06/06/07

Bag! Bag!

Quanto maior melhor. Eis um lema que se aplica como uma luva às malas deste Verão. Enigma vedado ao homem e, quantas vezes, à própria mulher que o transporta, as malas tornaram-se numa verdadeira gruta de Alibabá, não só pelo tamanho grande mas também pelo valor monetário que chegam a alcançar. Com preços que são, frequentemente, verdadeiros atentados à bolsa, o mercado de luxo da moda percebeu o que tinha a ganhar apostando neste tipo de artigo que, contas feitas, garante lucros bastante superiores aos da roupa propriamente dita.
Segundo a Eurostaf, só para o ano de 2006, o mercado mundial de marroquinaria de luxo e alta gama movimentou 11 mil milhões de euros, apresentando uma taxa actual de crescimento superior a 7% relativamente ao período de 2001-2004. Não admira, pois, que todas as grandes marcas se virem cada vez mais para o negócio dos acessórios. E, quem fala de acessórios fala de malas, um dos produtos mais susceptível de ser usado como distintivo. Sobretudo, quando opta por dimensões XL. Um mala como «Tribute», criada para este Verão pela Louis Vuitton, patchwork manufacturado a partir de 15 malas LV diferentes, numa edição estritamente limitada e numerada, não será, com certeza, democrática (o preço ultrapassa os 34 mil euros). Estamos, aqui, nos antípodas da «I’m not a plastic bag», desenhada por Anya Hindmarch, e que, no mercado em Abril, rapidamente se tranformou num ícone, tendo esgotado por completo (custava cerca de oito euros; neste momento, na eBay já pode ultrapassar os 370). Num caso ou noutro, as malas siginificam muito mais do que malas. Imagem (mesmo quando nega visibilidade à marca, como continua a ser a opção da Hermès), símbolo de uma atitude ou de um status, essa coisa cheia de coisas que as mulheres insistem em levar consigo continuará a ser um negócio milionário, pelo menos até ao dia em que as mulheres decidam livrar-se delas e gritar: «o diabo que as carregue!» Às malas, naturalmente.

Saldanha Sanches e os suspeitos que não é costume

Em Portugal, ao contrário de outros sítios um pouco melhor frequentados, a normalidade diz que somos todos culpados até provarmos ser inocentes. José Luís Saldanha Sanches que, segundo o próprio, não pretende ser a miss simpatia (nem eu, nem eu) deu uma entrevista à «Visão» onde proferiu uma frase que anda a pôr muita gente nervosa: «Nas autarquias da província, há casos frequentíssimos de captura do Ministério Público pela estrutura autárquica.» A afirmação poderá ser verdadeira. Mas assim é fácil. Porque criar um clima de suspeita sobre os magistrados do Ministério Público sem acusar ninguém em particular é uma atitude terrorista e intelectualmente desonesta. Não há ninguém acima da lei, mas métodos maoístas para acabar com a corrupção não são admissíveis em democracia.

Enrique Vila-Matas em Fuga

Terminei a leitura de Enrique Vila-Matas em Barcelona. A circunstância geográfica seria irrelevante, não fora o gosto do próprio pelos acasos e coincidências. «Desgraciadamente», como diria Borges, «el mundo es real», e não me cruzei com ele na sua cidade, nem tão pouco com o seu avatar, Doutor Pasavento, também título do livro que levo na bagagem. Última obra de Vila-Matas publicada entre nós (teria merecido tradução e revisão mais cuidadas), Doutor Pasavento conta a história de um homem que, digamos assim, decide desaparecer para ver o que acontece. Escrito à sombra do «vagabundo imóvel» Robert Walser, escritor suiço que passou os últimos 23 anos de vida numa instituição psiquiátrica dedicando-se à delicada tarefa de ser um louco exemplar, Pasavento deseja também experimentar libertar-se de si próprio, decidindo-se por uma fuga sem fim, à semelhança de Franz Tunda, personagem «supérflua» criada por esse outro deserdado da literatura chamado Joseph Roth. Como quase sempre na escrita de Vila-Matas, tudo aqui se confunde. Vida e literatura, verdade e fingimento, ensaio e ficção. Um escritor espanhol ensaia o desaparecimento, na vã ilusão de que, como a Agatha Christie, alguém dê pela sua falta. A ele, contudo, ninguém o procura. Transformado em Doutor Pasavento, e noutros heterónimos como Ingravallo ou Pynchon, deambula pelo mundo (até por Lisboa...), prova viva do «desaparecimento do sujeito», mistura de Walser, Bove, Cravan, Blanchot, Salinger, Pynchon, todos, enfim, parentes mais ou menos próximos desses «escritores do Não» que Vila-Matas já havia visitado em Bartleby e Companhia. Fragmentário e elíptico, Doutor Pasavento é um projecto sem fim nem solução à vista: «(...) suspeito que toda essa paixão por desaparecer, todas essas tentativas, chamemos-lhe suicidas, são ao mesmo tempo tentativas de afirmação do meu eu». O autor, que «no fundo, queria ser poema», é um persuasivo farsante. Parafraseando Borges: «yo, desgraciadamente, soy Vila-Matas»?

