20/06/07

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Quer visitar a Terra daqui a mil anos? Einstein mostrou como fazê-lo. Tudo o que precisa é entrar numa nave espacial, ir até a uma estrela a pouco menos de 500 anos-luz de distância e regressar, viajando em ambos os sentidos a 99,995% da velocidade da luz. Ao voltar, a Terra será mil anos mais velha, mas o leitor só terá envelhecido 10 anos. Tal velocidade é possível - nos nossos maiores aceleradores de partículas levamos os protões a velocidades maiores do que essa (a maior até agora foi de 99,999946% da velocidade da luz no Fermilab).
J.Richard Gott, Viagens no Tempo no Universo de Einstein

19/06/07

História abreviada de um encontro em Bruxelas

Hoje li um post no blogue Da Literatura, em que Eduardo Pitta se refere a uma amiga belga com perto de 80 anos, tradutora de poetas portugueses. O post, que, além do mais, me deixou a leve suspeita de eu própria me ter cruzado com a amiga de Pitta na capital belga - e tanta coincidência já serviria de capítulo a Vila-Matas -, fez-me recordar uma outra senhora, também de idade avançada e igualmente tradutora embora de italiano, que conheci em Bruxelas durante um workshop de meia dúzia de dias para o qual alguém teve a amabilidade de me convidar. O jantar era poliglota e o francês era a língua franca. A tradutora italiana, de apetite frugal, a dada altura perguntou se podia acender um cigarro, se isso não nos incomodaria. Ninguém se acusou e ela acrescentou em tom blasé, após um gole demorado de conhaque: «Bom, é que eu sou do tempo em os homens fumavam charuto e andavam a cavalo». Nunca mais a vi. Aposto que, se estiver viva, continuará a sonhar com Don Fabrizio de Salina.

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Men become much more attractive when they start looking older. But it doesn't do much for women, though we do have an advantage: make-up.», Bette Davis

A ver passar os comboios, perdão aviões

Primeiro, garantia José Sócrates, o Governo já tinha feito todos os estudos: era para a OTA e em força. Depois veio a CIP, para Alcochete e em força. Foi a vez da Associação Comercial do Porto: é para Portela+1 e em força. E eu, que ainda não consultei o Google Earth para distinguir as localizações, estou cada vez mais baralhada. Terá o novo aeroporto smoking area? Ora aí está uma pergunta que gostaria de ver respondida.

18/06/07

O Afeganistão, lá tão longe

O exército norte-americano pediu desculpas pela morte de sete crianças num ataque a uma madrassa e a uma mesquita na província afegã de Paktika, alegando que as mesmas terão sido obrigadas a permanecer dentro do edifício pelos combatentes afegãos. Entretanto, em Kabul, um ataque suicida a um autocarro de polícias afegãos matou 35 pessoas e deixou feridas 52. O ano passado, dados da BBC apontavam para quase 4 mil mortos no país, entre os quais, cerca de mil civis. Este ano, calcula-se que o número já tenha chegado às 2 mil pessoas.

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«... o facto de as crenças religiosas exercerem uma grande influência sobre a vida humana nada nos diz acerca da sua validade. Para o paranóico, perseguido por ilusões persecutórias, o horror à CIA pode ter uma grande influência, mas isso não significa que os seus telefones estejam de facto sob escuta», Sam Harris, «O Fim da Fé»

Algarve: questão que eu tenho comigo mesma

Estive no Algarve, ali para os lados da costa vicentina, onde a pressão imobiliária também se faz sentir, não pensem, só que menos em altura e mais em comprimento. Em Alzejur, terra sem praia e, por isso, menos castigada pela construção, só na vila contei quatro museus!!! Infelizmente - arrisco, porque não sei se valiam a visita -, estavam todos fechados: domingos, segundas e feriados não há nada para ninguém. Quanto ao posto de turismo, idem aspas: ao fim-de-semana não dão informações. O castelo encontrava-se aberto, mas suponho que só porque não vale a pena trancá-lo: um resto de muralha sem data nem história que se perceba, com a devida pincelada de cimento e o interior ao abandono. Já não dá sequer para Pousada. E voltei a lembrar-me do O'Neill
«ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!»

