20/09/07

PORQUE HÁ COISAS QUE ME IRRITAM. E ANDAM POR AÍ A DISTRIBUIR O FILME «A QUEDA» À BORLA

Não fora os acontecimentos narrados em A Queda terem ocorrido há pouco mais de 60 anos, poderíamos pensar neles como num engenhoso enredo, e isto apesar da pobreza dos diálogos. O problema é que aconteceram mesmo há seis décadas, levaram ao extermínio de cerca de 6 milhões de judeus e 500 mil ciganos - apenas por o serem -, e subtraíram ao mundo 50 milhões de vidas.
Grande parte dos comentários ao filme sublinhou algo aparentemente simples: pela primeira vez fora mostrado o lado humano do Führer.
Confesso que senti alguma dificuldade em compreender o que queriam dizer. Porque a não ser que partilhemos do tipo de ignorância confessada por Woody Allen - «Juro que não sabia que Hitler era nazi. Durante muito tempo pensei que ele trabalhava para a companhia dos telefones» -, dificilmente encontraremos alguém que, por muito esotérico, acredite num Hitler vindo de Marte. Conhecem-se-lhe os progenitores e não consta que a mãe tenha recebido a visita de qualquer extraterrestre alado. Sabe-se onde nasceu, quando nasceu, onde andou à escola, quanto media, e até o momento em que deixou crescer o bigode.
Declarações do realizador Hirschbiegel reforçaram as minhas dúvidas: «Tem havido vozes preocupadas por termos representado Adolf Hitler como ser humano. Mas é ridículo olhar para os nazis como enviados do diabo. O mal está presente em todos nós». Não podia estar mais de acordo. Embora também não deixe de ser verdade que alguns de nós são bastante mais mauzinhos do que outros.
Assisti à fita no Goethe Institut de Lisboa com dezenas de pessoas de todas as idades, que não arredaram pé apesar das cadeiras improvisadas e dos intervalos para rebobinar a película. No fim prolongou-se o silêncio e, pelo menos em alguns, notou-se desconforto. Bruno Ganz fora brilhante.
À parte o consenso sobre a prestação do actor suíço, houve polémica. Em Israel discutiu-se a exibição comercial do filme, em respeito pelos 280 mil sobreviventes a viver no país. Wim Wenders, notando que a morte de personagens anónimas enche regularmente a tela, questionou o pudor do seu colega em mostrar a morte do ditador e de Goebbels; na sua opinião, ao desviar o olhar da câmara dos momentos finais dos dois assassinos, Hirschbiegel contribuia para a sua mitificação. Nas palavras sarcásticas do realizador de Ao Correr do Tempo, «pelo menos em Resident Evil (um filme gore de 2002) sabemos quem são os maus».
Na mesma linha, o «New York Times» notava que «ao lado de Goebbels e de Hitler, muito dos outros nem parecem tão maus como isso». O jornal suíço «Neue Zürcher Zeitung» afirmava que combater a diabolização de Hitler era uma coisa boa, «mas obviamente muito pouco quando se abdica ao mesmo tempo de qualquer análise política». Mas talvez a abordagem mais interessante que li tenha sido a de David Denby na «New Yorker».
Num texto chamado «Back in the Bunker», Denby pergunta: «Considerado como biografia, o resultado (...) d'A Queda é mostrar que o monstro não era sempre um monstro - simpático com a cozinheira e com as jovens secretárias, gostava do seu pastor-alemão Blondi e estava rodeado por subordinados fiéis. Chegamos à questão: Hitler não era um ser sobrenatural; era um homem comum que alcançou o poder pela vontade dos seus apoiantes. Mas é isto uma resposta suficiente para o que Hitler realmente fez?»
Não. Com certeza. Nem terá Hirschbiegel querido chegar a tanto. Mas então o que pretendeu? Que Hitler tinha um cão do qual gostava muito, era educado com as mulheres, comia ravioli e acabou vegetariano, já se sabia.