Bernard-Henri Lévy on the road

Não é a primeira vez que «The New York Review of Books» discorda de Bernard-Henri Lévy. Aquando da saída do seu livro Quem Matou Daniel Pearl? (Livros do Brasil, 2003), William Dalrymple seria demolidor, acusando-o de erros factuais, informações falsas e investigação amadorística. A propósito de Vertigem Americana, não se pode dizer que tenham sido mais simpáticos. «Lévy is short on the facts, long on conclusions», resumiu Garrison Keillor, directamente «to the point». No «San Francisco Chronicle», Michael O’Donnell não foi mais meigo. Referindo-se ao subítulo da obra, «Uma viagem pela América profunda seguindo os passos de Tocqueville», sublinhou a vacuidade da ideia que lhe subjaz, segundo ele tão despropositada como a de alguém que pretendesse ter escrito Madame Bovary II. A ideia, porém, não foi de Lévy. Vertigem Americana resulta de um convite feito pela revista «Atlantic Monthly», para que, durante um ano, ele refizesse a viagem aos EUA do francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), da qual nasceu A Democracia na América (Principia, 2002), obra que se tornaria num marco do pensamento político, inspirada defesa da democracia e não menos inspirada reflexão sobre os perigos que ela própria engendra. Vertigem Americana não corre esse risco. A intenção parecia boa. Como Tocqueville, também BHL se propunha «misturar as coisas vistas com o pensamento», e isto apesar das suas interrogações, passados 172 anos, serem outras. Em primeiro lugar, o anti-americanismo. Depois, «a questão ontológica» europeia. Finalmente, o actual estado de saúde da democracia americana. Todo um programa! Tocqueville fora mais modesto. A sua viagem visava, tão só, estudar o sistema prisional americano. Chegado, porém, a esse Novo Mundo em turbilhão, «open mind» «avant la lettre», mergulha numa realidade que o surpreende e fascina e dessas «coisas vistas» cria um pensamento original. Ora, nada do que Vertigem Americana nos traz é particularmente original ou, sequer, novo. Claro que nas 366 páginas escritas por BHL (sem qualquer episódio de humor, mesmo tendo ele percorrido 20 mil quilómetros!), podem colher-se informações interessantes ou desconhecidas para o leitor. Páginas somadas, as ideias são fracas e a maioria das reportagens banal. A entrevista a Sharon Stone, a cruzar e a descruzar as pernas enquanto critica Bush, é patética. O retrato de Woody Allen a tocar clarinete em Nova Iorque não acrescenta nada, mesmo que nunca o tenhamos ouvido tocar clarinete ou ido sequer a Nova Iorque. O encontro com uma bailarina de «lap dancing» de Las Vegas confirma a «miséria erótica em meio puritano», mas teria sido preciso ir ao deserto? E que aprendemos de novo sobre o criacionismo, os malls ou o lobby das armas? E, já agora, o que é que Lévy realmente pensa de Billy Kristol ou de Fukuyama? A descrição de Los Angeles como «anti-cidade» é dos piores momentos do livro, exemplo maior da pomposidade do estilo e do vazio de ideias. Como assinalou David Singerman, no fim, a única coisa que conseguimos concluir é que LA é grande. Além de que alguém percebe o que quererá dizer: «Uma cidade ininteligível é uma cidade cuja historicidade não é mais do que um remorso sem idade»? No final, BHL conclui que os EUA, apesar dos erros e fragilidades, não são o Império do Mal, possuindo energia suficiente para «entrar em beleza no novo século». Para filósofo, é pouco. Por estas e por outras, para entender a América de hoje, será preferível ler Tocqueville ou Notas sobre um País Grande, de Bill Bryson. Quanto a BHL, foi-lhe dedicado Une imposture française (2006, Les arènes), de Nicolas Beau e Olivier Toscer, jornalistas, respectivamente, do «Canard Enchaîné» e do «Nouvel Observateur». Também podíamos ler. E só um acrescento: o que era aquele prefácio do Diogo Freitas do Amaral?!! (e, repare-se, eu que detesto pontos de exclamação neste texto já usei vários).