23/07/07

Sigmund Freud: porque há coisas que me irritam

«Freud modificou, talvez de forma irreversível, a imagem que o homem tem de si mesmo. Comparado com isto, é de importância secundária que algumas das suas ideias válidas não tenham sido novas, que as suas concepções específicas sejam questionáveis e que os seus métodos terapêuticos sejam duvidosos» (L. L. Whyte, cit. por Frank Cioffi, «A Controvérsia Freudiana: O Que Está em Questão?», in Freud, Conflito e Cultura, 2000, Zahar).
Se se tiver esta afirmação por justa, então, só nos restará concluir que tudo vai bem no melhor dos mundos: as insuficiências da psicanálise, a existirem, não abalam o essencial da teoria nem a sua importância como facto cultural. A tese de L. L. Whyte é, contudo, muito menos inócua do que parece. Primeiro, porque atribuir «importância secundária» aos senãos da psicanálise é, naturalmente, uma asserção polémica; depois, porque garantir que «Freud (…) modificou a imagem que o homem tem de si mesmo», se para uns resta provar, para outros não passa de uma ideia feita. Acresce, como nota Frank Cioffi no artigo citado, que a referida modificação será sempre «de pouca serventia, se essa nova imagem não corresponder melhor a uma realidade que tenha existência independente».
Ora, se há coisa que merece o acordo da maioria dos críticos é que, apesar da sua pretensão a cientista, a realidade nunca foi obstáculo para Freud. Neste ponto, acompanham-no alguns ilustres. Jean-Jacques Rousseau, o «bom selvagem», arriscava com desenvoltura na introdução ao seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens: «Comecemos pois, por pôr de lado todos os factos, visto nada terem a ver com a questão».
Ao contrário do que a vulgata psicanalítica pretende fazer crer, a contestação a Freud não assentou, essencialmente, no anti-semitismo ou no horror vitoriano ao sexo. Desde o início, foram muitos os que se ergueram contra as suas teorias, uns por razões científicas, outros invocando somente essa categoria tão desprezada por filósofos, mas que, se levada a sério, teria com certeza contribuído para evitar muitos desvarios históricos — o bom senso.
E terá sido exactamente o bom senso a mover um psicólogo contemporâneo de Freud, quando lhe fez notar o que considerava uma excessiva sexualização do mundo onírico. Dando como exemplo o seu próprio sonho recorrente — subir escadas —, onde não vislumbrava nada de sexual, o incauto crítico não ficaria sem resposta. Em 1911 tem a honra de se ver incluído numa nota à nova edição de A Interpretação dos Sonhos: «Ficámos alerta com esta objecção e começámos a concentrar a nossa atenção no aparecimento de degraus, escadas e escadas de mão nos sonhos, e estávamos em breve em condições de mostrar que escadas (e coisas análogas) eram indiscutivelmente símbolos de copulação. É difícil não ver (…): nós chegamos ao cimo numa série de movimentos rítmicos e com crescente falta de ar e depois, com alguns saltos rápidos, podemos voltar a baixo. Deste modo, o padrão rítmico da copulação é reproduzido no acto de subir escadas».
Quanto ao filósofo vienense Heinrich Gomperz não apresentara nenhuma crítica. Pelo contrário. Impressionado com a teoria freudiana dos sonhos enquanto realizações disfarçadas de desejo, oferecera-se a Sigmund como cobaia. Ao fim de alguns meses, os resultados não podiam ser piores: «A experiência revelou-se um completo fracasso. Todas as coisas "terríveis" que ele sugeria que eu poderia ter escondido de mim próprio e "reprimido", eu podia assegurar-lhe com honestidade que tinham estado sempre nítida e conscientemente presentes na minha mente».
Dada a relutância de Freud em consentir ser posto em causa, facto que a maioria dos biógrafos considera um traço fundamental do seu carácter, percebe-se que o irreverente Karl Kraus (1874-1936), também ele judeu, tenha optado não pela argumentação mas pela ironia telegráfica: «A teoria antiga negava a sexualidade dos adultos. A moderna diz que os bebés têm prazer sexual enquanto defecam. A antiga era melhor, ao menos podia ser contraditada pelas partes envolvidas» (Thomas Szasz, Anti-Freud, Karl Kraus's Criticism of Psychoanalysis and Psychiatry, 1990, Syracuse University Press). Ou como, também de forma concisa, explicou o filósofo francês Gilles Deleuze: «O mecanismo de interpretação da psicanálise pode ser resumido ao seguinte: o que quer que se diga quer sempre dizer outra coisa».