Imaginemos agora um espectador que ignore em absoluto a História. Não poderia ele legitimamente resumir o que se passa na tela à tragédia de um homem abandonado pelos seus correligionários, chefe militar implacável que manda abater os traidores e premeia a coragem (a cena de condecoração dos jovens é patética, mas é-o apenas porque nós sabemos que - na realidade - aquelas crianças são marionetas de um mundo grotesco), porventura um velho demente, a espaços muito desagradável embora quase digno de dó (não se mata ele no final)? Não poderia esse espectador chegar a ver nobreza nos suicídios perpetrados por vários dos seus apoiantes?
Há, claro, a cena terrível em que os seis amorosos e louríssimos filhos de Goebbels são mortos pela mãe (com maldade, Benby comenta que «é como se os pequenos Von Trapp tivessem sido silenciados de vez»). Ainda aí, não poderá o espectador desconhecedor do verdadeiro enredo ser levado a desculpabilizar Hitler face à enormidade do gesto de Magda Goebbels? Hitler manda fuzilar o cunhado de Eva Braun apesar dos pedidos dela, mas porque ele é um traidor; mata Blondi, mas Blondi é apenas um cão; por muito que gostemos de cães nada se pode comparar à crueldade da Medeia. É verdade que Hitler lhe corrobora o crime: o crime não deixa por isso de ser dela.
Serão as palavras de Traudl Junge (retiradas do documentário Im toten Winkel - Hitlers Sekretärin, no qual a ex-secretária relata e reflecte sobre os seus anos passados ao lado de Hitler) e a referência ao número de mortos resultantes dos 12 anos de nazismo que se exibem no final de A Queda suficientes para enquadrar a barbárie nacional-socialista? Após assistirmos durante duas horas e meia a uma história contada sob o ponto de vista de Junge (representada por Alexandra Maria Lara), inocente, fascinada e apiedada pelo Führer, parece muito pouco.
Hirschbiegel disse que «não oferece nenhuma explicação. Cada um dos espectadores deve encontrá-la por si». Mas uma explicação para quê? Com certeza não para o nazismo enquanto fenómeno social (para isso reveja-se o magistral Os Malditos, de Luchino Visconti). Com certeza não para o homem que o incarnou (melhor o faria uma obra que lhe retratasse os primórdios). Para o fascínio que exercia? Para o facto de os alemães o terem seguido cegamente? E chegamos ao nó do problema.
Filme germânico feito para germânicos, não tenderá ele a absolver, através do olhar de Traudl Junge, a própria nação alemã (note-se a perplexidade de Junge quando ouve Hitler culpar os judeus pelos males do mundo)? A insistência com que se sublinha o desprezo a que o ditador vota o seu povo leva-nos a suspeitar de que A Queda, muito mais do que sobre o famigerado lado humano de Hitler, é uma obra que tenta acrescentar, à vasta lista das vítimas do nacional-socialismo, o nome dos próprios alemães. Tê-lo-ão sido igualmente (não com certeza a dedicada secretária); convém recordar que há distinções a manter.
O incómodo que este filme provaca não resulta de assistirmos a cenas de simpatia protagonizadas por Hitler. O incómodo gera-se na sua perspectiva simplista, na ausência de análise, na falta de ideias. O incómodo aumenta com a suspeita de manipulação que nos invade. E o incómodo explode quando damos por nós à beira de um sentimentalismo light.
Sinal do empobrecimento intelectual dos tempos que correm, A Queda é um filme banal e bem executado que, sob a capa do realismo («foi assim que as coisas se passaram»), nada tem a acrescentar (a não ser as excelentes interpretações dos actores). Hitler, esse continuará a assombrar-nos.
Perante a infinita crueldade que originou e deu provas, permitam-me a pergunta: que raio nos pode interessar que ele gostasse de Blondi ou fosse vegetariano?

