11/02/10

Ora aqui está outro que nunca me enganou

Bernard-Henri Lévy é como o outro: aborrece-me. Acho-o pomposo e vaidoso, malgré a indiscutível elegância no trajar. Do corte de cabelo não falo.
Cá para mim, limita-se a escrever e a dizer banalidades que servirão talvez para épater le bourgeois mas pouco mais.
"Vertigem Americana" era uma bosta (quem quiser saber porquê pode ler este post da altura) e, volta não volta, alguém lhe denuncia trapalhadas (no referido post estão algumas).
No seu livro mais recente, "De la guerre en philosophie", depois de arrumar com facilidade Hegel e Marx acrescentou-lhes o Kant.
O tiro, porém, saiu-lhe pela culatra. É que para alicerçar a sua "teoria anti-kantiana" recorreu a Jean-Baptiste Botul (1896-1947), o pretenso autor d' "A Vida Sexual de Emmanuel Kant" que por acaso está vivo, é um brincalhão e chama-se Fréderic Pagès.
Botul, o fake (assim como a vida sexual do filósofo alemão que ninguém pode garantir ter existido), saltou da tumba - ou seja, do anonimato - e desmascarou o "novo filósofo" com idade para ter juízo.
Lévy, comme d'habitude e apesar dos cabelos brancos, armara-se aos cágados.

"Ou bien encore Kant, le prétendu sage de Königsberg, le philosophe sans vie et sans corps par excellence, dont Jean­-Baptiste Botul a montré, au lendemain de la Seconde Guerre mondiale, dans sa série de conférences aux néo-kantiens du Para­guay que leur héros était un faux abstrait, un pur esprit de pure apparence - et cela à deux titres au moins: le concept de monde nouménal où s’entend l’écho d’une jeu­nesse spirite, vécue parmi les ombres et les limbes, dans un royaume d’êtres énig­matiques et accessibles par la seule télépa­thie; l’idée, ensuite, des catégories de l’entendement, la manie du transcendan­tal, l’obsession de catégories rigides fonc­tionnant comme un corset et qui semblent parfois là pour contenir une folie souter­raine, donner forme au flux chaotique des sensations, faire barrage à la confusion mentale dont les biographes savent, aujourd’hui, qu’elle le menaçait plus qu’aucun autre - Kant, ce fou furieux de la pensée, cet enragé du concept, dont toute la Critique de la raison pure pourrait se lire, dans ce cas, comme le récit d’un drame intime, une autobiographie secrète et cryptée… Pourquoi est-ce que je dis tout cela?"
Boa pergunta.

Resumindo: o rei ia nu e desta vez toda a gente viu.
O mais divertido, porém, é que o filósofo botulista tenha escrito: [Kant] "era um abstracto falso, um puro espírito de pura aparência." Acho que em psicologia se chama a isto transferência.

6 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Este seu post deixa-me triste, Ana Cristina. Não que discorde de si, mas na altura comprei o "Vertigem Americana". E devo dizer que é o que dá acreditar nos críticos literários - li uma crítica que o comparava ao "Democracia na América", de Tocqueville. É caso para o levar a um alfarrabista?

Não obstante a desilusão, o post de 2008 «Ao vencedor, as batatas», é uma delícia. Venham as plantas, e depressa. Pior do que isto não deverá ser.

Ana Cristina Leonardo disse...

já estamos nos cactos

Carlos Azevedo disse...

Isso é mau: os cactos são resistentes.

Anónimo disse...

Também abomino o BHL - não confundir com o BHV, onde se encontram coisas a preços muito jeitosos - mas acho a ideia de citar as conferências que um especialista na sexualidade de Kant, impostor que fosse, terá impingido aos neo-kantianos paraguaios no final dos anos 40, é muito, muito boa.
AF

Ana Cristina Leonardo disse...

AF, eu tb. acho. Ver BHL citar um filósofo inexistente e conferências do Paraguai é de facto demasiado bom.

lili disse...

Creio que isso é identificação.

Transferência negativa é o que tu fizeste com ele lol