11/09/09

José Sócrates como nunca o viu: isto não é normal e nem os poetas lhe escapam

José Sócrates entrevistado por uma senhora chamada Raquel Alexandra.
Depois de umas generalidades sobre o Ricardo Reis que metiam trevos (???), um momento orgulhosamente só em que se garante que «aqueles que esperam uma ajuda externa, confessam a sua fraqueza» seguido da lancinante pergunta «José Sócrates chora?».
Ficamos a saber que depois dos 40 anos começou a «chorar no cinema com filmes enternecedores» (o que quer dizer que ou nunca viu o Bambi ou tem um problema com o canal lacrimal....) e ainda tempo para «fundamentalmente!» (e aqui note-se o suspiro à Herman José...) ir de Falcon «inaugurar uma das obras mais relevantes... que tem a ver com um lar de idosos...».
Foda-se e pardon my french, como diria o João.
Num momento em que a política lá fora se limita, mais coisa menos coisa, ao a minha é maior do que a tua (vide Sarkozy) nós preferimos meninos com lágrimas (retidas) ao canto do olho.
Lembramo-nos das casinhas e bate tudo certo. Mesmo com cheques-prenda na Fashion Clinic .

10/09/09

Dos modismos contemporâneos já detectados por Sabato em 1948 [ou de como os medíocres nunca dizem nada de novo]

«Foi quando já estávamos à mesa que a magra me perguntou que pintores preferia. Citei ignobilmente alguns nomes: Van Gogh, El Greco. Olhou-me com ironia e disse como se falasse para si:
Tiens.
Depois acrescentou:
― Aborrecem-me as pessoas grandiosas. Sempre te digo ― prosseguiu, dirigindo-se a Hunter ― que me incomodam esses tipos como Miguel Ângelo e El Greco! A grandeza e o dramatismo são tão agressivos! Não achas que é quase má-educação? Creio que o artista se devia impor o dever de nunca atrair as atenções. Indignam-me os excessos de dramatismo e de originalidade. Repara que ser original é de certo modo evidenciar a mediocridade dos outros, o que me parece de gosto duvidoso. Creio que, se pintasse ou escrevesse, faria coisas que nunca chamassem a atenção.
― Não duvido ― comentou maldosamente Hunter.
Depois acrescentou.
― Tenho a certeza de que não gostarias de escrever, por exemplo, Os Irmãos Karamazov.
Quelle horreur! ― exclamou Mimí, revirando os olhitos. Depois completou o pensamento ―: Parecem todos nouveaux-riches da consciência, incluindo esse moine, como se chama ele?... Zozime.»

O Túnel, Ernesto Sabato, página 91, Relógio D'Água, tradução de Francisco Vale, 2009 (reedição)

09/09/09

Ora agora inauguras tu ora agora inauguro eu ou não devia haver uma lei que impedisse os corta-fitas de usarem a tesoura durante o período eleitoral?

A Secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, presidiu, no dia 7 de Setembro de 2009, à cerimónia de reabertura do serviço ferroviário de transporte de passageiros na Linha de Vendas Novas, entre Lisboa e Coruche.
Para assinalar a reabertura deste serviço, as viagens entre Setil e Coruche serão gratuitas na primeira semana, ou seja de 8 a 12 de Setembro.

08/09/09

Que me perdoem as senhoras mas este post é dirigido a três moços para que eles não pensem que brinco com a realeza

Ao centro, na fotografia, o russo Boris Skossyreff, rei de Andorra por seis dias e posterior e provisoriamente exilado em Olhão, tendo à sua esquerda o advogado e jornalista Mário Líster Franco e, à direita, o médico e melómano olhanense Francisco Fernando Lopes.
[Francisco e Tomás, aqui está a prova de que o homem existiu; João, guarda-me por favor os tais papéis sobre o mano-rei].
Voltaremos ao assunto. Ainda não sabemos como.

