06/06/07

Enrique Vila-Matas em Fuga

Terminei a leitura de Enrique Vila-Matas em Barcelona. A circunstância geográfica seria irrelevante, não fora o gosto do próprio pelos acasos e coincidências. «Desgraciadamente», como diria Borges, «el mundo es real», e não me cruzei com ele na sua cidade, nem tão pouco com o seu avatar, Doutor Pasavento, também título do livro que levo na bagagem. Última obra de Vila-Matas publicada entre nós (teria merecido tradução e revisão mais cuidadas), Doutor Pasavento conta a história de um homem que, digamos assim, decide desaparecer para ver o que acontece. Escrito à sombra do «vagabundo imóvel» Robert Walser, escritor suiço que passou os últimos 23 anos de vida numa instituição psiquiátrica dedicando-se à delicada tarefa de ser um louco exemplar, Pasavento deseja também experimentar libertar-se de si próprio, decidindo-se por uma fuga sem fim, à semelhança de Franz Tunda, personagem «supérflua» criada por esse outro deserdado da literatura chamado Joseph Roth. Como quase sempre na escrita de Vila-Matas, tudo aqui se confunde. Vida e literatura, verdade e fingimento, ensaio e ficção. Um escritor espanhol ensaia o desaparecimento, na vã ilusão de que, como a Agatha Christie, alguém dê pela sua falta. A ele, contudo, ninguém o procura. Transformado em Doutor Pasavento, e noutros heterónimos como Ingravallo ou Pynchon, deambula pelo mundo (até por Lisboa...), prova viva do «desaparecimento do sujeito», mistura de Walser, Bove, Cravan, Blanchot, Salinger, Pynchon, todos, enfim, parentes mais ou menos próximos desses «escritores do Não» que Vila-Matas já havia visitado em Bartleby e Companhia. Fragmentário e elíptico, Doutor Pasavento é um projecto sem fim nem solução à vista: «(...) suspeito que toda essa paixão por desaparecer, todas essas tentativas, chamemos-lhe suicidas, são ao mesmo tempo tentativas de afirmação do meu eu». O autor, que «no fundo, queria ser poema», é um persuasivo farsante. Parafraseando Borges: «yo, desgraciadamente, soy Vila-Matas»?

1 comentário:

Luís Filipe Cristóvão disse...

tenho uma coisa que julgo talvez te possa interessar ler. qual é o teu e-mail?