09/07/07

A book a day keeps the doctor away V

Li Martiens, go home em francês, há muitos anos, durante uma estadia em Angoulême, numa directa mantida a custo de analgésicos e de antibióticos para os dentes. Comecei quando o abcesso resolveu finalmente dar o ar de sua graça e só terminei pela manhã, muitas gargalhadas depois, esquecida do siso. O autor, Fredric Brown (falecido em 1972 e que publicou este livro na década de 50), não estará no Olimpo dos escritores de ficção científica (parece que tinha problemas com o álcool e um prazer dissoluto ao poker), mas, meus amigos, Martiens Go Home é das coisas mais divertidas que já li do género. Luke Deverreaux, um escritor em crise de inspiração, refugia-se no deserto para escrever. Um dia, vários bourbon emborcados, batem-lhe à porta. Um ser verde, pequenino e de orelhas pontiagudas, está do lado de fora. Convencido que anda a ter alucinações, Luke pega no carro e dirige-se ao bar da cidade mais próxima, o que é, como se sabe, a atitude certa a tomar quando se anda a beber sozinho há demasiado tempo. Ao balcão do bar, o escritor tropeça de novo num ser verde, pequenino e de orelhas pontiagudas. Começa a ficar preocupado. A medo, pergunta ao barman, que não lhe leve a mal, se não estará a ver o mesmo que ele. O homem responde-lhe enquanto continua calmamente a limpar os copos: «Ah sim, já chegaram há uma semana. Não me diga que não sabia?». Depois é o relato de uma invasão marciana em toada hilariante: «Salut Toto, c'est bien la Terre ici ?».
Não sei se há tradução em português e, por via das dúvidas, guardei religiosamente a edição francesa na estante.

Um grafismo e peras

Não li o livro, mas só a capa... Uma capa verdadeiramente excelente, esta, da Tinta da China Edições. O que não é de somenos, quando nas livrarias é o horror que domina e nos domina

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Entre a dor e o nada, escolho a dor», William Faulkner, Palmeiras Bravas.
E este é um daqueles pensamentos sobre os quais tenho as minhas dúvidas porque não me parece lá muito reconfortante

08/07/07

A book a day keeps the doctor away IV


Lá bem dos fundos, retirei um livro muito antigo, que fazia as delícias de uma prima romântica e também as minhas: John, Chauffeur Russo, do produtivo rei do kitsch Max du Veuzit, que li durante umas tardes ensolaradas de Verão. E quem nunca tenha largado uma lágrima com um melodrama meloso, que atire o primeiro calhamaço.

John, Chauffer Russo, Max du Veuzit, Editora Romano Torres

Afinal, quando é que se trabalha?

As dissidências políticas podem chegar a pormenores de que nem o camarada Mao se lembraria.
Em Gaza, o governo de Ismail Haniyeh decretou que o descanso semanal devia ser à quinta e sexta. Entretanto, Salam Fayyad, chefe do executivo interino nomeado por Mahmoud Abbas, veio dizer que o descanso devia ser na sexta e sábado. Perante a divergência quanto aos dias de descanso, o jornal «Público» cita um funcionário local: «Para satisfazer as duas partes, decidimos não trabalhar nem quinta, nem sexta, nem sábado». Tudo isto seria cómico se a falta de trabalho em Gaza não fosse uma das suas tragédias.

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama


Diálogo real entre duas crianças na cozinha enquanto faço zapping na sala.

Ema: Eu não gosto muito raça humana.
Nicole: Pois, eu também não gosto muito... Comem bichos e assim.
Ema: Pois, é mais a mais assassina de todas...
Nicole: Eu gostava de ser o meu cão, o Brownie.
Ema: Eu também gostava de ser o meu cão, o Mancha.
Nicole: Mas também podíamos ser a Margot...
Ema: A Margot é tão querida!
Eu: Meninas, vão lavar os dentes!
(fotos de Mancha e Margot)

07/07/07

As últimas 5 leituras

Aqui há uns tempos, a Carla Quevedo, do Bomba Inteligente, desafiou-me para que eu postasse (que raio de verbo) os últimos 5 livros interessantes que tivesse lido. Postei «Eu hoje acordei assim» e fui à vida. Entretanto, o Rogério Matos, do Insustentável, veio lançar-me o mesmo desafio. Ou a malta lê muito ou isto é mesmo a silly season. Ou então é uma daquelas correntes, tipo: «Se não mandares esta mensagem a 10 pessoas nas próximas 3 horas vais ser atacado pelos piolhos do Egipto». Pelo sim, pelo não, recapitulo:
http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2007/07/eu-hoje-acordei-assim.html
E algures no espaço que, como se sabe é redondo, nos havemos de encontrar de novo.

