma sem a respectiva licença, ou por causa do piropo ofensivo que associava felicidade à visão da actriz-mulher-objecto?

Carlos Azevedo disse...

Uma sábia, a Mae West.

F disse...

Subscrevo.

E acrescento:

A não resistir à tentação de mandar piropos (não sei muito bem porquê, algo muito característico do homem latino), então que sejam imaginativos e de sentido de humor apurado, de preferência.
Seria mais divertido para quem os ouve!

Táxi Pluvioso disse...

Marguerite Yourcenar estava na moda em Portugal nos anos 80, deve ter sido num Portugal muito restrito, o que estava na moda era o Boy George, e ainda bem pois libertou vocações.