07/09/09

A book a day keeps the doctor away

O livro foi originalmente publicado pela Dom Quixote em 1989. Volta agora às livrarias, passados 70 anos sobre o começo da guerra mais devastadora da História (Setembro, 1939 – Setembro, 1945).
O autor, Martin Gilbert, reputadíssimo historiador britânico com vasta obra publicada (A Primeira Guerra Mundial saiu sob a chancela da Esfera dos Livros em 2007), é especialmente conhecido pela sua monumental biografia de Winston Churchill, também traduzida em português e editada pela Bertrand em 2002. O volume de mais de mil páginas que agora se reedita é uma valente arma de arremesso e tanto pode ser lido de enfiada (se o leitor tiver estômago para tanta mortandade…) como servir de obra de consulta, a espaços.
Organizado de modo cronológico, A Segunda Guerra Mundial cobre exaustivamente o conflito, nada deixando de fora, nem mesmo aquelas geografias mais remotas que justificam plenamente o termo “mundial”. Para lá da Europa, dos EUA e do Japão, Gilbert guia-nos até palcos obscuros na Tailândia, Birmânia, Tunísia ou Nova Guiné, desenhado com precisão cirúrgica o quadro de uma disputa que deixaria, quando terminada, um rasto de quase 50 milhões de cadáveres. Mas o que torna A Segunda Guerra Mundial não só uma obra de leitura obrigatória como também apelativa (se o adjectivo se pode aplicar a tal colecção de barbáries…) é a capacidade de Gilbert para dar rosto aos intervenientes. Não só aos grandes, a esses conhecemo-los, mas sobretudo àqueles que, vítimas ou carrascos quase desconhecidos (e a II Guerra Mundial, ao contrário da primeira, deixa facilmente perceber quem são os bons e os maus…), vêem assim reconhecido, sublinhado e afirmado, o seu papel.
Como logo se diz no início do primeiro capítulo (“A Invasão da Polónia pela Alemanha – Setembro de 1939): “ (…) a esmagadora maioria dos que morreram, quer na frente de batalha quer na retaguarda, tinham nomes e rostos obscuros, excepto para as poucas pessoas que os conheciam ou os amavam; mas em muitos casos, que talvez também atinjam uma cifra de milhões, até mesmo os que em anos posteriores poderiam ter recordado uma vítima foram eliminados”.
Escrever à luz desta afirmação, torna-se, assim, num exercício de justiça, de memória e de respeito pelas vítimas. E é isso que Gilbert faz magistralmente, transformando o que poderia ser uma árida tarefa compilatória numa história dramática em que mulheres e homens concretos participam, sofrem, dão ou ceifam vidas. E tudo isto se passou há apenas 70 anos.
A Segunda Guerra Mundial, Martin Gilbert, Dom Quixote, 2009

05/09/09

Porque anda por aí a circular a ideia extravagante que os políticos são superiormente inteligentes e isto apesar do Hitler ter invadido a Polónia

Como aqui temos escrito também nos parece uma coisa muito estúpida. Tão estúpida como um secretário-geral usar o seu discurso no congresso do partido para atacar uma estação de televisão, achar normal licenciar-se ao domingo ou declarar-se vítima duma campanha negra urdida por magistrados portugueses, serviços secretos ingleses e jornalistas. Sendo estas últimas coisas muito estúpidas ― usar o seu discurso no congresso do partido para atacar uma estação de televisão, licenciar-se ao domingo e declarar-se vítima duma campanha negra urdida por magistrados portugueses, serviços secretos ingleses e jornalistas ― a verdade é que segundo José Sócrates essas coisas não são estúpidas. Logo a outra coisa muito estúpida ― o afastamento de Manuela Moura Guedes três semanas antes das eleições ― provavelmente só a nós nos parece estúpida. Para nossa desgraça a José Sócrates poucas ou nenhumas coisas lhe parecem estúpidas.
Roubado daqui e na continuação do post anterior.