Na actualidade, entre os opositores mais firmes encontra-se Frederick C. Crews (ex-psicanalista, professor e crítico de literatura inglesa entretanto jubilado da Universidade da Califórnia, Berkeley), que não hesitou em chamar «charlatão» a Freud, acrescentando que «se um homem de ciência se comportasse hoje daquela maneira seria obviamente despedido, as bolsas de investigação ser-lhe-iam cortadas e viveria no opróbrio até ao final dos seus dias» (Conversation with Frederick Crews, disponível on-line). No livro que organizou, Unauthorized Freud: Doubters Confront a Legend (1998, Viking), onde se compilam artigos de uma vintena de autores, Crews resume sem peias o objectivo da obra: mostrar como a psicanálise começou por ser um erro para crescer até se tornar numa impostura.
Idêntica convicção terá estado na origem da revolta de numerosos intelectuais norte-americanos contra o carácter apologético da exposição dedicada a Freud, proposta pelo curador da Biblioteca do Congresso, Michael S. Roth, em Junho de 1995, e que deveria ser organizada pela IPA (International Psichoanalytical Association) e pelos Sigmund Freud Archives. Conseguindo fazer-se ouvir, os contestatários impuseram que as opiniões críticas também fossem incluídas na exposição, a qual acabaria por só abrir ao público no Outono de 1998, após ter chegado a ser cancelada.
Mais recentemente, a França também se incendiou a propósito dos 150 anos do nascimento do pai da psicanálise. A pátria de Jacques Lacan (guru parisiense que, em Março de 1996, seria lapidado pelo professor Raymond Tallis na conceituada revista médica inglesa The Lancet: «Poucos psicanalistas são tão claramente psicopatas como Lacan, o mais eminente discípulo francês de Freud») assistiu a uma guerra aberta, declarada nos media pela edição de Le Livre noir de la psychanalyse (2005, Éditions des Arènes, org. Catherine Meyer), a que se seguiu L'Anti-livre noir de la psychanalyse (2006, org. Jacques-Alain Miller, Éditions du Seuil).
Mas a crítica moderna a Freud não é de agora. Recua pelo menos à década de 70, quando destrona para sempre a biografia oficial do pai do complexo de Édipo assinada por Ernest Jones, Sigmund Freud: Life and Work, obra em três volumes publicada em 1953-57. As palavras de Jacques Bénesteau, inscritas em Mensonges Freudiens: Histoire d'une désinformation séculaire (2002, Mardaga), dão conta da apreciação generalizada dessa biografia original: «A formidável biografia de Jones é, com certeza, um delicado e muito britânico "understatement", uma suavização diplomática das verdades, mas também uma refinada alteração dos factos históricos e propaganda ideológica sob estreita vigilância dos censores», referindo-se Bénesteau ao facto de a própria Anna Freud ter supervisionado em pormenor o trabalho do discípulo inglês do pai.
Três décadas antes de Mensonges Freudiens vir a público, já Henri Ellenberger chamava a atenção para os efeitos nefastos do endeusamento de Freud e dos primórdios da psicanálise. Em Discovery of the Unconscious: the History and Evolution of Dynamic Psychiatry (1970, Basic Books), afirmava que «a psicanálise tem crescido numa atmosfera de lenda, e por isso não é possível uma apreciação objectiva antes de os verdadeiros factos históricos serem apurados (…)». Na opinião de Ellenberger, Freud era vendido ao público como «um herói solitário a lutar contra uma hoste de inimigos, sofrendo o ataque de "fundas e flechas da fortuna adversa", mas triunfando no fim». Este perfil redentor ocultava a «maior parte do contexto científico e cultural em que a psicanálise se desenvolveu», atribuindo «a Freud muito do que pertence a Herbart, Fechner, Meynert, Benedikt e Janeta», ignorando «a obra de exploradores anteriores do inconsciente, dos sonhos e da patologia sexual» (cit. por Richard Webster, Freud Estava Errado: Porquê?, 2002, Campo das Letras).
Entretanto, o edifício psicanalítico fora perigosamente minado em 1969 quando Paul Roazen, falecido no ano passado, escreveu Brother Animal: the Story of Freud and Tausk, uma leitura da relação entre o psicanalisado Victor Tausk e o movimento vienense que acaba tragicamente com o suicídio daquele em 1919, aos 38 anos. Além deste episódio, que os adeptos de Freud sempre tentaram branquear (em 1988, o freudiano K. R. Eissler publica O Suicídio de Victor Tausk, tentando pôr termo ao desagradável assunto), a obra abordava também, pela primeira vez, a análise de Anna Freud no divã do pai, o que daria origem a uma acesa desconfiança desta em relação a biógrafos e investigadores e, além disso, à sua decisão de embargar o acesso a certos documentos conservados na Biblioteca do Congresso até ao século XXII!
