12/01/13

Se a realidade lhe caísse em cima da cabeça, tipo tijolo, ou assim, podem ter a certeza que eu aplaudia


“São estas pessoas que têm a obrigação de criar uma nova atitude e de, ao acabarem o curso, fazerem um esforço para criarem emprego para os outros que não estudaram. As pessoas têm de aprender a trabalhar em conjunto, têm que aprender que o Estado não tem emprego para todos. Acho que temos de voltar a coisas reais, voltar à natureza, à agricultura, às pescas, e fazer com que as pessoas tenham gosto por esses sectores.”
Estas sábias palavras foram proferidas pela chefe de gabinete do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. Manuela Bairos, outra que defende que ter uma pessoa de abandonar Portugal pode ser muito bom, embora a própria nunca mais se vá embora (talvez não tenha feito Erasmus...)
Mas já que se fala em "coisas reais", leia-se também esta notícia


“Comam chocolates…”


O povo habituara-se a ostras. Com a crise, as ostras estavam pela hora da morte e todas as diligências esbarravam na inflexibilidade de Hollande: “Impossível baixar preço moluscos. Disponíveis brioches baratos”. O MNE declinou a oferta. Em telegrama oficial, citou Álvaro Santos Pereira e a qualidade superior das nossas bolas-de-berlim. Os franceses, letrados e mulherengos, confundiram o Álvaro com Álvaro e ficaram-se por respeito a Ofélia. Foi quando começou a chover. 
Assunção, a caminho do Conselho de Ministros, agradeceu a Deus e abriu o guarda-chuva. À chegada cruzou-se com Relvas, vindo do Rio onde passara o fim do ano à cata do conhecimento permanente. “Bela gravata!”, comentou ao passar o engripado Paulo Macedo. Gaspar já lá estava, jogando batalha naval numa folha de Excel, longe do olhar de Portas não fosse este susceptibilizar-se e convocar uma conferência de imprensa de apoio ao governo. Pedro pousou o livro sobre Salazar e falou na sua voz de barítono: 
“Se em 1935 beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, em 2013 um só copo de leite há-de dar mais de 25% daquilo que precisamos por dia de cálcio”. 
Mas a frase era fraca, nem sequer rimava. Um assessor propôs que contratassem Graça Moura. Ao lembraram-lhe que o poeta os mandara assoar ao guardanapo, o assessor suicidou-se politicamente. Com menos um à mesa, a dieta nacional era adiada para depois do almoço. 
Como entrada, uma das ostrinhas de Alice recitou Bocage: “Estando enfermo um poeta/ Foi visitá-lo um doutor/ E em rigorosa dieta/ Logo, logo o mandou pôr/ ‘Regule-se, coma pouco’/ Diz-lhe o médico eminente/ ‘Ai senhor! (acode o louco)/ Por isso é que estou doente.” 
Gabaram-lhe o wit e depois comeram-na. 

11/01/13

E se fosses "unificar a língua" para a Coreia do Norte?

Não faço ideia de quem seja o moço. Mas gosto sempre destas defesas do (inevitável) progresso, sobretudo quando feitas em nome da economia.
Há demasiada malta que folheou o Marx enquanto fumava umas ganzas, é o que é.
Obrigada pelo link, Pedro Correia.

Ah! Como é diferente o escrever em Portugal...

Ah! Como eu gosto de gente inteligente.


O Relatório do FMI "deve ser discutido"?

Não, não deve. O “relatório” não é um documento técnico, é uma posição negocial. Mais exactamente, é aquilo a que em negociação se chama uma “proposta escandalosa” — serve apenas para definir uma plataforma que dá vantagens ridículas a quem inicia a conversa. Qualquer tipo que perceba destas merdas sabe que a uma “proposta escandalosa” se responde com outra: por exemplo, diminuir para um décimo o ordenado dos políticos, nacionalizar todo o sistema bancário, etc. Não existe outra estratégia aceitável até que o interlocutor aceite partir de uma base honesta para a negociação. Só um chico-esperto propõe um “documento” daqueles. Só um pobre de espírito aceita “discutir” um documento daqueles. Há muita gente de direita que sabe isto tão bem como eu e devia ter vergonha, mas não tem. Pobre do partido, pobre do país que aceitar o “debate”.
Luis M. Jorge

Enquanto há língua há esperança


[...] ficamos a saber do poder que Carlos Reis tem sobre Angola, quando anuncia que a antiga colónia portuguesa “mais tarde ou mais cedo, vai ter mesmo de adoptar o AO”. O estudioso português não será dono de língua, apodo que arremessa aos críticos do AO90, mas parece ser proprietário da ortografia angolana, o que pode ser uma boa maneira de equilibrar as relações comerciais dos dois países, contrariando os desequilíbrios causados pelas aquisições de Isabel dos Santos.

10/01/13

Coitado do Manel ou isto é a prova provada que uma mãe ou um pai é tal & qual como um político profissional: qualquer imbecil pode sê-lo.

Frases de cabeceira

Não há nada pior do que um idiota com iniciativa!

(Gamado no facebook à minha amiga Lara Xavier)

... mas se um dos problemas maiores desta Filipa Xavier é precisamente... a voz. Porra! A voz!

Foi você quem pediu um asteróide?

Dada a excelência da nossa oposição, se o asteróide passasse mais cedo talvez nos conseguíssemos livrar destes tipos a tempo de ficar alguma pedra sobre pedra.
Ler aqui.