04/09/09

Nunca pensei vir a apoiar a manuela moura guedes

Não vejo televisão e nunca vi o telejornal apresentado pela Manuela Moura Guedes.
Há muitos anos, quando ela decidiu que queria ser deputada, entrevistei-a. Achei-a vaidosa, ingénua e com falta de mundo.
Da actual jornalista, recordo uma música que ela cantou na juventude e aquele gesto de cabeça à Miss Piggy enquanto anunciava pleonasticamente: «Olá, boa-noite! Sou a Manuela Moura Guedes».
Agora, como toda a gente, sei que o Jornal Nacional de sexta-feira foi suspenso. Acusou-se Juan Luis Cebrián, presidente da Prisa, grupo espanhol que manda na TVI e não esconde simpatias pelo partido de Zapatero, de ser responsável pela medida. Entretanto, a Prisa veio desmentir, dizendo que a decisão foi tomada pela direcção de Lisboa.
No meio disto tudo, cita-se Sócrates (antes de se ter travestido em santinho) mais a sua aversão confessa pela Manuela Moura Guedes.
Não faço ideia se alguém pegou no telefone. Não faço ideia se alguém foi dar recados. Não faço ideia se alguém anda a pensar no futuro. Que o silenciamento, a tão pouco tempo de eleições, é conveniente, é. Embora possa também tornar-se incómodo por confundido com censura.
Como vivemos em pleno darwinismo político (e Darwin não é para aqui chamado mas sim Spencer), entregues a gente sem crédito nem insónias, acho que tudo é possível.
É que os denominados mais fortes são demasiadas vezes os mais estúpidos. Como a História dos homens vem provando à exaustão. E só por isso não me admiraria nada.

01/09/09

Fui ameaçada com um processo-crime por um anónimo. Será que vou aparecer na televisão?

Houve um anónimo que veio à Pastelaria indignar-se com o meu post anterior. Comenta ele que o mesmo é passível de processo-crime e denota um grande mau gosto.
Quanto ao mau gosto também acho: tanto os alemães terem invadido a Polónia como o ministro gostar de malhar.
O caso do processo-crime já me levanta dúvidas. Por exemplo esta: como é que alguém me pode impedir de fazer associações de ideias?
A não ser, ocorre-me de repente, que o dito anónimo esteja a pensar numa pena tipo lobotomia.

31/08/09

Ontem a meio da tarde dei comigo a pensar no Augusto Santos Silva

Não se ponham com ideias. Foi só por causa d' A Segunda Guerra Mundial, o livro de Martin Gilbert que ando a ler.
Às tantas tropecei na imagem acima. Um comboio de tropas alemães a caminho daquilo a que Hitler viria a chamar um figo, levando pintalgado no exterior uma frase que traduzida dá nisto: Vamos para a Polónia malhar nos judeus.
Lembrei-me do actual ministro da propaganda. Mantidas respeitosamente as distâncias e circunstâncias (mas e se as últimas fossem outras?).
Não me interpretem mal. Malhar pode suceder a todos. Quem nunca malhou que atire a primeira pedra… e eu encolho-me. Mas quem lhe toma o gosto vai um bocadinho mais longe... Por exemplo, até Varsóvia.
Por essas e por outras, acho sempre preferível uma gritaria elevada. Com argumentos à altura. Quanto ao estilo queres porrada? queres porrada?, vulgo estilo Sarkozy, passo. Completamente. Nunca gostei de mocas de Rio Maior e não seria agora que ia mudar de orientação. Mesmo que servissem aquelas ― hoje ― para malhar na direita.

29/08/09

Eu traduzi, Luísa Meireles, jornalista do Expresso, leu e gostou ("Dizer que é um grande romance é pouco. É imperdível", diz ela.)

