21/04/08

É uma injustiça maior ler Philip Roth e não ler John Updike

«– Fode-me – diz friamente, lançando a combinação para a cozinha e, quando está debaixo dele, esforçando-se, continua: – Harry, quero que me fodas para tirar toda a merda de dentro de mim, toda a merda e a tristeza deste mundo de merda, magoa-me, limpa-me, quero que sejas as minhas entranhas, meu querido, até à garganta, sim, oh sim, maior, mais, que me arranques tudo, meu doce, meu doce cretino – os olhos dela dilatam-se de surpresa. O verde é apenas um rebordo em volta das pupilas cujo negro puro está enlameado pela sombra dele.
– Gozaste pouco.
É verdade: toda a conversa dela, o seu desejo violento, assustaram-no convertendo-o em nada. Ela está demasiado húmida: alguma coisa a alagou. E a solidez de cera do seu corpo jovem, as esferas demasido perfeitas do seu traseiro, parecem-lhe desconhecidas: ele agarra-a através de uma distância ensombrada pelos ossos quentes e secos da mãe e pelas curvas morenas de Janice, a meia-lua das costelas de Janice por cima da reentrância da cintura. Os sentidos dele notam ventos que perpassam os terminais nervosos de Jill, fazendo-a mover-se por meio de qualquer coisa para além dele, da qual ele é apenas uma sombra, uma sombra branca, o seu peito um escudo radiante que a esmaga. Ela liberta-se e ajoelha-se para levar a língua ao ventre dele. Jogam um com o outro num nevoeiro. Os móveis difundem-se em redor. Estão na carpete áspera, o ecrã do televisor é um planeta-mãe por cima deles. Ele sente o cabelo dela na boca. O traseiro dela ergue-se como duas corcovas sob os olhos de Harry. Ela tenta vir-se na cara dele, mas a língua de Coelho não é assim tão forte. Jill esfrega-lhe o clitóris no queixo até o magoar. Morde-o algures. Ele sente-se esvaziado, estúpido, flácido. Por fim, pede-lhe que arraste os seios, as pequenas pontas duras, contra os seus genitais, que jazem aconchegados na união das suas pernas. É assim que se excita, tenta satisfazê-la e consegue, embora, quando ela estremece e se vem, cada um chore recônditos segredos lá longe, em direcções opostas, a filha da Lua e o homem da Terra. «Amo-te», diz ele, e o facto de não a amar faz com que seja verdade», pág. 202.
John Updike, Regressa Coelho, Civilização, 2008

14 comentários:

Paulo disse...

Pois é. Corre, Coelho marchou muito bem. Harry podia perfeitamente ser um primo suburbano do Sueco.

fallorca disse...

Ora aqui está uma excelente maneira de começar o dia. Saia uma bola de berlim, mas com muito "corrimento"... fiufiufiu

Joana Dalila Santos disse...

Para mim a bola pode ser normal!

fallorca disse...

ahahahahaha, se a dona da pastelaria nos aoanha, ainda somos corridos com o pano da louça

N. disse...

não sei, só pelo excerto eu diria de caras continuar a preferir Roth. (eu devo ter vivido um caso sério com Michey Sabbath naquele livro e arranjei um problema grave; passo a vida a comparar todos os outros com ele)

N. disse...

agora é que eu vi que o Paulo referiu o Sueco. Ah, assim sendo!... (o Sueco? O Sueco nem chegou a gemer, com um raio!)

N. disse...

o que me fez repudiar (em comparação) este texto com outro do Roth foi isto:«recônditos segredos»
não o percebi logo, só agora que voltei incomodada por ter sido rude com John Updike. Percebi ainda que, se não me acautelo, posso tornar-me numa pulha miserável picuinhas.
Tenho que ler isso!

margarete disse...

(eu devo ter vivido um caso sério com Michey Sabbath naquele livro e arranjei um problema grave; passo a vida a comparar todos os outros com ele) :D:P

Paulo disse...

l0l!

fallorca disse...

Margaret, no melhor pano pode cair uma discreta pinga de Margarida, a da Vaqueiro, percebe? Ah, pois...

N. disse...

"Margaret, no melhor pano pode cair uma discreta pinga de Margarida, a da Vaqueiro, percebe? Ah, pois..."

fallorca, agora fiquei eu em pulgas!Ah, pois...

margarete disse...

...uma espécie de faroleiro?

fallorca disse...

Contra as pulgas, nada como o Program Plus (passe a pub), testado com excelente resultado nos meus canitos, déb

Ana Cristina Leonardo disse...

as conversas são como as cerejas... mesmo as literárias