A book a day keeps the doctor away III

Tirei lá de cima A Casa e o Mundo, um livro escrito por um indiano de ar alucinado que ganhou o Nobel de Literatura em 1913. O texto de Rabindranath Tagore foi passado ao cinema por Satyajit Ray, e lembro-me de ver o filme em Lisboa, salvo erro no Quarteto. Do que eu gosto mais neste romance, escrito a três vozes, é que nele é tudo ao contrário. Mais coisa, menos coisa: é Bimala, a mulher, quem não quer abandonar o Gineceu; é Nikhil, o sensato marido, quem se mostrará verdadeiramente corajoso; e é Sandip, o revolucionário profissional, quem se mostrará menos digno de confiança. O politicamente incorrecto avant la lettre ou de como «a mente tem abismos insondáveis».
A Casa e o Mundo, Rabindranath Tagore, Inquérito

06/07/07

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Comme si le navire était un plisse­ment de la mer», Gilles Deleuze

Turner, Snowstorm, 1842

A book a day keeps the doctor away II


Não tenho apenas cadáveres escondidos nas estantes. A prova está neste livro, Joanica-Puff, que fez as minhas delícias quando era mais pequenina e continuou a ser um excelente anti-depressivo na idade adulta. A minha edição será difícil de encontrar, até porque a editora Minotauro acabou encerrada pela PIDE, mas acho que o livro anda por aí, reeditado há uns anos pela Terramar. Um aviso à navegação: esqueçam as versões Disney (a família de Milne devia estar à rasca de dinheiro...) e deliciem-se com o original.
Joanica Puff , A. A. Milne, editora Minotauro, trad. Manuel Grangeio Crespo

05/07/07

Pensamento reconfortante antes de ir para cama

«Georg W. Bush says that God told him to invade Iraq (a pity God didn't vouchsafe him a revelation that there were no weapons of mass destruction).»
Richard Dawkins, The God Delusion

A book a day keeps the doctor away

Com a chegada da silly season, é hábito considerar-se que há mais tempo para as letras. Não sei se isto é verdade ou não, porque a minha média de leitura mede-se, não pelo tempo de ócio, mas pelo número de quilómetros percorridos de comboio. Mas, para não destoar das altas temperaturas, este post inicia uma visita às prateleiras mais poeirentas das minhas estantes. Livros antigos, alguns deles esgotados nas livrarias oficiais, mas que ainda se encontram por aí. Começo por uma obra-prima chamada Debaixo do Vulcão, de leitura nem sempre digesta, e mesmo absolutamente indigesta nas últimas páginas. Para dizer a coisa como deve de ser: um valente murro no estômago. Em tempos apaixonei-me por um homem, por causa deste livro. Mas isso sou eu, que, já antiga, ainda sou do tempo em que os livros eram matéria de engate. Debaixo do Vulcão (no original Under the volcano), Malcolm Lowry, Livros do Brasil

04/07/07

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Lá por uma coisa nunca ter acontecido antes, não quer dizer que não venha a acontecer depois», Woody Allen

Para variar, uma boa notícia

O jornalista da BBC Alan Johnston foi libertado ao fim de quatro meses. Entretanto, o porta-voz do Hamas garantiu estar preparado para entregar o soldado Gilad Shalit a Israel, desde que este aceite definir uma troca de prisioneiros. Uma boa notícia para os familiares de Shalit, neste momento em Lisboa, juntamente com familiares dos soldados Eldad Regev e Ehud Goldwasser, no âmbito de uma campanha internacional para a libertação dos soldados israelitas que Ehud Olmert não conseguiu resgatar durante a segunda guerra no Líbano.
Na foto: Alan Johnston, acompanhado por palestinianos, pouco depois da sua libertação (fonte: Haaretz)
http://www.haaretz.com/hasen/spages/878200.html

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Les Dalton nous prouvent qu'il y a un avenir pour les imbéciles. Nous sommes donc tranquilles», René Goscinny

03/07/07

Bufaria a sério


1. O ex-embaixador Joseph Wilson veio a público denunciar a manipulação de informações para justificar a invasão do Iraque
2. O ex-acessor da Casa Branca Lewis "Scooter" Libby, em retaliação, fez saber à imprensa que Valerie Plame, mulher do ex-embaixador Joseph Wilson fora agente da CIA
3. Nos EUA é crime divulgar a identidade dos agentes secretos e o Tribunal condenou Libby a dois anos e meio de cadeia
4. Bush comutou a pena para uma multa de 250 mil dólares e dois anos de liberdade condicional, declarando que Libby já estava arrumado profissionalmente e que a mulher e os filhos também já tinham sofrido muito.
5. A guerra no Iraque continua, contabilizando já, segundo a organização Iraq Body Count, entre 66807 e 73120 mortos http://www.iraqbodycount.org/


A conspiração dos estúpidos

«I respect the jury’s verdict. But I have concluded that the prison sentence given to Mr. Libby is excessive.», Bush sobre a sentença de prisão de I. Lewis Libby Jr.

