09/03/13

Pior é sempre possível

Parafraseando Coluche, magnífico palhaço que não fora ter morrido prematuramente talvez chegasse ao poder em França: “Portuguesas, portugueses, o ano passado correu muito bem, este ano será pior”.
Os políticos queixam-se do populismo. Têm razão em estar preocupados; o facto é que a fama deles vem de longe.
Mark Twain, que não consta tivesse sido taxista, afirmou estar convencido que os poderes intelectivos do Homem não são superiores aos de o macaco, no que toca à religião e política. Para tornar a coisa absolutamente clara acrescentou: “Suppose you were na idiot. And suppose you were a member of Congress. But I repeat myself“.
Poderia fazer agora uma longa lista de citações depreciativas sobre políticos. Uma lista honesta. Não quero maçar ninguém com o assunto, mas não resisto a acrescentar algumas evidências.
Napoleão, por exemplo, terá dito: “Em política, a estupidez não é um handicap”. Séculos passados, Groucho Marx interpretou a frase da seguinte forma: “Politics is the art of looking for trouble, finding it everywhere, diagnosing it incorrectly and applying the wrong remedies.”
Quem poderá dizer que estava errado? Não, decerto, à luz da recente sugestão de João Salgueiro: “É assim tão difícil pôr pessoas a limpar matas?” (pergunta que alarga obviamente o âmbito da máxima napoleónica e torna legítimo que afirmemos: “Em economia, a estupidez não é um handicap”).
Se Salgueiro falou com propriedade de matas, já o papel de Paulo Portas como caixeiro-viajante na Índia parece um pouco deslocado. Afinal, esperaríamos que o número dois do governo discorresse sobre política e não sobre fitness e azeite.
Digam o que disserem, isto piorou muito deste a Revolução Francesa. Para não falar do Magalhães. O socrático.

01/03/13

Sobre democracia...

We Bring Democracy To The Fish

It is unacceptable that fish prey on each other.
For their comfort and safety, we will liberate them
into fishfarms with secure, durable boundaries
that exclude predators. Our care will provide
for their liberty, health, happiness, and nutrition.
Of course all creatures need to feel useful.
At maturity the fish will discover their purposes.

Donald Hall

28/02/13

Rudolfo, o bipolar. E nós pagamos a este gajo?

Num país sério, este tipo ia para a rua, não ia?
Vamos lá ver. O referido, de seu nome Rudolfo Rebêlo, não é humorista. Não é cronista. Não é comentador. Não é deputado. Não é um cidadão anónimo a fazer uma graçola no facebook.
Este Rudolfo é assessor do primeiro-ministro. De primeiro-ministro, para ser mais exacta e preposicional.


Na terça-feira decide armar-se em piadético e tornar pública no seu mural no Facebook uma carta redigida por ele, assinada supostamente pela Lagarde e supostamente em resposta à carta do Tó Zé ao FMI (a carta não foi escrita para os amigos do Rudolfo no FB, é de acesso público).

Eu estou-me a borrifar para a Lagarde e para o Tó Zé. Mas até eu, que me estou a borrifar para a Lagarde e o Tó Zé, terei mais sentido de Estado do que este palhaço bipolar.
A coisa, ou seja, o país, oscila entre o circo e a creche. 


Parafraseando um ex-secretário de Estado, "vai tomar no cu", Rudolfo. Ou isso, ou chá. 


Este cartaz merece. Do Rui Fazenda.


Palavra de ordem para a manif. de 2 de Março: Que Se Lixe a Troika, Queremos a TV Rural de Volta.



Roubada no criativo mundo do facebook.

