02/09/10

A única coisa que faltava mesmo era os ciganos serem acusados de raptar a maddie

O jornal inglês de referência The Sun noticiou que um homem não identificado entregou uma carta ao filho do pedófilo Raymond Hewlett, uma semana depois deste ter morrido de cancro na garganta.
Na missiva, escrita no leito da morte (claro), Hewlett garantia que nada tivera que ver com o rapto de Maddie embora soubesse o que lhe acontecera: fora raptada pela máfia cigana.
Um amigo do filho do pedófilo (que não falava com o pai há 20 anos) contou a história ao jornal. The Sun diz que o filho queimou a carta depois de a ler. E pronto.
Deste enredo de pacotilha fez o Diário de Notícias... uma notícia. Esqueceu-se de traduzir a parte de a carta ter sido supostamente destruída e de se desconhecer o seu mensageiro, e intitulou-a: "Maddie levada por Mafia Cigana". O I e a Visão, mais comedidos, titularam a coisa em modo conjuntivo. Respiramos de alívio!
Se isto seria sempre um disparate e exemplo de jornalismo, literalmente, de latrina, a coisa irritou-me ainda mais por surgir no momento em que surge.
E a propósito do momento...
1º: Está marcada uma concentração junto à Embaixada de França em Lisboa para o próximo sábado, pelas 15 horas, contra as expulsões dos ciganos.
2ª: Aproveito para transcrever post de O Senhor Comentador que, no essencial, resume aquilo que penso sobre o assunto. Cá vai.

O Senhor Comentador adverte os governos a suspenderem a caça aos ciganos
"A expulsão de ciganos ordenada pelo governo francês relembrou que a mentalidade europeia é organizada pela mediocridade. Percebo que os ciganos, ou os Roma, como agora lhes chamam, não sejam fáceis de aturar. É uma cultura fechada, preconceituosa, arrogante e incontrolável. E, pior, há séculos que tem uma péssima publicidade. Até os contos infantis, Pinóquio entre eles, os consagraram como papões etnicamente reconhecíveis. A aversão aos Romas é formada desde a mais terna infância. Contudo, não digo que seja totalmente infundada. Acredito que há ciganos criminosos, como os há pretos, árabes, nórdicos, europeus, galeses. Mas quando se fala dos Roma, a criminalidade é apenas burguesmente aceite; como se fosse uma condição sine qua non destas pessoas. Seja como for, esta etnia, sem ter influenciado directamente a história do mundo, sobreviveu a todas as histórias que o mundo teve. A sua cultura é uma curiosidade mas nunca foi uma influência. Talvez na música, com as rapsódias, com Liszt e Paganini, mas mais pelo desafio de adaptar a sua exuberância expansiva à nossa predominante melancolia ou cerimoniosa musicalidade. Que os países europeus não tenham conseguido “civilizá-los” ao longo destes séculos é, sem dúvida, um fracasso cultural. Esta força cigana merece respeito. Não está em causa o dever do cumprimento da lei, até mesmo por tão exótica e independente comunidade. Mas discriminá-los por, em conjunto, serem perigosos para sociedade suburbana, é, além de idiota, uma traição à nossa civilização. Os ciganos deviam ser tratados com o mesmo respeito que devemos às espécies em vias de extinção. A ânsia de controlar os nossos impostos, a nossa saúde, a educação, os nossos tempos livres, vai chegar a um ponto em que não haverá espaço burocrático para as culturas independentes ou marginais. É cada vez mais difícil viver à margem seja do que for. Os Roma conseguiram-no durante séculos. Aceitemos o seu triunfo e esperemos que também sobrevivam a estes tempos, em que os computadores são cada vez mais severos e as administrações mais implacáveis. Fora isso, tudo bem."
A fotografia foi encontrada aqui.

10 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Subscrevo o post de "O Senhor Comendador" até «Os ciganos deviam ser tratados com o mesmo respeito que devemos às espécies em vias de extinção.» Por que raio haviam de ser tratados como as espécies em vias de extinção? Serão, por acaso, uma atracção de parque natural ou de circo? Os ciganos devem ser tratados com o mesmo respeito que devemos a qualquer pessoa, porque é exactamente isso que são, pessoas, e não uma qualquer atracção excêntrica. As suas tradições, como a de qualquer etnia, devem ser respeitadas na exacta medida em que não conflituem com aquilo que são conquistas civilizacionais que todos os restantes cidadãos devem respeitar (por exemplo, não aceito que se permita que crianças de etnia cigana andem a mendigar nas ruas, em vez de estarem na escola, a aprender - e se falo disso, é apenas porque aqui, no Porto, são muitas que encontro nessas condições). E, respeitando as suas tradições, deve ser promovida a sua integração, porque é precisamente essa integração que ajuda a evitar que suceda o que agora está a ocorrer em diversos países europeus.