Há livros que são assim: poemas. Lêem-se de um fôlego, mas depois há que saboreá-los devagar. Aquilo que fica é a linguagem de um poeta. Tal como a deste, Hubert Haddad, francês de pai tunisino e mãe de origem argelina. O seu segundo nome esconde, porém, uma outra identidade, melhor, uma alteridade: Abraham, judeu berbere, como quem diz, árabe.
Palestina é um romance com o tom de uma tragédia clássica. Belo, comovente, dorido e perturbador como só a poesia consegue. Parte de uma ficção, uma ideia louca, talvez apenas possível nas terras que dão o nome ao livro. Um jovem soldado israelita, Cham, é ferido num atentado e perde a memória. É recolhido por uma família palestiniana, pacifista, uma mãe cega e uma filha dilacerada pelas memórias, Falastin (Palestina, em árabe), que o trata e por quem ele se apaixona. Acaba por assumir a identidade do filho/irmão desaparecido, Nassim, e, por essa via, a da causa palestiniana. Até que Cham acorda, de novo, dentro de si e... não cabe aqui contar toda a história, que mereceu em 2008 o Prémio dos Cinco Continentes da Francofonia.
O romance, percebe-se, é uma obra sobre identidades. E só talvez um autor tão complexo como Haddad o pudesse narrar com a simplicidade dos poetas. Identidades construídas sobre a realidade do dia-a-dia que o autor reconstrói: as humilhações, as violências, a arbitrariedade gratuita de quem pode e manda e que torna a vida dos palestinianos num inferno, sem deixar de ser o pesadelo israelita. Não é por acaso que o autor faz um major israelita dizer que "muçulmanos e judeus só conseguem estar de acordo a respeito dos mitos". O livro, porém, não é um panfleto, longe disso. O ódio está lá, o tempo todo: "O ódio é uma prisão", diz Falastin, citando os rabinos. "Sê antes o maldito do que aquele que amaldiçoa." Mas também o amor: "Amar não é morrer?", pergunta ainda uma outra vez. Não é a Palestina isso mesmo? Uma terra sem paz, de amores e ódios?
Por ser narrado do ponto de vista de um 'estranho', perpassam ali as diferentes sensibilidades palestinianas, do pacifismo à revolta e ao martírio. Mas também dos israelitas, porque neste livro nada é linear, nada é como se espera. E quando se vira, sofregamente, a última página, é a emoção que explode: "O silêncio cumpre-se. Já nenhuma alma vive."

Palestina, Hubert Haddad, 2009, Quetzal

28/08/09

Porque nos querem fazer crer que a realidade deles é única, inevitável e sem caroços

Confesso: o credo realisticó-pragmático provoca-me apoplexia. Explicando-me melhor. Apesar de provavelmente deus nem sequer existir, entre o bispo George Berkeley e o agnóstico (?) José Sócrates não hesito: janto com o primeiro. Com ou sem temas fracturantes servidos à sobremesa. E digo mais. Entre a ditadura desta corja medíocre e os marcianos de Brown o meu par é o Luke Deveraux.
Tornando a coisa absolutamente clara: I do have certain feelings. My feeling is that whoever is in charge, I want him out (Lewis Black). E chamem-me irrealista à vontade.

26/08/09

A book a day keeps the doctor away

Não garanto a afirmação de Harold Bloom, inserida na contracapa, de que Hadji-Murat é "a melhor história do mundo", ou sequer que é "pelo menos a melhor que eu li até hoje". Mas, claro, é Tolstói. E dizer isto é dizer já quase tudo.
A novela, que leva o nome de um herói (real) do Cáucaso que, durante o reinado do czar Nicolau I, enfrentou a invasão dos exércitos russos, foi publicada postumamente e terá sido a última coisa escrita por Lev Tolstói. Retoma as aventuras e desventuras do resistente homónimo muçulmano, contando-nos as suas desavenças com outros guerreiros caucasianos, a sua tentativa para salvar a família e a sua aliança improvável com os invasores. O confronto entre dois mundos e duas culturas em cenário de guerra (ainda hoje absolutamente actual na Tchetchénia) é o pano de fundo da história narrada, convidado o leitor a escutá-la na "Introdução": "Então, lembrei-me de uma história caucasiana que em parte testemunhei, em parte ouvi contar por outros, e o resto fantasiei. Esta história, tal como se formou na minha memória e imaginação, é a que relato a seguir."
Começa, então, o encantamento (só interrompido pela necessidade de consultar as notas de tradução, que teria sido mais simpático colocar em rodapé de página e não no final do volume...), encantamento reforçado pelo estilo próximo da oralidade, pelas tergiversações que vão, aqui e ali, interrompendo a construção da obra (que nada tem de linear) e, sobretudo, pelo pacto narrativo que vamos estabelecendo com o livro e que nos coloca, a nós, leitores, pelo menos momentaneamente, nesse limbo de inocência e entrega sem o qual a leitura deixa de ser prazer para se transformar em mero esforço.
Hadji-Murat lê-se como um livro de aventuras. É um livro de aventuras. O destino (trágico) do protagonista vai-se desenrolando subtilmente à nossa frente, enriquecido por toda uma plêiade de personagens, pinceladas naquele jeito realista que torna qualquer obra de Tolstói num quadro a transbordar de vida. E a simpatia assumida do russo pelo seu herói fora-da-lei (o que levaria, aliás, o livro a ter problemas vários com a censura), descrito não como um bárbaro primitivo mas como um corajoso insurrecto, confirma aquele traço único de Tolstói, sempre capaz de nos seduzir pela bondade.

