03/02/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «NO PASA NADA»

« (...) uma nota sobre o último escândalo semântico-ó-hermenêutico que, neste caso, envolveu a agência de notícias norte-americana Associated Press (AP), uma das maiores e mais conceituadas do mundo.

Num esforço hercúleo para não excluir nem ofender ninguém (ou será para não “incluir” ninguém?) a agência pediria aos seus colaboradores para não escreverem “the French”, expressão considerada inapropriada por denunciar um monolitismo que não levaria em conta a diversidade dos cidadãos/das cidadãs e etc.

A recomendação era a de “evitar designações genéricas e muitas vezes desumanizadoras, como os pobres, os doentes mentais, os franceses, os deficientes…”

E numa tentativa de se explicar melhor, a agência acrescentaria o exemplo de “pessoas com rendimentos abaixo do limiar de pobreza”, formulação sempre preferível a “the poor” (os/as e etc. pobres em português).

Se para o estômago de um poor, como entenderá facilmente mesmo quem nunca passou fome, ser chamado “pobre” ou “pessoa com rendimentos abaixo do limiar da pobreza” não fará grande diferença, quem responderia à Associated Press seria a própria embaixada francesa mudando temporariamente o seu nome para “Embassy of Frenchness in the United States”, uma solução adequada a esta problemática conotativa/ denotativa que me levou a recordar um americano do New Hampshire a viver em Chefchaouen nos finais da década de 80 e que, à viva força, queria livrar-se da sua nacionalidade. Abandonado em Marrocos pela mulher, que o trocara por uma amiga comum, era etólogo de formação e encontrava-se no país a estudar os macacos das montanhas do Rife. Tendo já tentado emigrar para o Canadá por três vezes, a recusa das autoridades canadianas em aceitá-lo levara-o a concluir que como etólogo nunca teria hipóteses. A última vez que o vi estava a considerar tentar de novo, mas declarando-se antes canalizador ou motorista de pesados. (...)»

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