N. disse...

No meu percurso nunca faltaram ciganos. Daí que tenha uma certeza: sobreviverão - em melhores condições de saúde física e mental – do que os cidadãos franceses (e outros) que se julgam – agora – mais protegidos e em melhor situação do que eles.

N. disse...

essa história da Maddie, da carta que já não existe, dos ciganos, lembra-me uma mulher idosa que queria chamar a polícia porque os pedreiros (fossem ciganos, para ela, seria igual) que trabalhavam numa obra perto lhe tinham roubado uma gata.
Para sorte minha, dos pedreiros, da polícia (e dos ciganos) a gata voltou do giro uma hora depois de ter sido roubada.

Ana Cristina Leonardo disse...

Carlos, a integração tem muito que se lhe diga. Veja, por ex., o caso do cristianismo: todos os homens são iguais perante deus. Parece um avanço em relação á ideia do povo eleito e tal. Mas depois apareceram os problemas. E se eu não quiser ser igual. Bom, converte-se à força, não é? Pois, as boas ideias nem sempre dão bons resultados.

Carlos Azevedo disse...

Ana Cristina,
penso que percebeu que eu não defendo qualquer tipo de integração forçada, e penso mesmo que a diversidade deve ser defendida. Digamos que sou um "esquerdista multicultural", que acha a diversidade excelente até certo ponto. E qual é o ponto? Ora bem, só consigo explicar com exemplos. No caso de muitos países muçulmanos, acho tudo muito bem, excepto que apedrejem mulheres acusadas de adultério, torturem - e matem - homossexuais, violem mulheres - e depois as matem - apenas porque eram irmãs de um homem que de alguma forma ofendeu a honra dos violadores, etc.; no caso da etnia cigana, acho também tudo muito bem, excepto que casem crianças, as impeçam de ir à escola, as ponham na rua a mendigar, etc. O que quero dizer com tudo isto? Que a estupidez está quase sempre na defesa ou no ataque absolutos da etnia cigana, que é o que tenho assistido nos últimos tempos.

Quanto à primeira parte do meu anterior comentário, presumo que concorda comigo que os ciganos não devem ser tratados como uma expécie em vias de extinção, algo que me parece absolutamente inaceitável.

N. disse...

"as impeçam de ir à escola"
eu sei que só conheço os ciganos que conheço, mas os que conheço eram os pais que os iam deixar quase à porta da escola, davam de costas e eles vinham de volta; faziam o percurso todo como se estivessem a jogar às escondidas, ora avançavam em fugidas breves, ora esperavam escondidos por um carro estacionado para voltarem a nova corridinha.
(desculpem-me mas eu tenho vida com ciganos que não acaba e de cada vez que leio alguma coisa só me apetece começar logo a contar a minha vida toda - :) )

F disse...

Vou citar Karl Sigmund, investigador da Evolução (texto retirado do livro "Como o Acaso Comanda as Nossas Vidas, de Stefan Klein, que ando a ler e que me está a fascinar).

Stefan Klein, neste seu livro pretende demonstrar a importância e a inegável influência do acaso em tudo o que existe e que vai acontecendo.

"A diversidade serve o progresso porque concede ao acaso uma oportunidade, pelo contrário, os monopólios de toda a espécie dificultam a Evolução"
e mais adiante:
"A condição indispensável é uma diversidade de culturas, algo que se encontra ameaçado num mundo cada vez mais globalizado. Das mais de 6000 línguas que as pessoas actualmente ainda falam, mais de metade irão desaparecer nos próximos cem anos, se a actual tendência se mantiver. Devíamos esforçar-nos por manter essa riqueza. A confusão de línguas que se instalou depois da Torre de Babel não foi uma maldição, mas sim uma bênção".

fallorca disse...

«Stefan Klein, neste seu livro pretende demonstrar a importância e a inegável influência do acaso em tudo o que existe e que vai acontecendo.»
Que pretensiosismo bacoco, Karamba (em conformidade com o cidadão homónimo referido nos comentários do post seguinte)

F disse...

É ler, é ler.

http://dererummundi.blogspot.com/2008/05/como-o-acaso-comanda-as-nossas-vidas_07.html

N. disse...

Att. do Carlos Azevedo (se ainda passar por este post) um artigo do publico http://www.publico.pt/Sociedade/portugal-sofre-de-ciganofobia-mais-de-80-da-populacao-tem-atitudes-racistas-contra-ciganos_1454826

Onde Pereira Bastos, na sequência de um trabalho realizado em 2005 afirma isto a dada altura:

(...)‘você gostaria de ter amigos ciganos na sua escola’ a resposta ‘não’ atinge os 68 por cento, enquanto nos africanos a resposta ‘não’ vai aos 28 por cento” (...)

daí que os pais até os levem à Escola eles é que terão pouca vontade de ficar por lá.