17/01/08

Coisas recomendáveis, para variar, ao contrário do Tony Blair que não vem agora a propósito mas do qual hei-de falar noutro post

«(...) Não digas à mamã. Foi o mantra das nossas infâncias, ou um deles. Não digas à mamã. Isto dito pela Midge, especialmente, mas também por qualquer dos mais velhos. Se se partia ou entornava alguma coisa, se a Bea não vinha dormir a casa ou Mossie ia viver para o sotão, ou Liam deixava cair ácido, ou Alice tinha relações sexuais, ou Kitty sujava de sangue o uniforme da escola, ou quaisquer mensagens telefónicas acerca de atrasos, engarrafamentos, problemas com o dinheiro do autocarro ou do táxi, e uma vez, catastroficamente, a noite passada por Liam na prisão. Nenhuma das mensagens era transmitida: a conferência sussurada no vestíbulo, Não digas à mamã, porque a «mamã poderia» - o quê? - expirar? A «mamã» ia ficar preocupada. O que não me parecia nada mal. Afinal era produto seu, esta família. Todos tinham saído - individual e dolorosamente - dela. E o meu pai dizia-o mais que qualquer outro de nós, galante: Não há necessidade de dizer à vossa mãe agora, como se a realidade da cama dele fosse toda a realidade que se deveria pedir àquela mulher que suportasse», p.14
Corpo Presente, Anne Enright, Gradiva, Dez. 2007

3 comentários:

cds disse...

isso parece-me muito bom, mesmo! só tenho pena de ter praí 5 livros em lista de espera, e pouco tempo para lhes dar andamento...

Milú disse...

"Um homem jovem, coroado já de alguns cabelos brancos, caminha pelas ruas de Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derrama sobre a Rambla de Santa Mónica como uma grinalda de cobre líquido.
Leva pela mão um rapaz de uns dez anos, olhar embriagado de mistério perante a promessa que o pai lhe fez ao alvorecer, a promessa do Cemitério dos Livros Esquecidos.
- Julián, não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje. A ninguém.
- Nem sequer à mamã? - inquire o rapaz a meia-voz.
O pai suspira, amparado naquele sorriso triste que o persegue pela vida.
- Claro que sim - responde. Para ela não temos segredos. A ela podes contar tudo."

Carlos Ruiz Zafón, in "A Sombra do Vento".

Ana Cristina Leonardo disse...

milú, é um prazer sempre que visita a pastelaria