Roazen volta à carga em 1975 com Freud and his Followers, no que é seguido por Frank Sulloway com Freud, Biologist of the Mind: Beyond the Psychoanalytic Legend, publicado quatro anos depois. Embora nenhum deles fosse um crítico radical — Sulloway, que entretanto endureceu a sua posição, terminava o seu livro afirmando que, «no fim de contas, Freud era mesmo um herói» —, a reacção às duas obras foi bastante azeda, e ambos os autores se viram, recentemente, rotulados de historiadores «revisionistas» num dicionário de psicanálise francês.
Entre um dos mais indignados da altura contava-se Peter Gay, o psicanalista autor de Freud: a Life of our Time (1988), biografia que se pretende de referência e se apresenta como «desapaixonada e de cariz académico», mas que o cordato Webster não deixou de acusar ser «uma versão sofisticada e actualizada da biografia oficial de Jones, cuja atracção para os devotos da psicanálise é parecer um toque de clarim de fé e certeza no meio da dúvida, capaz de admitir a existência de muitas objecções à psicanálise sem sacrificar a obediência ao seu fundador ou renunciar à imagem dele como génio e herói científico».
Toda a contestação epistemológica ao freudismo tinha tido em Karl Popper um aliado de peso. No célebre livro Conjecturas e Refutações (2003, Almedina), publicado pela primeira vez em 1962, a sua teoria da falsificabilidade como critério do conhecimento científico havia empurrado a psicanálise para o território da pseudociência. Mas foi com a edição integral das cartas de Freud ao médico e amigo Wilhelm Fliess, organizada por Jeffrey Masson, The Complete Letters of Sigmund Freud to Wilhelm Fliess, 1887-1904, (1985, Harvard University Press; existe tradução brasileira na Imago), que, verdadeiramente, a defesa da psicanálise se tornou mais difícil.
Freud destruíra as cartas que lhe haviam sido enviadas por Fliess e tentara, sem sucesso, que a acólita Marie Bonaparte fizesse o mesmo às que, por acaso, a princesa conseguira comprar em Paris em 1936. A viúva de Fliess vendera a um livreiro as cartas que Freud escrevera ao marido, com a condição expressa de não poderem ser adquiridas pelo destinatário. Quando Marie Bonaparte informa o mestre da compra das cartas, este não deixará de insistir com ela para que as destrua. Uma primeira edição seleccionada da correspondência, controlada por Anna Freud, é publicada nos anos 50 com o título As Origens da Psicanálise. O resto é depositado na Biblioteca do Congresso, em Washington, com a condição de ninguém o poder consultar até ao ano 2000. Entretanto, Jeffrey Masson, ele próprio amigo de Anna, tendo chegado a ser director de projectos do Sigmund Freud Archives, lê as cartas. Desiludido e estupefacto com o seu conteúdo, acabará por afastar-se do movimento psicanalítico, convencido da falta de coragem moral e intelectual do homem que até então venerara.
Masson publicou outros textos críticos, nomeadamente The Assault on Truth: Against Therapy e Final Analysis, mas nada do que escreveu teve um efeito tão devastador como a edição integral das cartas. Nelas expunham-se, agora sem ganga apologética, aspectos da personalidade e do percurso do antigo mestre que provavam, entre outros, que o intrépido conquistador do inconsciente defendera teorias «científicas» indefensáveis (mesmo para a época), inventara pacientes, consumira cocaína durante pelo menos 12 anos, e, além do mais, que fora Fliess (cujas ideias tentou mais tarde denegrir), e não Freud, o responsável pela ruptura entre os dois. Se o mito persiste, desde então nunca mais pôde ser o mesmo.
Fora do espaço estritamente académico, seriam as feministas a fazer a maior mossa. Indignadas com a incompreensão confessada de Freud pelo «continente negro» — o que não o coibiu de apresentar várias teorias sobre o «segundo sexo» —, saíram a público para refutar, normalmente com grande veemência, a freudiana «inveja do pénis», reclamando o direito aos seus orgasmos clitorianos, vistos por Freud como sintoma de imaturidade. Afinal, era-lhes difícil levar a sério um homem que, perante uma situação de «ansiedade quanto a lançar-se de uma janela», a interpretava como uma fantasia feminina inconsciente de «ir à janela para convidar um homem a subir, como fazem as prostitutas». Uma história da carochinha em que só mesmo Fliess — o amigo de 17 anos que, em 1897, publicara As Relações entre o Nariz e os Órgãos Sexuais Femininos do Ponto de Vista Biológico — poderia acreditar.

4 comentários:

manuel disse...

"O pénis é um símbolo fálico" Jung

manuel disse...

dediquei-te outro poste!

João Lisboa disse...

Tinhas ainda outro texto nesse dossier-Freud, não tinhas?

ana cristina leonardo disse...

Sim, será o Momento II da minha irritação (vejo que lês o Espesso, João)