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«In the end all a man really needs is a good smoke and a cup of coffee», Sterling Hayden, em Johnny Guitar de Nicholas Ray

02/07/07

Eu Hoje Acordei Assim

Graças ao desafio lançado por Charlotte, do http://bomba-inteligente.blogspot.com/para que elegesse 5 livros. Cá vai a lista, sem ordem de preferência.

O Último Justo, Andre Schwartz-Bart, tradução de Fernando Moreira Ferreira e António Ramos Rosa, Europa-América, 1960 (reeditado em 2003)
Título antigo – comprei-o recentemente em Cascais nos saldos de rua da Livraria Galileu. Indispensável para quem queira entender a história do povo judeu. E, por favor, esqueçam as lamechices de Elie Wiesel…

A Vingança de Gaia, James Lovelock, Gradiva, 2007
Esclarecedor, polémico e assustador. A ecologia em versão politicamente MUITO incorrecta num livro que acaba a mandar-nos para o Norte da Europa. Onde a salvação da espécie talvez ainda seja possível

How Mumbo-Jumbo Conquered the World: A Short History of Modern Delusions, Francis Wheen, Harper Perennial, 2004
Há uma tradução brasileira na Record e a Bertrand publicou em 2003, do mesmo autor, Karl Marx: Biografia, com tradução de José Luís Luna. Hilariante, Mumbo-Jumbo desafia a inteligência do leitor e devia ser lido por todos os que têm o coração à esquerda. Talvez lhes melhorasse a máquina.

Viagens no Tempo no Universo de Einstein, J. Richard Gott, Quasi, 2007
Um delírio. Uma vertigem. Houve alturas que precisei de um papel e de um lápis. Outras alturas desisti da viagem. Outras houve em que cheguei lá com a ajuda de uma aspirina.

Salammbô, Gustav Flaubert, tradução e notas de Pedro Tamen, Relógio D’Água, 2007
Porque adoro Flaubert. Porque adoro Pedro Tamen. E porque há livros obrigatórios para quem quiser entrar no clube dos «leitores inteligentes» de que fala com justiça Enrique Vila-Matas. Sem pretensões. Porque nunca entraria em nenhum que me aceitasse como sócia.

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama


http://www.youtube.com/watch?v=RPyyNaYpqf8
http://www.youtube.com/watch?v=HHdc418_Now

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01/07/07

Mulherzinhas

Ao contrário de certas representantes do meu sexo, algumas delas intrépidas defensoras da causa feminista, não nutro qualquer simpatia por Carolina Salgado.
Agora, atendendo à notícia publicada no «Jornal de Notícias» - que cita depoimento ao Ministério Público de Fernanda Freitas onde esta revela que, com a publicação do livro (sobre a sua vida com Pinto da Costa) «Carolina actuou por motivações económicas e de vingança, mas alegando que queria proteger-se» -, parece que a teoria da pobre mulher usada, batida e humilhada sofre assinalável rombo.
A não ser que as mesmas intrépidas militantes passem a olhar Fernanda Freitas como uma traidora à classe que, com as suas declarações, se vendeu ao inimigo.
Seja como for, à editora Dom Quixote é que já ninguém lhe tira o best-seller. Olarilas!

Descanso merecido

Oh meu ardente Algarve impressionista e mole,
Meu lindo preguiçoso adormecido ao sol,
Meu louco sonhador a respirar quimeras,
Ouvindo, no azul, o canto das esferas

Versos de João Lúcio

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

Samuel Beckett foi um dia ao alfaiate mandar fazer umas calças. Depois de várias provas e contra-provas, conseguiu que o homem desse por finalizado o trabalho ao fim de seis semanas. Apesar de ter ficado contente com o resultado, Beckett fez-lhe notar a demora:
«Seis semanas para me entregar um par de calças?! Afinal, Deus conseguiu fazer o mundo em não mais do que seis dias...»
«Meu caro senhor», respondeu-lhe o alfaiate, «olhe bem para estas calças. Depois de olhar bem para elas, olhe para o estado do mundo».
E agora que contei esta história, não sei se isto é realmente um Pensamento Reconfortante Antes De Ir Para A Cama.
Foto: Earth, Basquiat

Importa-se de Repetir ou a Arte de Joe (III)

«Eu não queria um museu para mim. Queria um museu para todos nós. O museu não é meu. É de todos», comendador Joe Berardo

Ele Falou e Disse ou a Arte de Joe (II)

«Já o disse muitas vezes ao Governo: nós temos que deixar de pensar pequenino. Portugal tem uma história e cultura incalculável. É preciso valorizar isto», comendador Joe Berardo