09/04/08

O Clube das Pessoas Normais

Há um ano, voltei a escrever contos, mas sem me dar conta de que, na realidade, continuava com os hábitos de romancista. Continuava a utilizar um tempo moroso, nada adequado ao relato. (...) Mas o maior conflito não tinha origem unicamente nesse lastro de maus hábitos adquiridos como romancista. A tensão mais forte era provocada pelo duro esforço de contar histórias de pessoas normais e ter, ao mesmo tempo, de reprimir a minha tendência para me divertir com textos metaliterários: o duro esforço, resumindo, de contar histórias da vida quotidiana com sangue e fígado, tal como me tinham exigido os que me odeiam, que me haviam censurado excessos metaliterários e «ausência absoluta de sangue, de vida, de realidade, de apego à existência normal das pessoas normais».
Sem saber que os que me odeiam me censurariam também o contrário, quer dizer, que me recriminariam por qualquer coisa que fizesse, entreguei-me com a melhor das vontades aos contos com pessoas normais, de carne e osso, sangue e fígado. Não é que fosse algo antinatural para mim, mas logo a partir do primeiro momento senti-me muito pouco à vontade com as vísceras, o suor, o odor, as frases vulgares e as lágrimas dos meus personagens. Não conseguia esquecer-me até que ponto me identificava com Paul Valéry, quando este assegurava que a sua mente não estava feita para os romances tradicionais, uma vez que as suas grandes cenas, as cóleras, as paixões,
os momentos trágicos, longe de o exaltarem, chegavam-lhe como reflexos miseráveis, estados rudimentares onde toda a estupidez anda à solta, onde o ser se simplifica até ao disparate».
(...)
Suei em bica com as secreções e exsudações dos meus personagens, fiz um esforço incrível para mostrar «apego à existência normal das pessoas normais». E ultimamente já me sinto bem adaptado à minha nova asquerosa vida. No fundo, contistas como Raymond Carver sempre me impressionaram, com todas as suas histórias de empregadas de hotel e camionistas e outros seres anódinos, perdidos no cinzento de um dia-a-dia sufocante. Reconheço que é um dos génios do conto. Também gosto desses autores que, por exemplo, descrevem um campo de batatas com uma precisão magistral. Eu, porém, sempre tive muita dificuldade em fazê-lo. Se tinha de descrever um campo de batatas, fazia-o, mas tratava-se de batatas a germinar numa cave, por exemplo, e acabava por ter de corrigir-me a mim mesmo, batendo sadicamente na mão com que escrevia esses surrealismos.
Dediquei-me a falar de seres correntes e vulgares, quer dizer, de indivíduos encolerizados, apoplécticos e analfabetos, mas correu-me mal, muito mal. E tudo para que dissessem que tinha mudado um pouco de estilo. É absurdo, porque, no fundo, eu deveria saber que para mudar de estilo basta mudar de tema. Correu-me mal, porque transpirei muito com os meus personagens. Os do primeiro conto, por exemplo, não conseguia esquecê-los. Passavam o dia metidos na minha cozinha, a discutir enquanto lavavam pratos. Discutiam por tudo e por nada. Era um desses casais que estão sempre a atirar pratos, literalmente, à cabeça um do outro. Chateavam-me, mas no entanto tornei-me preciosista com eles, nem um erro no momento de abordar a sua imensa vulgaridade com precisão. O grande problema surgiu quando descobri que nunca saíam de casa. Levantava-me à meia-noite, por exemplo, para ir buscar qualquer coisa ao frigorífico, e lá estavam os dois, encostados à parede do corredor, junto da cozinha: insones e sujos. Um dia, ouvi-os comentar que se tinham inscrito no Clube das Pessoas Normais. Que ternura, que personagens mais deliciosos. Embora os ache com demasiada carne, nariz e osso. Além disso, quantos contos já se terão escrito sobre os mesmos disparates? (...)
«Suar em Bica», in Exploradores do abismo, Enrique Vila-Matas, Teorema, 2008

5 comentários:

miguel. disse...

é impossível resistir a mais um Vila-Matas... :)

quim seguro disse...

Já anda por aí?

Luis Eme disse...

boa pergunta...

Ana Cristina Leonardo disse...

Anda por aí, anda.

fallorca disse...

E foi de suar em bica...