02/06/08

Terminado Maio, a pergunta a fazer será esta: que género de soixante-huitard és tu?

Olá! O mês de Maio acabou e com ele devem também acabar os artigos, palestras, análises, debates, livros, ensaios, documentários e testemunhos sobre o Maio 68. Tudo isso quanto a mim só demonstra que o maralhal que nessa época se dizia e julgava revolucionário é hoje o maralhal que domina os centros de decisão cultural – jornais, rádio, televisão, cinema. Tenho a dizer que não vejo nada de mal em que esta nova classe cultural dominante se anime de vez quando com um banho de nostalgia. O que é certo é que, caso contrário, o “Maio 68” não teria a importância que se lhe dá, principalmente tendo em conta que quando se fala em “Maio 68” se refere um período de poucas semanas em Paris e não um ano que teve também abalos noutras partes do mundo, particularmente nos países “socialistas”.
Maio de 1968 foi uma francezise, 1968 (sem o Maio) foi (talvez) importante e, em alguns casos, marcado pelo assassínio de figuras importantes (Martin Luther King e Robert Kennedy nos Estados Unidos) que resultou em actos de violência que marcaram esse ano.
Em Paris o Maio acabou como começou: com o maralhal a regressar às universidades e os trabalhadores às fábricas, trabalhadores esses (apresso-me a dizer) que pouca ou nenhuma solidariedade prática demonstraram com os estudantes e intelectuais. (Não me posso esquecer que em 1972, a trabalhar numa fábrica na Dinamarca, um ‘proleta” local me disse que em 1968 tinha ficado irritado com a estudantada “desorganizada e irresponsável”. Ainda na minha ingenuidade socialista tomei nota para me disciplinar. De imediato cortei o cabelo o que levou o tal proleta a dizer-me no dia seguinte que eu não o devia ter cortado porque “as gajas gostam de gajos com cabelo preto comprido”).
Mas voltando a 1968, parece-me que esse ano foi um tanto ou quanto esquizofrénico. Ao fim e ao cabo, e para citar creio que Milan Kundera, Maio de 68 foi em Paris um acontecimento de “lirismo revolucionário” mas nesse mesmo ano deu-se a “Primavera de Praga” que foi “uma explosão de cepticismo pós-revolucionário”. É preciso não esquecer que foi também em 68 que Fidel Castro – vestido de verde oliva à revolucionário – deu o seu aval à invasão da Checoslováquia, pondo assim fim à fantasia de uma terceira via “revolucionária” aparte dos exemplos soviético e maoísta.
O que representa 1968? Talvez, portanto, várias vertentes. Uma delas o lirismo perigoso daqueles que ainda acreditavam (acreditam) na revolução messiânica totalitária marxista-leninista e que acabaram nas franjas do Bader Meinhof, Brigadas Vermelhas, Exército Vermelho, etc., ou mais recentemente a apoiar o regime fascista/assassino de Saddam Hussein e o “sempre em pé” totalitário Fidel Castro, senão mesmo os Taliban na luta contra o “imperialismo”.
Alguns desses foram para o cemitério, outros para a cadeia, outros para o caixote do lixo da história e outros estão ainda na longa marcha para esse destino. Outra vertente será a que olha para 1968 (Paris, Checoslováquia, Portugal) e vê os acontecimentos desse ano não só um acto de revolta contra certos parâmetros da sociedade ocidental mas também (e talvez mais importante) como o princípio do fim do socialismo de bandeira vermelha, exemplificado no que se passou na Checoslováquia, nos primeiros sinais de revolta na Polónia e nas posições de Fidel Castro. Sintomaticamente, Che Guevara tinha morrido em 1967, vítima das suas próprias fantasias totalitárias de uma terceira via social-fascista, atraiçoado pelo campesinato boliviano que não alinhou nas referidas. Fidel mostrou ser mais realista quanto ao exercício do poder totalitário. 1968 em Paris em Maio foi talvez um episódio vislumbrante das eternas discussões filosóficas francesas mas foi também e acima de tudo teatro de rua com bons pecos: “as paredes têm ouvidos, os teus ouvidos têm paredes”, “sous les pavés, la plage”, “cours camarade le vieu monde est derrière toi”, "numa sociedade que aboliu a aventura a única aventura possível é abolir a sociedade”, “quando a assembleia nacional se transforma num teatro, todos os teatros devem-se transformar em assembleias nacionais”.
No ocidente, incluindo a França, 1968 – enquanto movimento revolucionário – pouco impacto histórico teve senão paradoxalmente o de fortalecer o individualismo e de tornar os ditos revolucionários em – como diria Lenine – “idiotas úteis”, só que neste caso ao serviço do individualismo, uma das condições essenciais do capitalismo. O irónico será com efeito que se se seguir a interpretação antitotalitária dos acontecimentos de 1968 , eles marcaram não o fim do sistema democrático ocidental (que, pelo contrário, se fortaleceu, cresceu e forneceu prosperidade e inovação), mas sim o triunfo do individualismo e o princípio do fim do colectivismo e da sua ideologia, não só no ocidente como também nos países “socialistas”.
A pergunta a fazer é talvez esta: que “soixante huitard” és tu? Um/uma que segue os “diktats” dos comités partidários e/ou das ideias filosóficas “du jour” ou um/uma que segue o graffiti que afirmava: “não me libertem; eu encarrego-me disso”?
Abraços
Da capital do Império
Jota Esse Erre

3 comentários:

Ademar Santos disse...

Na jardim zoológico da criação, também há espécies que se deixaram extinguir, por ausência de contexto civilizacional. Essa, por exemplo. Não sobra, de Maio, já ninguém nas jaulas, nem para saudar, simplesmente, o Alberto Pimenta, que ainda vai patrioticamente resistindo. Quem lá esteve, desertou. Há meses (dizem) que as grades sufocam. Ainda que apenas de análise: as consabidas grelhas...
De Maio, percebia a Virgem de Fátima. E a irmã Lúcia, que a inventou, entre caligrafias e iluminuras...

Anónimo disse...

Maio nunca acabou. Como diz J.C Milner," Maio 68 continua a sublinhar: A revolução não é para os outros, para mais tarde. É para nós, aqui e agora! ".Por favor, não sejam ultra-periféricos e mais-papistas do que o Papa! o JSR tentou fazer uma manobra de diversão de pechisbeque, onde a ambiguidade é lei! O resto são como as cantigas do Renaud, que o G-E Debord pôs a mexer com um pontapé-no-rabo da Internationale Situationniste! Salut! FAR

leprechaun disse...

Claro que a gente se encarrega disso... não há outro modo, ó negra cabeleira prò derriço! :)

Mudar o mundo, mudando o coração no fundo!

Mas com pêlo curto ou comprimido...

Rui leprechaun

(...um par Gnomo-Sininho é sempre querido! :))


PS: Ei! E os tais antibióticos, afinal?! Bem, eu cá por mim preferia uns iogurtes... mai-los sumos e choucrouttes! :D