12/05/09

Palavras para quê? É a massa cinzenta a dar o melhor de si

Nunca fui ao Bairro da Bela Vista. Imagino que não seja muito diferente de outros guetos urbanos que por aí existem, em Portugal e no estrangeiro que a modernidade não tem fronteiras. Perante a recente explosão de violência que assolou o dito, notei a propósito alguns comentários supinamente inteligentes.
José Sócrates saiu-se com mais uma daquelas frases de efeito: Nos Estados democráticos não se ataca a polícia. Bom, não sei quem foram os professores de História do primeiro-ministro, mas a verdade (histórica) diz precisamente o contrário: é nos Estados democráticos que a polícia é mais atacada (nos outros já foi tudo engavetado no entretanto…).
Para ajudar à festa, surgiu depois Jerónimo de Sousa garantindo alto e bom som que primeiro tem que se resolver a situação económica e social e as discriminações sociais, afirmação que, se os moradores da BelaVista perdessem tempo a ouvir Jerónimo de Sousa, os teria deixado certamente em estado de choque pelo que contém de condenação eterna ao Far West.
E, na escala da profundidade analítica, tivemos ainda direito a coisas tão sábias como: Os meninos querem carro topo de gama, roupa de marca e muito dinheiro na carteira. Mas não querem estudar nem trabalhar. O ideal seria um “maná” mas isso foi no Antigo Testamento e de temor a Deus só aquelas cruzes enormes que usam ao pescoço.
Se uns teriam que ver o Viridiana para perceber que ser pobrezinho não garante necessariamente um lugar no céu dos explorados e oprimidos, e outros teriam de, no mínimo, imaginar-se adolescentes a viver nos bunkers setubalenses, ao primeiro-ministro talvez lhe bastasse umas lições de História.
Mas o que nenhum dos acima citados gostaria era, certamente, de viver no Bairro da Bela Vista. Já agora, nem eu. E, também por isso, é que me fazem espécie tantas banalidades.
* Uma nota: depois de escrever isto, encontrei isto. E que bem que me soube!

10 comentários:

fallorca disse...

Afifa-lhes, olhanense de sangue na guelra!

Carlos Azevedo disse...

O problema é que ninguém quer saber, excepto quando os telejornais necessitam de umas histórias com tiros para aumentar as audiências. Não me parece que locais como a Bela Vista entrem sequer no roteiro das campanhas eleitorais. É uma terra de ninguém, e, por vezes, ficamos que saber que por lá existe alguém…

Guidinha Pinto disse...

Há bastantes bairros idênticos a este, espalhados pelos grandes centros populacionais. Quem lá vive, vivia em barracas quais cogumelos que populam pelos nossos bosques. Há por lá gente de bem e gente que não sabe, não quer ou não pode controlar a respectiva prole. A falta de tudo leva a nada. Nada é o que eles têem. Nada é o que teremos para lhes oferecer? Assisto a tudo isto, como que anestesiada. Lamento muito estar neste estádio. Não tenho respostas.
Abraço.

F disse...

Os irresponsáveis que foram deixando que a degradação chegasse a este bairro (e a outros), são feios, porcos e maus.
Tenho dito!

fallorca disse...

Não confundamos cinema («são feios, porcos e maus») com desenhos animados, menina F.

cabeça disse...

Os pobres morrem prematuramente!, os ricos muito mais tarde!, conclusão de uma pesquisa efectuada na holanda por artistas com conhecimento da matéria. Os custos de tão intensiva pesquisa foi de 3 milhões de patacos. A minha sorte foi eu estar sentado na abertura do telejornal holandes, se assim não fosse a queda seria inevitavel. A miseria humana é relativa, ou seja!,....a merda é a mesma, o cheiro é realmente diferente. Viver é preciso, navegar,.... já foi preciso. Claro que me canditatei para a proxima pesquisa, só pedi um milhão! com a garantia de entrega rápida! a senhora do outro lado da linha prometeu que dava resposta. Espero!.

F disse...

Pois é, pois é, Sr. Fallorca.

F disse...

Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
Depois vem o stresse, depois vêm os problemas de saúde... e quem é que resiste a tanta miséria?

x disse...

http://videos.sapo.pt/nboeo5HJHGg4s8cvz6CV

Dioniso disse...

Mas será o problema infinitamente complexo ou basta uma pequena engenharia social? Parafraseando as origens da cultura ocidental, devia perguntar-se: porque existem estes sítios e não o nada (nada destes sítios, entenda-se).