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Tantos anos passados, o inglês Geoffrey Braithwaite atravessa o Canal (Barnes, o próprio, fá-lo-ia também para escrever precisamente o conjunto hilariante de histórias Do Outro Lado do Canal) com o objectivo de observar, in loco, o papagaio que havia servido de inspiração a Flaubert.
O animal está embalsamado, tal qual ficaria no final de Um Coração Simples, a ordens de Félicité que se iria também pouco depois, confundindo beatificamente a ave com o Espírito Santo.
Mas será o papagaio do Museu de Rouen, de facto, o de Flaubert? Assim parece mas, entretanto, um outro papagaio...
Julian Barnes, francófono assumido, escreve aqui um genial ensaio, apresentando-o sob a forma de romance, numa mescla de géneros que dá ao conceito de híbrido um sabor irresistível. Se toda a gente soubesse falar assim dos clássicos, estes conquistariam de certeza o coração de mais leitores. Primeira conclusão.
Segunda: Barnes é um grandessíssimo escritor. Vencedor de vários prémios, O Papagaio de Flaubert foi agora reeditado. Educação sentimental que mistura biografia com humor (a rodos) e envereda descontraidamente pelo pastiche, pelo policial (?), levando-nos a concluir pela impossibilidade das respostas definitivas, o livro questiona o mestre para lhe dar razão.
O obcecado pela objectividade do “mot juste”, o defensor convicto do apagamento do autor (apesar do paradoxo de “Madame Bovary c’est moi”), é esquadrinhado por Braithwaite, seu fã incondicional, que busca o homem por detrás da obra. Mas qual o papagaio que se pode reclamar, realmente, do eremita de Croisset?
Se há título que consegue aliar divertimento e inteligência é este. Porque o texto, claro, é digno do seu objecto.
O Papagaio de Flaubert, Julian Barnes, Quetzal, 2010
1 comentário:
Por que nao:)
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