01/01/09

Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, no essencial estou de acordo com Rui Bebiano

Na página da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique deparo com um artigo que me parece pouco sério, assinado por Alain Gresh, editor do jornal, com o título «Gaza: ‘choque e pavor’». Trata-se, a meu ver, de um exemplo de impudor cheio de boa intenções alardeado por certos analistas — mapeados entre a esquerda mais ortodoxa e aquela que se autoproclama crítica mas é incapaz de reapreciar dinamicamente o seu sistema de crenças — sempre que falam da eternizada crise do Oriente Médio.
O autor parte de uma situação assustadora, sobretudo para os civis que não podem escapar-lhe, que se prende com os actuais bombardeamentos israelitas lançados sobre a faixa de Gaza. Pretende aqui, como tantos outros textos o procuram fazer, denunciar a sua brutalidade e protestar contra o seu prolongamento, o que me parece ser uma causa boa e necessária. Os militaristas israelitas não podem sentir-se livres para promoverem uma escalada sem fim e com danos intoleráveis. Mas Gresh fá-lo recorrendo a um conjunto de omissões e de insinuações que não podem servir quem pretenda proceder a uma abordagem equitativa e justa do problema, a qual passa por tudo menos pela consideração das «duas partes» — como se neste conflito seja possível separá-las com toda a clareza sem opções intermédias — enquanto antagonistas de uma luta unívoca entre o bem e o mal.
Começa por ignorar completamente a provocação do Hamas que antecedeu o ataque de Israel, traduzida no lançamento, a 20 de Dezembro, de dezenas de rockets sobre as cidades judaicas de Ashdad e Ashkelon (fala apenas da sua ténue reposta após o início dos bombardeamentos israelitas). Continua tentando provar a «legitimidade democrática» do governo islamita do Hamas quando este tomou o poder de uma forma descricionária após uma guerra de extermínio contra os militantes da Fatah que levou até à fuga de Gaza de dezenas de milhar de refugiados palestinianos. Esquece que, como até o próprio Hamas reconhece, cerca de 250 dos mais de 300 mortos nos ataques da aviação israelita pertencem às milícias do movimento (o que não isenta de crítica esses ataques, mas indica o seu sentido primordial). Ignora a repelente estratégia dos islamitas no sentido de disseminarem quartéis e rampas para o lançamento de rockets no centro de áreas habitacionais que lhes servem de escudo humano. E, finalmente, faz tábua rasa dos direitos históricos dos israelitas sobre a presença na região, que não podem, nem devem, sobrepor-se aos dos palestinianos, mas precisam ser conformados com eles. Não seria preciso tanto para julgar um artigo como parcial e, realmente, pouco honesto.
Amos Oz tem falado repetidamente de uma inevitabilidade que ele próprio já não verá, e muitos de nós não terão também tempo de ver, que é esta, bem simples: irmãos de sangue e vizinhos, palestinianos e judeus, custe o que custar, estão condenados a entenderem-se, a colaborarem, a miscisgenarem-se até. Ainda que contra a vontade de quem, lá como aqui deste lado da Europa, sofre de miopia e se empenha teimosamente em atear rastilhos para alimentar a sua leitura maniqueia do mundo.
Ao contrário deles, prefiro valorizar a sinal de aproximação entre dois universos expresso nesse instinto de proximidade, desenhado por Le Clézio em Estrela Errante, que foi possível desenvolver entre Esther, a judia que fugira aos nazis e chegava a Israel à procura de reconstruir a sua vida, e Nejma, que ao mesmo tempo deixava o país em colunas de refugiados, rumo ao exílio. Leio: «A água, a terra e o céu mistura-se. Há uma brisa que se espalha e oculta imperceptivelmente o horizonte. (…) Tudo está calmo no molhe.» Um dia, contra os cães raivosos, também as pessoas partilharão o destino comum dos elementos. Até que esse dia chegue, porém, convirá que não façamos por adiá-lo alinhando cegamente num dos lados do partido do ódio.
Roubado, dispensada a cerimónia, daqui.

10 comentários:

rui g disse...

Já está na altura, de facto, de algumas pessoas abrirem os olhos. Também eu fui, até há muito pouco tempo, radicalmente contra Israel. Só que as coisas não se explicam com tanta facilidade e a melhor forma de interpretarmos estes fenómenos é não esconder o que é feito dos dois lados do conflito.

t.o r.k.m u.r p h.y... disse...

concordo plenamente com tudo o que é dito, exceto no que diz respeito ao tal direito histórico dos israelenses... se todos os povos do mundo reivindicassem este direito, teríamos que recuar a um improvável mapa de milhares de anos atrás... :)

rui g disse...