Lev Tolstói, Hadji-Murat, Relógio D'Água, 2009

25/08/09

Serviço público ou...

... in my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants, Lewis Black





TUDO ROUBADO DESCARADAMENTE AQUI DA SÉRIE O PAÍS DOS ZEZÉS

24/08/09

Pessoas de quem eu gosto: Catarina Barros

Encontrando-se o leitor deste post em Lisboa, no Largo do Rato, de costas para o Tejo e alinhado em esquadria com a Rua da Escola Politécnica, verá à sua frente uma estação de Correios, na esquina com a São Filipe Nery. Subindo por essa rua, do lado esquerdo, chegará depressa ao número 25B, um edifício estreito de rés-do-chão e primeiro andar onde Catarina Barros passa a maior parte dos dias.
Há quase dois anos que é este o seu destino diário. Chega de manhã, fica até ao entardecer, às vezes noite dentro, seis dias por semana, doze meses por ano. Na “Trama”. Nome de livraria. Nome de um projecto que Catarina, 25 anos, apostou em concretizar, ao arrepio do derrotismo e cansaço que, diz, parecem caracterizar precocemente a sua geração.
A “Trama” abriu portas a 30 de Novembro de 2007. Muito antes disso, já os livros enchiam a vida e o imaginário desta jovem que um dia decidiu trocar um emprego seguro na indústria farmacêutica pela aventura livreira (não livresca).
Talvez o gosto lhe venha da avó. É uma hipótese. Não tem explicações definitivas. Lá de trás chega-lhe, isso é certo, a imagem dela a ler “A Pousada da Jamaica” durante umas férias de Verão no Carvoeiro, enquanto Catarina e o avô iam andando para a praia. Ainda hoje continua a chamar “Esplanada Jamaica” ao café onde a avó se deixava ficar sentada, a folhear o romance de Daphne du Maurier indiferente ao apelo das águas algarvias. Ela própria era fã da Colecção Dois Mundos, da Livros do Brasil. Começou no número um, “O Livro de San Michele”; o último não se recorda.
“Os livros têm imagens e levam-me a lugares onde nunca chegaria sem eles”; talvez por isso, quando sai de casa, traga sempre mais de um dentro na mala, para o que der e vier. Em Julho, quando falei com ela, andava às voltas com a “Obra Completa” do Nuno Bragança, “Porque é que a Vida Acelera à Medida que se Envelhece” e o “Breves Notas Sobre as Ligações”, do Gonçalo M. Tavares. Poesia lê aos bocadinhos. Em modo saltitante. Quatro ou cinco poemas por dia, de autores vários.
Está sentada no primeiro andar da “Trama”, junto à máquina de café (que também se pode tomar aqui), pernas entrelaçadas sobre o pequeno sofá, e vai alisando os cabelos com as mãos. Fala devagar: “Penso melhor quando escrevo”. Aproveito a deixa involuntária: “Também escreves?” Hesita. “Para mim a escrita é tão importante como a leitura e há dias em que não leio. Mas escrevo todos os dias”. Fica registado.
Saiu de casa aos 17 anos. Enquanto acabava o liceu, ia trabalhando por aqui e por ali. Um dia passou em frente à “Clepsidra” de Massamá e viu que havia uma vaga: “Era o sonho da minha vida! Escrevi a carta de apresentação mais lamechas do mundo e implorei o lugar na livraria”. Deram-lhe o lugar. Ficou por lá algum tempo, depois saiu por motivos alheios aos livros; o tempo de ter como colega Ricardo Ribeiro, seu futuro sócio na “Trama”.
Inscreveu-se na Faculdade, em Estudos Portugueses, mas, quando engravidou e teve um filho, a realidade pesou mais e abandonou o curso. O emprego de secretária que conseguiu, entretanto, não era mau; Catarina, contudo, definhava. Com Ricardo, e lido um poema de Borges de título homónimo, atira-se de cabeça ao projecto de fundar a “Trama”, um espaço que fosse seu.
Estão juntos nisto há dois anos e, apesar do período tramado que se vive, com a crise e tal…, nunca se arrependeu: “Mesmo que não dê certo no futuro, faria tudo de novo. Pelo bem que nos tem feito; a mim, ao Ricardo e a uma data de pessoas”. A uma data de pessoas que aqui vem pelos livros, pelos concertos, pelas sessões de cinema e de poesia, conversas, lançamentos, tertúlias.
Resumindo é isto: “Aos 23 anos, quando comecei, tinha medo que a minha ignorância pudesse prejudicar a livraria. Nada disso aconteceu. O meu mundo cresceu, fiz amigos, descobri autores… Sinto que este é um projecto fértil, que estamos a criar coisas novas.”
Encontrando-se o leitor deste post em Lisboa, no Largo do Rato, basta-lhe, pois, subir a Filipe Nery e perguntar por ela. Catarina Barros. Amante de livros. Ao seu serviço. E deles, claro.
A fotografia foi roubada daqui.