A inteligência deve andar muito sobrevalorizada ou eu muito estúpida

Eu não sei se o relatório está muito bem feito, se o Moedas é um génio ou se a coisa veio a público para o governo vender  – salvífica, literal e posteriormente  – o mal menor.
O que eu sei é que propostas como estas são dignas de gajos que, em termos de evolução da espécie, estão entre a amiba e o crocodilo. Por muito inteligentes que os achem.

[O FMI] Sugere que as famílias com rendimentos iguais ou superiores a 5.869 (cerca de 12 salários mínimos) euros anuais sejam excluídas de receber prestações sociais, apontando que isso poderia gerar uma poupança de cerca de 89 milhões de euros/ano. 
DAQUI

E, hoje sim, é dia de cantar Zé Mário Branco

Olá António! Eu e o António Guerreiro a discutirmos o Bartleby do Melville com os "jovens" da Universidade Nova

09/01/13

E eu que nem acho graça ao António Costa... ri-me.


"Com propostas dessa natureza, vejam mesmo se é do FMI, ou se é de um técnico falso"

Da imunidade ou da impunidade?


"A porta-voz do Comando Metropolitano de Lisboa da Polícia de Segurança Pública (PSP), Carla Duarte, disse à Lusa que o processo referente à detenção da deputada do Partido Socialista (PS), Glória Araújo, foi remetido para o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP), que deverá agora avaliar se a imunidade parlamentar pode ser invocada neste caso."

E ao capital disse nada... Vem aí uma revolução e já se percebeu de que lado chegam as pedras

Documento [do FMI], entregue ao Governo propõe formas de cortar 4000 milhões de euros e refere que há classes profissionais (polícias, militares, professores, médicos e juízes) que têm “demasiadas regalias”. Fundo sugere ainda cortes nas pensões e dispensa de professores.
Notícia integral aqui.

07/01/13

"Andaram 30 anos sem ver um pobre, e agora que se fala deles procuram-no com a força do estereótipo", Pacheco Pereira

Não, "Pedro e Laura", na mesa de Natal de muitos portugueses o que preocupa não é a falta de rabanadas, nem brinquedos, nem pessoas, mas sim o facto de lá estar sentado o medo, a indignidade, a vergonha e o desespero, coisas que não vêm em estatística nenhuma. E isso não garante futuro nenhum que valha a pena viver, nem aos pais, nem aos filhos, nem aos netos.

Texto completo, aqui.

05/01/13

Partir a louça

Um político profissional é tal & e qual como um pai ou uma mãe: qualquer imbecil pode sê-lo.
Assim como a Natureza não coloca, por princípio, entraves à reprodução da espécie, assim os Homens não colocam entraves à eleição de políticos.
Portugal, conhecido desde há muito como um “país de doutores” (o que O’Neill nos recordou nos sugestivos versos: “País engravatado todo o ano e a assoar-se à gravata por engano”), tem preservado a tradição, insistido em ser governado por engenheiros e outros licenciados.
Foi no já vetusto ano de 1935 que Discepolín compôs o tango “Cambalache” (“¡Todo es igual!/ ¡Nada es mejor!/ Lo mismo un burro/ que un gran profesor”); entre nós as equivalências mantêm-se bem vivas, não me referindo eu agora às equivalências obtidas, com toda a licitude, esclareça-se, por alguns dos nossos governantes.
A questão que me traz, todavia, é outra. Gostava de dizer duas ou três palavras sobre o problema da linguagem.
No princípio era o Verbo e o Verbo é o que se opõe ao Caos, mas longe de mim tentar rivalizar com a erudição teológica de Zita Seabra ou João César das Neves. Fixemo-nos, antes, em dois problemas que têm inquietado filósofos e linguistas: determinar a relação entre pensamento e linguagem; relacionar linguagem e realidade (vamos pressupor, axiomaticamente claro, que tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado).
Na frase deixada pelo primeiro-ministro no Facebook este Natal – “Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram.” – acha-se indubitavelmente linguagem. Haverá pensamento? Analisando-a agora na sua relação com a realidade: a que raio se terão habituado os pratos?
E nunca o título destas crónicas fez tanto sentido: isto anda tudo ligado!

01/01/13

Mnemónica para 2013 ou ninguém nos disse que isto seria fácil

Ser radical em relação às coisas essenciais e tolerante no que respeita aos acessórios (a boa literatura é essencial; acreditar na virgindade da Maria, um acessório - é só um exemplo)
Lembrar-se que Deus protege os audazes (mas só os audazes que aguentem levar porrada nos intervalos - que podem ser longos)
Não esquecer nunca que o miserável que dorme na rua ao lado de casa podíamos ser nós, e poderemos vir a ser nós (as criaturas que estão convencidas que controlam a sua vida encontram-se num nível inferior da cadeia alimentar)
Não acreditar em nenhum crítico literário que, numa prova cega, se mostre incompetente para reconhecer um bom texto
Desconfiar de todos aqueles que são incapazes de se comover com As Pontes de Madison County
Suspeitar dos que falam mal da Margarida Rebelo Pinto mas não conseguem ver a diferença entre Anna Karenina e uma história de faca e alguidar, no caso improvável de terem lido Anna Karenina
Ter por garantido que as Humanidades não humanizam e que mais vale um ignorante altruísta do que um intelectual cobarde
Nunca esquecer que a vaidade é o pecado capital
Reconhecer que a nossa obrigação é morrermos menos estúpidos do que nascemos