15/01/09

Um monte de sarilhos: só falo do que sei

Há muitos, muitos anos, muito antes do conflito de civilizações, tive um namorado muçulmano. Conheci-o em Montmartre, era pintor (naturalmente) e vivia numa casa onde Picasso, o próprio, pintara uns retratos quando jovem artista. Na altura ― há muitos, muitos anos, como disse ― eu era muito namoradeira (um dia contarei como essa característica me afastou definitivamente da extrema-esquerda...). Engatei-o, ou ele engatou-me, para o caso tanto faz, durante uma visita ao bairro. Abdullah, vamos chamar-lhe assim, vendia quadros. E no meio de tanta versatilidade pictórica ― torres eiffel a carvão, meninos com lágrimas a óleo, paisagens pontilhistas e abstraccionismos vários ― os quadros de Abdullah sobressaíam. Naquele dia fiquei ali a olhá-los.
Abdullah tomou-me por compradora e quis-me vender uma obra. Eu disse que não tinha dinheiro. Ele baixou o preço... Depois um pouco mais... Um pouco mais ainda... E foi então que eu lhe contei que não era dali, que vinha de um país pobre e que era pobre. Abdullah tomou-me por pária, como ele, e comoveu-se.
Abdullah era da Côte d'Ivoire, e eu levei mais de uma semana a conseguir traduzir Côte d'Ivoire para Costa de Marfim porque na altura não sabia os nomes dos países em francês. Convidou-me para jantar. Que voltasse às 7, quando dava por encerrado o negócio. Eu respondi talvez e fui à minha vida. Enquanto andava na minha vida, pensava na proposta de Abdullah. Como era muito namoradeira, e tinha gostado muito d' O Fio da Navalha do Somerset Maugham, acabei por voltar a Montmartre, sem o que este post nunca teria existido.
Abdullah já empilhara as obras quando cheguei e olhou para mim (como suponho José Policarpo olharia para a nossa senhora de fátima se esta lhe aparecesse...), duvidando da minha corporalidade. Após tantos convites em vão, la voilà! Acho que foi isso que Abdullah pensou.
Para abreviar razões e este post, eu e Abdullah tornámo-nos namorados. Comíamos galinha picante com sumo de pacote (vinho, jamé!), ele mostrava-me fotografias da Côte d'Ivoire (lindíssimas!), falava-me da família que tinha deixado para trás, do seu sonho de ser pintor à Paris... e telefonava-me dez vezes por dia. Tanto telefonema acabou por atafegar-me, principalmente por causa daquela parte em que ele insistia em saber onde é que eu estivera durante o telefonema anterior que ninguém tinha atendido. Ao pesadelo de Bell juntou-se o do dernier métro: sempre que após um dia passado juntos eu queria ir para casa, Abdullah argumentava com o absurdo dos perigos subterrâneos; mas um homem que tem como namorada uma passante ocasional, que aceita jantar com ele sem o conhecer de lado algum, também deveria saber que não vai ser uma viagem de metro, mesmo tardia, a conseguir retê-la chez soi... Finalmente, Abdullah desatou a querer casar e levar-me à Côte d'Ivoire, onde me apresentaria ao pai, à mãe, à avó, aos irmãos e irmãs, aos tios e aos primos... As famílias demasiado alargadas dão-me claustrofobia e aquilo começou-me a assustar, muito mais do que o último metro que, de facto, por vezes não era seguro. Resumindo: eu estava-me a meter num «monte de sarilhos».
Poupo-vos ao desenlace, para acrescentar apenas que nunca mais vi o Abdullah nem fui à Costa do Marfim. E que dessa parte tenho pena.

16 comentários:

fallorca disse...

Nada como um dente de marfim para matar saudades dos dentes de ouro da Costa do Marfim. O Abdullah que fique com os louros do post

manuel disse...

ah ah ah! O Vila-Matas ia gostar deste texto :)

Milu disse...

