12/10/08

«O Arquipélago da Insónia», de António Lobo Antunes


De acordo com a famosa máxima do ensaísta inglês Walter Pater (1839-1894), «all art constantly aspires towards the condition of music, because, in its ideal, consummate moments, the end is not distinct from the means, the form from the matter, the subject from the expression (...)». Esta concepção da música como a «grande arte» parece ajustar-se cada vez mais à escrita de António Lobo Antunes. O seu último título, O Arquipélago da Insónia, indiferente ao pretexto ficcional ― ascensão e queda de uma família latifundiária alentejana (?)―, surge habitado por uma polifonia de espectros, soando como uma melodia riscada por frases e sons sincopados e crispados, agentes devoradores da própria partitura do texto que, ainda assim, sobrevive.
No princípio há uma casa: «De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?». Depois vão saindo dela, em lenta procissão, as personagens (mortas ou vivas?, acabará por perguntar-se o leitor que não pode evitar Pedro Páramo, de Juan Rulfo): um avô («comandando o mundo»), criadas submissas («― Chega cá»), dois irmãos, um deles autista («repara no meu irmão que não responde a nada interessado na música», uma avó («a chávena da minha avó a tremelicar no pires»), um feitor («sob as nogueiras a lutar com os sapatos sem dar com as árvores sequer conforme lhe sucedeu pisar o padre que se sumia na terra»), um ajudante de feitor («Para alguma coisa há-de servir esse idiota»), um pai («e ninguém ao seu lado, você sozinho pai e todavia à procura, as mãos a segurarem o que julgava as mãos da minha mãe»), uma mãe («alguma vez a vi sem ser de costas para mim?»)... somando-se a estas outras tantas, fios frágeis de um emaranhado narrativo que, à maneira de um sonho, tanto escapa à temporalidade sequencial como às leis de causa e efeito. E, também por isto, trata-se de um livro do qual se gosta mais à segunda leitura.
Chegados aqui, teria de nos vir à cabeça O Som e a Fúria, de William Faulkner, escritor que António Lobo Antunes diz ler cada vez menos mas de cuja família literária não poderá fugir. Precisamente sobre a tragédia da família Compsons, escreveu ele: «(...) possui a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos». Mas se, como na extraordinária obra do Nobel americano, também em O Arquipélago da Insónia há uma família decadente e um «Idiota» a que se quer dar voz, torna-se arriscado ir mais longe nas comparações. Neste as vozes misturam-se (uma só, afinal?), o ritmo delirante é omnipresente, a alucinação é indistinta do real e vivos e mortos trocam de papéis, esfumando-se, uns e outros, em fotografias antigas sem futuro. As palavras atropelam-se, interrompem-se, rodopiando indiferentes às regras da identidade, da linearidade, indiferentes também à preguiça do leitor, esse leitor que já Machado de Assis interpelava ironicamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas: « (...) tu amas a narrativa direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem». Neste caso, claro, o estilo chega expurgado de realismo, mero pretexto imagético para um exercício radical de linguagem: onírica, exacta, cruel (a morte, o sexo e o crime mancham O Arquipélago da Insónia), nunca descarnada, à imagem da música ― a mais racional e sensual das artes.
E também por mais este livro, mesmo se distinto da condição mágica de «Iniji», se poderá dizer da busca literária de António Lobo Antunes o mesmo que J.M.G. Le Clézio disse a propósito dessa espécie de poema assinado por Henri Michaux: «As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam. Talvez seja preciso abandonar tudo
Fotografia de Enric Vives-Rubio

11 comentários:

Anónimo disse...

Ai tanta kultura junta, meu deus(es)! Kadé do drama do 2+2=5? Nem uma palavrinha? O que se passa realmente?!?

Táxi Pluvioso disse...

Paulo Teixeira Pinto: "não há razões para preocupações com bancos portugueses". Quem sabe nunca esquece e o novel poeta dá confiança ao mercado.

Anónimo disse...

Que lhe fizeste, que está tão tristinho?

manuel disse...

http://sic.aeiou.pt/online/scripts/2007/videopopup2008.aspx?videoId={EAD72251-568C-44FA-835D-D487BBFC92D3}

O Lobo entrevistado pelo Mário Crespo.

Ana Cristina Leonardo disse...

Manuel, até tenho medo de lá ir...

Anónimo disse...

E tem razão para ter medo... a entrevista é algo... macabra.

António.

Anónimo disse...

Não era bem macabra que eu queria dizer, mas bizarra. Bizarra está bem.

Pena terem cortado a última parte, em que o Lobo Antunes e o Mário Crespo dão um beijo de língua.

António.

Anónimo disse...

Cristina, não sei o que é mais alucinante, se o "Arquipélago da Insónia", se a sua crítica ao mesmo. São ambos angustiantes; o primeiro,uma dor profunda que nasce (de onde?) do humús fétido e vital (?!), que nos inunda de lágrimas;a segunda, deixa-nos no limite do querer. Abandonar????
Claro, palavras, meras palavras; mas que criam/distorcem o ser.
Adorei

Ana Cristina Leonardo disse...

anónimo, não posso charmar-lhe mais nada porque não tem nome, embora me trate por Cristina, que eu gosto. Obrigada. O livro do Lobo Antunes merece

José Alexandre Ramos disse...

Pela qualidade do artigo, gostaria de incluí-lo no espaço dedicado ao livro em questão no site sobre António Lobo Antunes (www.ala.nletras.com). Caso não concorde com a citação (que será acompanhada do nome do autor e fonte, com link), por favor escreva para alawebpage@gmail.com. Desde já o meu muito obrigado. Boas Festas.

Anónimo disse...

Howdy! I could have sworn I've been to this site before but after reading through some of the post I realized it's new to me.

Anyhow, I'm definitely happy I found it and I'll be book-marking and checking back often!


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