22/08/09

Dance me to the end of love

Cuando pienso en ellos,
hay um libro que abre sus páginas.
Una persiana baja,
el pájaro de las marismas se aleja de las
palavras.

Hay palabras que matan.
Hay un livro donde los amigos viven para
siempre,
envueltos en la luz ciega de las orquídeas.

Hay diez mandamientos sobre la evocación de
sus días.
Hay un martillo sobre los clavos de su cruz,
una hacha de piedra negra que refleja el
dolor.

Cuando pienso en ellos,
parece que llueve.
Llueve siempre en las plazas vacías y es domingo,
otra vez.
Entonces,
los perros duermen en las fincas abandonadas.
Todos se fueron.
Solamente los amigos me esperan del otro lado del cielo.

Cuando pienso en ellos,
hay un rastro de ternura en la nieve y
en la lava,
hay un anillo de acero que aprieta la garganta,
sus cuerdas de sonido,
y la neblina es más densa.
Hay un cántico, un secreto qur recomienza en las
vocales del nombre, y ya no es nada.

Esta voz es casi viento, José Agostinho Baptista, Macaronesia, 2009

21/08/09

Não vamos mais longe: a modernidade socrática espraia-se literalmente em Lagos, junto à linha da Meia Praia

A imagem será futuristicamente asséptica. Na realidade o que lá está são escavadoras, buracos, pó, feridas e mamarrachos. Uma figueira de gesso assiste (e resiste) ao progresso molto vivace, aliens de betão e mármores milionários para fazer a diferença com as "casas de emigrantes" e a "Mariani" do Cavaco que isto é gente que da Maconde passou para a Hugo Boss e férias só no Dubai.
Parafraseando os pescadores de Alvor, se os houver ainda, que vos desse uma traçã no beraco desse cu, que tevesseís sem cagar oito dias e quando cagassem só cagassem figos de pita inteiros.