Enfim, uma vida plena de aventuras e peripécias!Também eu vivi intensamente, mas, por enquanto, não posso narrar alguns acontecimentos da minha vida!Se o meu filho, que tem 18 anos, deles tomasse conhecimento, perderia de imediato a autoridade de lhe fazer advertências,fosse no que fosse! Tenho a certeza que iria atirar-me à cara a inconsequência que eu própria tinha na idade dele!

Ana Cristina Leonardo disse...

milú, as minhas filhas não frequentam a pastelaria, vão lá aos tascos delas. e têm muito sentido de humor... não levam a mãe demasiado a sério, a não ser quando tem mesmo que ser

© Paulinho Assunção. All rights reserved. disse...

Rubem Focs comenta em Belo Horizonte: "Está aí uma história que gostaríamos de ler também em livro".

fallorca disse...

Manuel e o título podia ser «Paris Nunca Desilude»

Ademar Santos disse...

Agradeço a (fulminante) inspiração: http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2009/01/improviso_quase_coranico

Cristina Gomes da Silva disse...

Ana Cristina, parece-me que o romance que relata e as sucessivas atribulações, ainda por cima num cenário como Paris, radica mais numa jalousie masculina (embora algumas mocinhas também gostem de confundir amor com controlo) do que em relações íntimas e directas com o Corão...

Ana Cristina Leonardo disse...

cristina, a jalousie masculina quando justificada pelo corão pode ser muito assustadora. mas concedo que ter como marido um católico da opus ou um judeu ultra-ortodoxo tb. não será pera doce...

Luís disse...

Genial, como sempre. Tão bom como a narração do 25 de Novembro. Tudo e sobretudo o pormenor dos telefonemas. Nestes comentários registo também o aparecimento de Milu, mais uma leitora quase autora, a braços com uma variante do síndrome de Zuckermann.

Cristina Gomes da Silva disse...

...pois! :)

Ana Cristina Leonardo disse...

luís, a culpa disso é do Flaubert com aquela coisa da madame c'est moi. Já agora: achei graça aos comentários sobre a história do policarpo no seu blogue. há-de ter um nome esse sindrome de pôr o autor a dizer coisas que não disse... também achei graça à forma como comentou os comentários, mas dúvido que tenha sido esclarecedor para os referidos comentaristas. e com isto me calo que este comentário está a ficar um pouco confuso

João Lisboa disse...

Ou "we'll always have Paris".

Faltam-te aí uns "e" em "Ivoire". Mais, bof, les gars, lá bas... y' voient rien.

Ana Cristina Leonardo disse...

João, já corrigi.

Maldonado disse...

A tua sucinta história pessoal expressa um choque cultural.
Nunca conheci nem namorei com muçulmanas, mas conheço um caso duma amiga que viveu uma situação idêntica à tua.
Apesar dos pesares, o Cardeal-Patriarca não deixa de ter razão... e eu não gosto dele e sou agnóstico! :)
Os muçulmanos, mesmo os instruídos, dificilmente se conseguem libertar do peso dos seus arquétipos culturais...

Anónimo disse...

Diz Maldonado, sem maldade ou tolice,que os muçulmanos e cito "não se conseguem libertar do peso dos seus arquétipos culturais".
Mas o trágico não é isso. O realmente trágico é que não se trata de arquétipos culturais, mas sim de fanatismo puro e simples, incutido e mantido por uma propaganda sistemática e brutal que começa na mais tenra infância.
Se cá lhe tivessem feito o mesmo, duvido que Maldonado - e eu também o sou - conseguisse agora ser agnóstico.
O fanatismo islamita, por muito que custe a conceber aos demagogos da nossa praça, é que está a causar, como sempre causou no passado, o tão apregoado "choque cultural".
Não nos deixemos intimidar pelos fundamentalismos sejam de que tipo forem.

José Manuel Vieira