16/06/07

Caso Sócrates: Do Portugal Profundo e do canudo Farinha Amparo

António Balbino Caldeira, do blogue Do Portugal Profundo, foi ontem, sexta-feira, 15 de Junho de 2007, declarado arguido de um processo e testemunha de outro, a respeito do caso do percurso académico do primeiro-ministro José Sócrates. Também convocarão Marcelo Rebelo de Sousa que, na televisão, chamou ao canudo de Sócrates, um diploma Farinha Amparo? Ou o professor suspenso do DREN, por ofensas ao primeiro-ministro? Ou Pulido Valente? Ou os Gatos Fedorentos? Ou todos os bloguistas ou jornalistas que escreveram sobre o assunto? Irão todos os portugueses que se pronunciaram a tribunal? É que, se não somos todos Balbino, pelo menos somos muitos. Ver:
http://doportugalprofundo.blogspot.com/2007/06/arguido-por-causa-do-dossier-scrates.html

Pensamento reconfortante antes de ir para cama


«Poeminha do contra», do brasileiro Mário Quintana


«Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão
eu passarinho»

15/06/07

Kurt Waldheim, «Alegadamente» Nazi?!

O advérbio de modo incluído em muitas notícias que dão conta da morte do antigo Secretário-Geral da ONU e presidente austríaco Kurt Waldheim causaram-me uma crise de urticária. Porque não há «alegadamente» nenhum que o salve de um passado comprometido com o nazismo. Até que ponto, é outra conversa. Mas convinha manter barreiras morais, mesmo sabendo-se como elas são difíceis de manter.

14/06/07

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«O que provoca as bexigas é fitar as estrelas», Ramón Gómez de la Serna, ao lado, em «O Médico Inverosímil».

Momento Zen


«Nós temos tudo o que tem saído na comunicação social, nos blogues, ofícios, em tomadas de posição, em artigos de opinião...»
Margarida Moreira, educadora de infância e directora regional do DREN, em entrevista ao Diário de Notícias

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

Karl Kraus (no boneco ao lado) sobre a psicanálise:
«A teoria antiga negava a sexualidade dos adultos. A moderna diz que os bebés têm prazer sexual enquanto defecam. A antiga era melhor, ao menos podia ser contraditada pelas partes envolvidas»

13/06/07

A «Pastelaria» do Cesariny, que é 100 vezes melhor do que a minha

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado nem horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madama blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente: Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«Um mundo que conseguiu criar o Taj Mahal, William Shakespeare e pasta de dentes às riscas não pode ser assm tão mau»
James Cagney em «One, Two, Tree» de Billy Wilder (no boneco ao lado)

11/06/07

Feira do livro: o ritual do autógrafo

Sou uma pessoa antiga. Fui à Feira do Livro de Lisboa, por onde gosto de passear há anos. Não encontrei quase nenhumas pechinchas, a não ser em alguns (poucos) stands de editoras que, ao livro do dia e ao desconto oficial, acrescentam uma zona de saldos. Encontrei, porém, muitos escritores, acomodados em cadeiras e mesas de plástico, protegidos à sombra de chapéus de sol, perfilados à espera de clientes, perdão, de leitores. Cumpriam o ritual do autógrafo. Lembraram-me os feirantes das barracas de tiro da antiga Feira Popular. E, como usei agora mesmo a palavra perfilados, lembrei-me do poema do O'Neill: «Aventureiros já sem aventura,/perfilados de medo combatemos/irónicos fantasmas à procura/do que não fomos, do que não seremos.» Era triste. Apesar das pechinchas que, ainda assim, trouxe para casa.

10/06/07

Mapas de rua Google

A casa não é minha mas é verdade que ando a ficar um bocado assustada com isto. O 1984 foi há uma data de anos e o Orwell já cá não está para lhe perguntarmos a opinião. Resumindo: «God is dead, Orwell is dead, and I don’t feel too well myself»

A Vingança de Gaia

Eles não se entendem. Há um alemão que prevê furacões, há um português que prevê seca. E nunca a meteorologia foi tão mediática. O aquecimento global tornou-se conversa de café, apesar de haver cada vez menos cafés onde se converse. Embora seja um post gigantesco, vou transcrever o texto que escrevi para o jornal Expresso e que foi publicado este fim-de-semana. Traz entrevista com James Lovelock, o cientista que nos aconselha a fugir o mais depressa possível para o Norte. Não do país, mas do planeta. Segue o artigo:

No final de 2006, James Lovelock afirmava à revista «Veja»: «Até ao fim do século XXI, é provável que cerca de 80 por cento da população humana desapareça. Os restantes 20 por cento irão viver no Árctico e em alguns, poucos, oásis de outros continentes, onde as temperaturas forem mais baixas e houver um pouco de chuva». A citação vem assinada por um homem de ciência que não faz futurologia nem tem conversas com Deus. Ainda assim, o retrato que traça da evolução próxima da Terra (A Vingança de Gaia, Gradiva, 2007) está longe de nos garantir o sono dos justos. Poderá ele estar enganado? Afinal, ao contrário das religiões, errar é próprio da ciência: «Na ciência não existem certezas, apenas possibilidades. Penso, porém, que a probabilidade de catástrofe climática é tão grande que não nos podemos atrever a ignorá-la», concluiu na entrevista, via e-mail, que acedeu dar ao Expresso. São palavras sensatas que, em certa medida, nos confortam da histeria politicamente correcta levada ao rubro pela jornalista Ellen Goodman nas páginas do «Boston Globe»: «Let's just say that global warming deniers are now on a par with Holocaust deniers, though one denies the past and the other denies the present and future»
De súbito, sem cerimónia e sem que nos apercebessemos, o aquecimento global puxou da cadeira e sentou-se à nossa mesa. Como tema de conversa, ultrapassou a biodiversidade, a fome em África, a guerra no Iraque, a pedófilia, a vida íntima de Cristo ou qualquer outro assunto da agenda global. A preocupação com o estado do tempo, tradicionalmente uma esquisitice britânica, conquistou o público de todos os continentes, da Europa à Austrália, passando pelos EUA, e aí apesar de Bush mas certamente graças a Al Gore e ao seu oscarizado Uma Verdade Inconveniente, filme que se manteve nos tops de bilheteira, mesmo depois das contas de electricidade do antigo candidato à Casa Branca terem sido tornadas públicas pelo «Tennessee Center for Policy Research»: mensalmente, um gasto de energia 20 vezes superior ao de que qualquer outro lar americano.
Lovelock não é um político. Em A Vingança de Gaia não se mostra excessivamente entusiasmado com o Tratado de Quioto e, à nossa pergunta sobre a corrida aos créditos de carbono (possibilidade oferecida às indústrias ou países mais poluidores para continuarem a emitir GEE negociando créditos alheios), o cientista respondeu num tom «blasé» pouco abonatório para os homens da governação: «Não se deve culpar as empresas por quererem realizar lucros quando os governos são suficientemente idiotas para oferecem subsídios». Os subsídios a que se refere dizem respeito a dois ítens que fazem as delícias dos Verdes e sobre os quais se mostra particularmente crítico: «Não duvido do valor das energias renováveis e a verdade é que utilizámos largamente a energia hidráulica muito antes de terem começado as preocupações ambientais, e o mesmo seria verdade para a energia das marés se optássemos pela sua utilização. São económicas e não necessitam de subsídios. Já a energia eólica e os biocombustíveis, considero-as pouco económicas e eficazes, sendo propostas em grande parte como gestos políticos. Além de sujeitas a subsídios, o que geralmente permite concluir que se trata de um empreendimento com falhas, ambientalmente são mais nocivas do que benéficas». Sabendo-se que, até 2010, Portugal vai investir (segundo estudo da Espírito Santo Research) 6,4 mil milhões de euros em energias renováveis, 69,4 por cento dos quais nas eólicas, percebe-se melhor por que é que o criador de Gaia, não sendo um político, pode ser, por vezes, tão incómodo.
Prolífero e polémico também. Nascido em 1919, tem formação em química, medicina e biofísica. Inventor encartado, ganharia visibilidade quando, na década de 70, lança, com a bióloga Lynn Margulis, a hipótese de Gaia, uma visão da Terra que, metaforicamente, a propõe à imagem e semelhança de um organismo vivo. Gaia, nome sugerido a Lovelock pelo escritor William Golding durante um passeio dos dois pelo campo inglês, transformar-se-ia numa bandeira «New Age», embora o cientista, bem positivo, nunca tivesse pisado tais pântanos. O facto é que se viu criticado pelos seus pares: «Os críticos de Gaia foram, de início, principalmente cientistas especializados em disciplinas como a biologia e a geologia e eram muito ruidosos. Os cientistas especializados em clima acolheram bem Gaia e continuam a fazê-lo. Como não sou uma pessoa insensível, foi-me difícil aguentar as críticas e estas duraram mais de 20 anos», confessou na entrevista ao Expresso.
