06/11/08

Obras-primas

William S. Burroughs dizia que a linguagem é um vírus vindo do espaço; para uma católica como Flannery O’Connor seria certamente um «vírus» vindo de Deus. E assim a lemos, mesmo que não nos toque a fé: indiscutível é que ela escreve em estado de graça.
O Céu É dos Violentos é um livro perfeito. Segundo e último de uma bibliografia curta e precocemente interrompida aos 39 anos – quando a escritora morre na sequência de lúpus –, foi editado pela primeira vez em 1960. Anterior, apenas o romance Sangue Sábio (1955), a que se somam as colectâneas de contos Um Bom Homem É Difícil de Encontrar (1955) e, editado já postumamente, Tudo o que Sobe Deve Convergir (1965).
«E desde os dias de João, o Baptista, até agora, o reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam à força»: a citação, retirada de Mateus 11:12, subjaz ao título e introduz-nos na atmosfera do texto, que começa com uma morte natural e termina com um incêndio redentor: porque o que nos destrói será também o que nos pode salvar.
Francis Tarwater, o protagonista, é um órfão de 14 anos que vive isolado do mundo com o tio-avô Mason Tarwater. Este, um fanático religioso, raptara-o ainda criança de casa do tio Rayber, homem de cultura secular e racionalista, na esperança de fazer dele um profeta. Quando Mason morre, logo na primeira linha do primeiro capítulo, o jovem decide partir para a cidade à procura do tio, que, entretanto, se tornara pai de uma criança deficiente mental, Bishop, cujo baptismo é uma obsessão para Francis.
Soterrado pelo peso das profecias com que o velho Mason lhe enchera a cabeça e o coração, o órfão dispõe-se a enfrentá-las e, negando-as, a libertar-se e autonomizar-se; contudo, ironicamente, cada passo em frente no sentido da libertação como que se transforma na ratificação do destino a que deseja fugir. Entre a histeria religiosa de Mason e a descrença atávica de Rayber, escolherá trilhar o caminho mais duro, o da água e do fogo, ambos os elementos implicando morte – a de um inocente e a do seu passado.
Brilhante na construção, que nos deixa suspensos no desenrolar da trama; incisivo no retrato das personagens, que se desnudam à nossa frente oferecendo-se como que em movimento sacrificial; virtuoso na linguagem, cuja carnalidade nos obriga a olhar de frente, tanto o real como o seu mistério, O Céu É dos Violentos é uma obra-prima que nos chega dos lados de Faulkner e Poe. Ou seja, não é literatura para copinhos de leite.

6 comentários:

Ana Sofia Couto disse...

Também descobri Flannery O'Connor com um sentimento de assombro.

Victor Afonso disse...

É uma excelente proposta para começar a conhecer o universo literário de O'Connor.

t.o r.k.m u.r p h.y... disse...

parece mesmo muito bom... valeu!

fallorca disse...

«William S. Burroughs dizia que a linguagem é um vírus vindo do espaço; para uma católica como Flannery O’Connor seria certamente um «vírus» vindo de Deus.»
Só falta o meio, para sentar lá a virtude...
Saia um descafeínado e um copo de água (del cano), se faxabor...

Ana Cristina Leonardo disse...

fallorca, tudo menos um copinho de leite

Cristina GS disse...

Tenho andado a hesitar, mas se diz que vale a pena... Vou ler, até porque não gosto nada de leite :)