6 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Talvez uma explicação melhor, que o filme de Visconti, para o fenómeno social do nazismo esteja na “Psicologia de massas do fascismo” de Wilhelm Reich. O bom e o mau são conceitos demasiado humanos que o Homem criou para si e separam-lhe a natureza de forma artificial. É aceitar como correcto o conceito do “bom selvagem” de Voltaire e Rousseau e o U-turn para a maldade.

Os seres humanos não são bons ou maus. São o que são – humanos. Não se modificam algures no seu crescimento por contaminação com algo evil que exista por aí. Já que estamos no “Resident Evil” esta separação entre bom e mau também foi aplicada aos cães. Há quem diga que os cães nascem bons, são os donos que os fazem maus.

ana cristina leonardo disse...

caro táxi pluvioso, há uma anedota contada por woody allen, creio que em «Manhattan» que é assim (mais ou menos): A personagem interpretada por ele está num café de NY no meio de uma discussão sobre correntes estéticas. É então que decide intervir para dizer o seguinte:
- A grande questão não é arte nem a estética. A grande questão é saber: está um homem a afogar-se no rio. Lançamo-nos ou não à água para o salvar?
E logo acrescenta:
- Eu, claro, não posso responder à pergunta porque não sei nadar.
Quanto à "Psicologia de massas do fascismo" teria de reler. Varreu-se-me quase tudo.

maria joão disse...

eu gostei do filme e concordo com quase todas as críticas mas...aquilo tb não pretende ser um documentário, nem vejo ali nenhuma tentativa de branqueamento. Acho q só pode ser acusado, no máximo, de algum voyeurismo

ana cristina leonardo disse...

Maria João, ombater a diabolização de Hitler é uma coisa boa, «mas obviamente muito pouco quando se abdica ao mesmo tempo de qualquer análise política».
Por isso, eu não falei de branqueamento, falei de falta de ideias e de sentimentalismo ligth. Sinais do tempo.

Luís S disse...

o teatro do absurdo encontra-se com a realidade. vimos o filme, "acompanhamos" os acontecimentos e, em certa medida, entendemos o porquê de cada acção. no fundo mais assustador do que milhões de mortes é o perceber que um homem qualquer, seguido de perto por milhares de homens quaiquer, têm a responsabilidade por essas mortes. há demasiadas personagens secundarias que se passeiam pelo filme e pela história à sombra da culpa atribuida a um homem, que por terrivel e poderoso que tenha sido, é só um homem. lembro-me do choque provocado pelo filme na alemanha, e penso que deve ser terrivel para quem colaborou com o regime nazi ter que pensar que o todo poderoso lider, e o todo poderoso estado maior, eram homens, como outro homens, que podiam e puderam ser combatidos e liquidados. o filme leva ao amago da culpa, mais do que a politicamente inocua analise politica. Propaganda foi a vontade de culpar os judeus pela crise (ideia simpatica à maioria do povo alemao da epoca), não o acto de culpa-los. tudo isto, evidentemente, não desculpa hitler, mas também não desulpa ninguem. subtilezas.

ana cristina leonardo disse...

Caro Luís, não percebi bem a sua posição. De qualquer modo, não sendo eu grande adepta da "pessoalização" (acho que esta palavra nem existe) da História, tenho de reconhecer que Hitler não seria um homem qualquer. E se as circunstâncias do momento explicam, naturalmente, muita coisa, há que reconhecer que só um indivíduo com uma força intrínseca fora do normal poderia ter conseguido mobilizar da forma como o fez uma das nações consideradas mais cultas e civilizadas da época (e, na qual, curiosamente, a comunidade judaica estava bastante bem integrada). Quanto ao termo "culpa" não faz a minha eleição: culpa pressupõe "desculpa", a responsabilidade não tem saída e é eterna (e implica graus diferenciados). De qualquer modo, há que reconhecer que, de todos os povos envolvidos na guerra, os alemães têm sido os que mais esforços têm feito para perceber o que se aconteceu.
«no fundo mais assustador do que milhões de mortes é o perceber que um homem qualquer, seguido de perto por milhares de homens quaiquer, têm a responsabilidade por essas mortes» - a banalidade do mal de Arendt anda por aqui, embora a filósofa tenha ido mais longe na análise.
«o filme leva ao amago da culpa, mais do que a politicamente inocua analise politica.» - o filme não apresenta nenhuma análise política (ou outra) mas não vejo como tentar perceber ou explicar tenha de ser inócuo - recusar perceber o Holocausto e a mortandade provocada por Hitler, isso sim, parece-me perigoso, além de que compreender não é sinónimo de ausência de julgamento moral.