A book a day keeps the doctor away: lido e recomendado

25/02/13

“De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu”


A prova de que Portugal não aguenta tamanha austeridade está no ritmo das anedotas. Fait divers que se transformam em casus belli, e não, não falo do anúncio público do próximo casamento do ministro-adjunto. 
Há tempos foi o levantamento contra Pepa. Indignada com o facto de a jovem ter trocado os desejos de paz, amor e o fim da fome em África pela futilidade de uma mala, a nação falou a uma só voz e a voz de Pepa foi silenciada. 
Tivemos também Zico. Mais de 70 mil assinaturas em defesa de um cão acusado de matar uma criança. A mobilização contra o seu abate surpreendeu tudo e todos incluindo Francisco Louça que, após analisar o “problema de segurança” à luz dos princípios da IV Internacional, assinou a petição. 
Entretanto, José Luís Peixoto foi à Coreia do Norte duas semanas e publicou “Dentro do Segredo”. A leitura do livro, que também poderia ser chamado “O rapto de um telemóvel no país de Kim”, permite concluir que Deus dá vistos a quem não tem unhas e que há países bem mais pitorescos do que o nosso. 
Mais do que pitoresca, exótica, é decerto Erica Fontes, portuguesa que ganhou o prémio XBIZ de melhor actriz pornográfica internacional, algo que teve a virtude de despertar por momentos um povo murcho e deprimido. Bem-haja, Erica, mais o seu “Anally Talented”! 
Franquelim Alves, não sendo loiro, também foi mobilizador. Antes tivéramos o “espremedor da Nutella”, exemplo maior do empreendedorismo jovem, o regresso da “TV Rural” e, por fim, o “quer factura?”. O AO foi metido a martelo no assunto – “tomar” ou “levar” – num debate que se mostrou inconclusivo. 
A última anedota que li é que Miguel Relvas sofre de insónias e quer mandar os jovens para o campo. Fica-nos a faltar um meteorito. Cavalos e cavalgaduras já temos.

23/02/13

A questão preposicional (take two)


Indignar-se, mas só se for em bom português e na ideologia certa



Corre nas redes sociais - e já obrigou as várias autoridades implicadas na coisa a virem esclarecer o sucedido - o texto de uma passageira de um comboio do Norte que assistiu a uma cena que a indignou. 
Resumidamente: tratou-se de uma multa passada ao dono de uma cadela que a transportava no comboio sem bilhete.
O revisor chamou a polícia, o dono do cão foi expulso do comboio, depois de este ter estado meia-hora parado, e levado para a esquadra como se tivesse cometido um crime, tipo assalto ao BPN. 

Preço do bilhete (da cadela) em falta: 2 euros.

O curioso da história são os comentários "politicamente esclarecidos" que alertam para o facto do referido texto conter erros de sintaxe e ortografia, além de denunciar um perigoso amor pelos animais que já Hitler e os nazis... Etc., etc., etc.
Se bem percebo: indignação, mas só se for intelectualmente elevada e meter a Grândola.
Há gente que nasceu parva e há-de morrer parva.

21/02/13

"O mestre e a prima do mestre-de-obras" ou isto não anda nada bem em lado nenhum



A primeira imagem é do carro pintado pela Joana Vasconcelos, numa escolha de cores que "incluiu o vermelho do Benfica, o azul do Porto e o verde do Sporting, mas também o amarelo-torrado e o rosa escuro. Juntas, caracterizam o espectro cromático que está presente na vida dos portugueses e que no IQ permite camuflá-lo para se movimentar na cidade", diz a própria.

A segunda imagem é do Ford 021C desenhado por Marc Newson em 1999.

Mesmo considerando que só o segundo é uma peça de design concebida de raiz e o primeiro apenas pintalgado, a evolução não parece muito prometedora. E nem vou falar de conceitos!

20/02/13

O estado da nação II

Estes tipos são todos mas é uma cambada de paneleiros (no sentido forte que lhe dava o Mário Cesariny).

Anda uma malta pelo país a cantar as Janeiras, perdão, o Grândola - nada de tomates ribatejanos, bengaladas queirosianas, nada de nada -, e eles vá logo de gritar que a democracia foi "abalroada".

Abalroada?!!! Eu queria vê-los era no Titanic.