O corte radical com os Verdes (que já tinha sido ensaido na polémica que os opôs a Lovelock a propósito dos CFC) dá-se quando, para surpresa de muitos, o homem a quem a revista «New Scientist» atribuíra o título de «Ghandi da Ciência» aparece a defender o nuclear como única alternativa real aos actuais problemas energéticos. Quando lhe perguntamos «Mas, e então Chernobyl?», a resposta chega rápida: «Se nos últimos 40 anos a indústria aeronáutica tivesse tido dois acidentes, um causando a perda de 75 vidas e o outro apenas três, acha que a consideraríamos pouco segura e teríamos medo de voar? Aparentemente não, porque houve milhares de acidentes mortais e mesmo assim continuamos a andar de avião. Portanto, porquê pegar só nos acidentes negativos em 40 anos de energia nuclear? A maioria das histórias contadas pelos lobbies dos Verdes sobre energia nuclear são disparates, histórias semelhantes às que nos impingiam no século XIX sobre o diabo e os lobisomens. A última contagem das agências das Nações Unidas sobre Chernobyl afirmava que houve 75 mortos entre os trabalhadores da central e as equipas de limpeza. E foi tudo. Veja o sítio UNSCEAR na web». A sugestão fica dada.
Todos estes e outros assuntos estão devidamente explanados em A Vingança de Gaia, um livro não aconselhado a pessoas sensíveis. Energias alternativas, agricultura biológica, desenvolvimento sustentado, todos os conceitos que nos habituámos a pôr na lista dos bons da fita são passados a pente fino. Por e-mail, Lovelock reafirma o que escreveu: «A teoria de Gaia é interdisciplinar e vê a Terra passando agora do estado frio que os geólogos denominam «casa de gelo» (icehouse) para um estado de calor a que chamam «estufa» (greenhouse). Uma vez iniciado, o movimento é irreversível – aquilo que fizemos foi desencadeá-lo. Não só o movimento é efectivamente irreversível como, mesmo que o pudéssemos contrariar, a inércia das reacções humanas impediria qualquer acção útil em menos de 30 anos. Acha que podemos esperar que a China, a Índia e os EUA deixem de queimar carvão nesse prazo de tempo? É por isso que digo que precisamos de retirar de forma ordeira para as regiões mais frescas do Norte, onde os alimentos possam continuar a ser cultivados».
Mas, e o se o aquecimento global for um mito, como alguns cépticos insistem em defender? Pusemos a questão: «O climatologista Richard Lindsen tem sido uma das vozes mais críticas, falando mesmo de perseguição aos cientistas que discordam da “visão alarmista do aquecimento global por acção humana”. Dada a posição de cientista independente que sempre fez questão de manter ao longo da sua carreira, com as subquentes vantagens e desvantagens de tal estatuto, a presente unanimidade climática não lhe causa nenhuma estranheza?». Lovelock respondeu: «Apenas uma pequena minoria de cientistas duvida de que somos a principal causa do aquecimento global. Richard Lindsen é um cientista respeitado e pode, como eu nos primeiros tempos de Gaia, ter razão. O que há de maravilhoso na ciência é que a natureza é o árbitro final.». Ora aí está uma resposta que as Ellen Goodman deste mundo nunca nos conseguiriam dar.

09/06/07

Juan Rulfo a preto e branco

Escreveu pouco, falou quase nada. E depois fez fotografias assim. Quem não ouvir o silêncio desta imagem é porque é surdo. Tenham um bom fim-de-semana!

08/06/07

Anatomia correcta

O actor Isaiah Washington, vulgo Dr. Burke para os amantes de «Anatomia de Grey», foi corrido da série porque chamou maricas ao actor George O'Malley. Há uns anos, O.J. Simpson, com um longo passado de violência doméstica, foi absolvido em tribunal da acusação de ter morto a mulher à facada. Uma coisa não terá nada a ver com a outra, a não ser no facto de ambos serem negros e de um ter sido enviado para o desemprego e o outro para a liberdade. Assuntos fracturantes, é o que é...


Leituras obrigatórias


Desde que li «Complexo de Portnoy», das coisas mais divertidas que já li em toda a vida, nunca mais parei. Este chegou agora a Portugal. Aproveitem as feiras do livro e comprem com desconto. Entre ele e o Saramago, decidam quem merecia o Nobel. Pois... nestas coisas como em outras, não sou patriota, não senhora.