«Também eu fui, até há muito pouco tempo, radicalmente contra Israel»

Agora deixei de ser radical, mas continuo contra...

«israelenses»

Não será israelitas? (é um pequeno reparo com consequências benignas, pois qualquer um se pode enganar)

Ana Cristina Leonardo disse...

Rui, agora perdi-me. Ser contra um país (radicalmente ou não radicalmente) quer dizer: ser contra a sua existência?
Quanto a israelitas versus israelenses suponho que seja o caso de não se aplicar o tal acordo ortográfico
t.o r.k.m u.r p h.y..., podemos falar de direito histórico. A Palestina, se bem se lembra, era uma colónia inglesa, de onde os ingleses se piraram lavando as mãos (aliás, como fizeram também na Índia...)

rui g disse...

«Ser contra um país (radicalmente ou não radicalmente) quer dizer: ser contra a sua existência?»

Isso é coisa para fanáticos islamistas. Não vou por aí. Mas para um ateu, é difícil compreender as tais razões históricas. Mas também não é isso que ponho em causa. No fundo, expliquei-me de forma deficiente: o que eu não gosto nos israelitas (ou israelenses) é a forma excessivamente brutal como costumam reagir contra o mal que lhes fazem. Quanto ao conflito em si, ao ponto a que isto chegou, que ninguém lave daí as suas mãos.

t.o r.k.m u.r p h.y... disse...

com relação a israelitas ou israelenses, aqui no brasil usamos a segunda opção... talvez porque a primeira carregue uma aproximação com os “ismos”, tipo capitalismo, comunismo, cristianismo... daí, os anarquistas, islamitas (sem o s), israelitas... neste último caso, uma referência aos judeus de israel... lembrando que neste estado vivem muitos não-judeus nascidos em israel e, consequentemente, de nacionalidade israelense... o mesmo aplica-se (no brasil) a hindu/hinduísta x indiano... agora, cá pra nós, não sou eu o responsável pela cunhagem dos gentílicos, aqui ou aí, em português ou em qualquer outro idioma... aliás, percebe-se uma total falta de regras, contradições (basta reparar no gentílico “brasileiro”, que tem como origem uma função) etc., e desconheço implicações do acordo ortográfico quanto a isto...
quanto a questão histórica, israel (ou palestina), dividida pelos próprios judeus entre judá e israel, logo deixaria de ser um estado independente... seguiram-se assírio-babilônicos, persas, macedônicos, romano-bizantinos, árabes, otomanos e, finalmente, os ingleses que, com o apoio dos franceses, russos e americanos, permitiram a ação da união sionista internacional que, por sua vez, promoveu a compra de terras e a imigração maciça dos judeus... a criação do estado foi, em grande parte, um reconhecimento e uma compensação aos absurdos do nazismo mas, por outro lado, também uma traição aos acordos previamente feitos com os árabes...
não tenho nada contra judeus, árabes ou quem quer que seja... gostaria mesmo é de vê-los vivendo numa boa... apenas contestei o “argumento histórico” contido na postagem... a história humana não pode ser negada ou revista à luz de uma justiça “atualizada”... os judeus conquistaram a palestina ao longo da primeira metade do século vinte, com astúcia, inteligência e garra, mas não tinham nenhum direito histórico sobre aquela terra... apenas foram mais fortes... a história, porém, é uma sequência de consequências... e são estas que se apresentam, alimentando uma milenar e perigosa antipatia a um povo que, em grande parte, sustenta-se, como grande parte de todos os outros povos, sobre os dogmas da irracionalidade...

rui g disse...

t.o.r.k.m.u.r.p.h.y...

Esclarecido quanto aos israelitas versus israelenses (afinal, tudo se deve a ignorância minha). Quanto ao resto, estou, basicamente, de acordo. P.S. Não sabia é que este blog era tão universal. (eh eh)

t.o r.k.m u.r p h.y... disse...

he, he... tá certo... espero que esta minha intromissão não tenha incomodado ninguém...

Ana Cristina Leonardo disse...

t.o r.k.m u.r p h.y..., quem falou em intromissão? brasil de onde, já agora?

t.o r.k.m u.r p h.y... disse...

sul, santa catarina, agora em blumenau...