O estado na nação

Outros povos receberiam os governantes à tomatada. Outros ainda, à pedrada.
Nós recebemo-los com cânticos.
E ainda há quem se queixe do civismo. 
[Claro que haverá sempre quem diga que começam a cantar e qualquer dia fumam...]

19/02/13

Coisas que eu assino por baixo de olhos fechados

«Cruel ironia. Na semana em que o Primeiro-Ministro descreve a economia portuguesa com mais uma das suas fórmulas trôpegas (“a selecção natural das empresas que podem melhor sobreviver está feita”), ficamos a saber, pelo Público, que nove empresários da restauração se suicidaram nos últimos três meses e 11 mil empresas do sector foram à falência. 
José Manuel Esteves, secretário-geral da Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, acrescenta que se trata muitas vezes de “microempresas de cariz familiar, e por isso as consequências são ainda mais gravosas”.
O Governo, entendamo-nos, não pode ser directamente responsabilizado por estas mortes. Mas a frieza dos números mostra a realidade, na vida das pessoas, do “processo de ajustamento” que Passos quer fazer passar por natural, inevitável e certo como uma lei da ciência. Vivemos acima das nossas posses? Pois agora morremos abaixo das nossas posses. As espécies, quando não se adaptam, extinguem-se, lá dizia o Sartre.
Se o Primeiro-Ministro tivesse um bocadinho de mundo fora das jotas, das empresas dos amigos dos concursos ganhos pela mão do Dr. equivalente Relvas, saberia que há metáforas insultuosas. Sobretudo quando vêm de um parasita que sempre fugiu à “selecção natural” graças aos favores de hospedeiros bem colocados. 

A selecção natural actua por pequenos passos, mas até as espécies condenadas à extinção podem perder a paciência.»
AQUI

17/02/13

O grito do Ipiranga II

Como decíamos ayer – que foi o que terá dito Frei Luis de Léon ao retomar a cátedra em Salamanca após cinco anos de cárcere a mando da Inquisição –, o grito do Ipiranga proferiu-o o primeiro-ministro a 6/Fev/2012: “Não sejam piegas!”. O tempo estava frio e seco e a partir daí tem aquecido talvez graças à chuva.
Valha a verdade que, embora o pensamento político de Passos continue a resumir-se àquilo que Eça e Ramalho já haviam verificado ser as ideias do Partido Reformista do seu tempo (“Economias!”), a governação tem-nos oferecido recentemente um pouco de consolo, ou de “conhaque”, se preferirmos o sabor queirosiano. E assim como “Não sejam piegas!” marca o ponto de viragem em que Portugal se assume como país empreendedor capaz de inventar ovos estrelados embalados, a recente “ida aos mercados” inaugura uma era orwelliana em que ao júbilo de pedir dinheiro emprestado a juros mais altos do que aqueles que nos são concedidos pela troika, se acrescenta, em jeito de remate, a contratação de um secretário de Estado que só a incapacidade de síntese de um assessor nos impediu de ver imediatamente tratar-se de um herói nacional.
Este novo paradigma enfrenta, todavia, alguns escolhos do passado. É assim que o país se indignou sem justiça com a lição de moral cristã ditada por Ulrich, cego ao exemplo de humildade que a frase “somos todos iguais” acarreta.
Nada que o governo não resolva com mais uns cortes nos privilégios dos doentes que insistem em adoecer, dos alunos que insistem em não aprender, dos desempregados que insistem em não trabalhar, das mães que insistem em parir.
Caros amigos, isto não é um governo, é uma revolução. Preço da coisa: 4 mil milhões de euros, mais coisa menos coisa.

14/02/13

Ainda é Carnaval?

Pensei que era piada, mas afinal é verdade. Relvas, o grande pensador, respondeu assim quando perguntado sobre o que achava do "tomar no cu": «"respeito e respeitamos" quaisquer opiniões de ex-membros do Governo.» 

Isto é pior do que o Partido Reformista do Eça e do Ramalho.
«De quem gosta mais, do papá ou da mamã?
«Respeito e respeitamos quaisquer opiniões de ex-membros do Governo.»